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Cãogalhão

Um cão é um cão e a sua circunstância. A circunstância do cão é o cãogalhão. Ortega y Gasset, antropocêntrico, só viu que “o homem é o homem e a sua circunstância”. Nunca pisou a circunstância do cão.

Cãogalhão. Objecto urbano salutar. Obus, portanto. Não voa. Só desliza e aterra. Decora calçadas, jardins, terraços. Até dentro de um lar doce lar é plantado. Aqui, os donos resignam-se. Até à plantação seguinte.

À volta de um cãogalhão, há sempre um charco fragrante. O charco seca. A fragrância mantém-se. É a persistência idiossincrática lusa do cãogalhão.

O cãogalhão é obstinado. Transmuta-se. Volta sempre ao lugar onde é feliz. As ruas não são lavadas, por respeito artístico ao cãogalhão e seu charco fragrante.

Cãogalhão atrai a alta tecnologia. A mais comum é o drone varejeiro. Produto de sofisticada nanotecnologia pode medir até cerca de 12 mm. Tamanho diminuto mas obsidente. Cerca qualquer humano por todos os lados.
O drone varejeiro tem a designação científica de “calliphora vomitoria”. Pode causar calliphora, ou aqui dentro, vomitório incontido. Voa com o ruído característico dos drones. Faz sucessivos loops à volta do cãogalhão. Paira. Aterra. Saciado, levanta voo. Invade as casas dos humanos. Atrai outros drones varejeiros. Reproduz-se com vaidade. Irrita.

Não possuo, há muito, um cão. E, dentro do lar amargo lar, não há vestígio de cãogalhão. Mas gosto muito dos amigos de quatro patas. Apesar de desconfiar das suas fidelidades caninas interesseiras.
O Abúndio Bajolino de Zebedeu e Beldemónio, assim registado, foi o meu mais aristocrático fiel, ou infiel, amigo. Cão de água lisa, desapareceu numa manhã de nevoeiro. Quiçá, levado por um ladrão que não ladrou. Se ladrão ladrasse, o negócio dos alarmes acabava. E o Abúndio e as suas circunstâncias ainda me fariam companhia.

O fiel ou infiel amigo é um ser social. Comunica muito. Faladra com o seu semelhante. Faladra forte. Faladra até que a voz lhe doa. E a voz nunca lhe dói. Faladra sempre contra mim. E não o entendo.
A Laura, quando tinha cinco anos, ainda tentou instruir-me no dialecto canino, já não tropeçávamos no Abúndio e na sua circunstância. O silêncio reinava nas redondezas. A Laura, para matar saudades, ia à varanda e faladrava com voz vigorosa de contralto. Acudia de imediato a vozearia trovejante dos cães da vizinhança. O diálogo estabelecia-se sonoro e correcto. Faladravam uns com os outros e com a Laura, em pouco amena cavaqueira.
Pareciam zangados. Cada um queria impôr a sua voz. Vocalizes desafinados. Uma algaraviada densa que só a Laura compreendia. Rebentavam decibéis robustos, capazes de furar os tímpanos a qualquer cão e, claro, a mim. Fechava, de imediato, a janela. O concerto trovejante ficava a soar um pouco menos perto.

Hoje, contra-vontade, sou obrigado a enfrentar as circunstâncias dos cães dos outros, seus drones varejeiros, faladrares trovejantes, charcos saltitantes, fragrâncias persistentes. E sabe-se lá que mais…

Volto ao Ortega Y Gasset, o filósofo espanhol. Achava que era impossível considerar o ser humano como sujeito activo sem levar em conta tudo o que o circunda, o corpo e o contexto histórico e cultural. Pensava ele, ingénuo, que a educação era um meio para que cada um se consciencializar da sua circunstância, se relacionar com ela até conseguir superá-la.

Saio, agora. Deparo-me com várias circunstâncias espalhadas pela rua. Há por perto, sob um sinal de sentido proibido, um dispensador de saquinhos de plástico preto. Só que um saquinho ainda não aprendeu, pelos próprios meios, a ir recolher as circunstâncias e deitar-se com elas no lixo.

Compreendo que é um problema de falta de educação de cada saquinho e de cada cãogalhão. Não é problema dos humanos.

Pela minha parte, continuo a não conseguir superar a circunstância do cão. Mas tenho uma secreta esperança. Com o desenvolvimento da inteligência artificial, saquinho e cãogalhão ganharão pés e mãos naturais. Chegarão pelos próprios meios à estação mais próxima. A estação de tratamento dos resíduos sólidos anseia por eles.

No entretanto, e já que não chove, poupar-se-á muita água nas lavagem da ruas e terraços do Algarve. E o líquido dourado dos pequenos charcos fragrantes evaporar-se-á num ápice. Soprado para o céu pelas mornas brisas do Outono.

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