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O que (n)os distingue?

Dizia-me há tempos um amigo: as pessoas agora têm mais dificuldade em votar porque já não há ideologia. “Antigamente”, a pessoa que votava no PCP defendia um modelo de sociedade, quem votava no CDS sabia que queria o oposto, o votante no PS não votaria no PSD porque eram partidos com posições muito diferentes. Agora, andamos baralhados porque se perdeu a ideologia, pouca importância se dá aos programas eleitorais, os partidos estão subordinados às figuras dos líderes, é mais importante a performance do líder e a frase certeira na televisão do que as linhas programáticas, tudo se confunde, a CDU perde votos para o Chega, um partido indefinido como o PAN elege quatro deputados.

E a nível local é a mesma coisa, dizia-me ele. Se formos ver, mais coisa menos coisa, todos estão de acordo. Os orçamentos da Câmara Municipal têm sido aprovados sem contestação, nalguns casos defende-se uma outra prioridade, uma outra obra, mas são diferenças mínimas, não há propostas alternativas para o modelo de desenvolvimento. Ao fim e ao cabo ninguém vai votar contra uma obra que irá beneficiar a população, mesmo que considere que havia outra prioritária… E assim, o que é que distingue estes partidos? – questionava o meu amigo.

Interrogações que se colocam no mês em que a Assembleia da República surge com uma nova composição política, com novos partidos a conquistarem uma posição e a mudarem o tradicional e acomodado regime dos “grandes”.
É cedo para se saber o que irá mudar, embora se preveja uma certa turbulência que irá decerto chocar com as rotinas dos deputados mais institucionalizados…

Por cá, longe desse rebuliço, perdura a calmaria, quando o atual mandato autárquico chega a meio. Estarão os partidos a pensar que faltam ainda dois anos para as eleições autárquicas… Nada mais enganoso que este “ainda”… Dois anos são nada para quem quer marcar a diferença. Quer para o executivo da CDU que está instalado no conforto da maioria absoluta, quer para o PS e PSD que pretendem recuperar a Câmara de Silves, sobretudo o PS, legitimamente animado pelo resultado das últimas eleições legislativas, em que venceu em todas as freguesias do concelho, incluindo aquelas que lhe têm escapado para o PSD, como Armação de Pêra e Algoz e Tunes.

Mas… considerando a escassa valorização da ideologia, que subsiste longe do interesse de eleitores e eleitos, o que distingue hoje os partidos políticos. Onde podem fazer a Diferença?

Não sei se terá sido esta interrogação que levou o assessor da deputada do Livre a vestir uma saia no seu primeiro dia na Assembleia da República. Fosse qual fosse a motivação, a saia tornou-se um tema que “incendiou as redes sociais” segundo a expressão que agora tanto se ouve na TV. Aposto que 90% dos comentadores não conhece uma só ideia do Livre mas todos ficamos a saber que conta com pessoas com gostos pouco convencionais.
O que é bom. E é mau.

O bom é que o estranho e diferente têm o condão de romper mentalidades. Foi assim com a mini saia, com os biquínis, com as mulheres de calças julgando que tinham tantas capacidades como os homens. Foi assim com o cabelo curto nas mulheres. E o cabelo comprido nos homens!…e os que usavam brincos!… Foi assim com os homens e mulheres que um dia começaram a defender que os trabalhadores tinham direitos. Foi assim com aqueles que primeiro afirmaram que a cor da pele, a religião ou o género não poderiam ser motivo de discriminação.
O mau é que atitudes provocadoras, de rutura com o sistema e o tradicional, perdem toda a sua força e sentido se não forem acompanhadas de uma motivação clara, um propósito que outros possam avaliar e seguir ou discordar.
Neste caso concreto não se percebeu qual o propósito. Ficou só o aparato mediático, as conversas de café e os comentários maliciosos nas redes sociais.

Eu defendo há muitos anos uma ideia um bocado estranha. É pela aposta na Cultura (com letra maiúscula, forte e abrangente) que se pode fazer a diferença. A diferença que não provoca incêndios que logo se extinguem. Uma diferença que se manterá e desenvolverá mesmo depois de ser só memória o nome dos que fizeram as obras. A Diferença que nos marca e transforma em seres humanos distintos, complexos, únicos. E capazes de distinguir ideologias.

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