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Seco ao Sol

Agosto já se foi. Setembro finou-se. Outubro arrebita. Há quem goste mesmo do Outono. Exija Outono ou nada. Só que o Verão não debanda.

Em Agosto estiveram cá todos. Eu também. Vi-os. Vi-me. Com estes olhinhos que a pira há-de fundir. Estarei fundido. Sabe-se lá quando. Que seja para o tarde. Gosto de aturar Agostos. E suspirar por Outubros. Molengo mas inteiriço.

Em Agosto, consegui fugir para Sotavento. Dois dias. Não se pode exigir mais a um sedentário. Só que Agosto cerca-o por todo o lado. Sempre.

Praia estreita. Uma nesga do que era há meio século. Entalada entre espigões artificiais de pedra. Não tivessem os pedregulhos sido implantados, a nesga já se tinha sumido. E o mar lamberia doce ou raivosamente os prédios altos. Como outrora lambia as largas dunas que foram entulhadas pelo betão. Os prédios espevitam-se lindos. Encavalitados em cima de outros. Separados por ruelas e avenidazinhas de alcatrão e canteiros de chorões. Não é de chorar.

Desci à praia. Não foi bem descer. Deslizei, sem ressalto nem sobressalto, da calçada para a areia. Toalha a tiracolo. Calção de banho pelos joelhos. Ajoelhei-me na areia seca. Não me persignei. Deus do areal castiga os ímpios de Agosto. Não consegui estender-me. Não havia espaço para a toalha. Menos ainda para os tornozelos excedentários. Alta concentração de veraneantes. A cada um o seu grão de areia. Bem, um pouco mais.

Nesta praia, o turistedo vem, madrugada alta, delimitar o território. O seu e só seu. Não o faz com esguicho de chichi. Não dá jeito. E fede.

De manhã, bem germinados, florescem chapéus de sol, toalhas multicolores, distribuídas em leque para ninguém ousar devassar o quintal. O minúsculo torrãozinho de areia e cascalho – como todos os que ocupam a praia – é propriedade privada. Privatização informal. A custo zero. Areia e micoses incluídas.

O sol já vai alto, O turistedo começa a chegar. Dormente. Vem limpando as últimas remelas dos sonho. De tronco nu e bem albardados, carregam sacos de lona, cadeiras de praia, chapéus de sol, bolas de futebol, raquetes de madeira furada. Segue a peregrinação de patos, golfinhos, bóias, pneus de tractor, colchões. Tudo de plástico de salvação. Levezinho. Previamente inchado, soprado em casa até ao último fôlego. E não é que duram, assim prenhes, as férias inteiras? Na praia e nas marquises.

Depois, o cortejo social. Salamaleques. Soltam-se apertos de mão viris. Beijinhos no ar feminis. Um a cada qual. Abraços escorregados de protector solar 20, não vá a carcaça fritar. E todos se esparramam, de braços abertos, nas toalhas escaldadas, debotadas pelo sol. Guerreiros exauridos pelas duras batalhas da noite.

A areia fica coberta de uma multidão de corpos rapados e encerados. Milhões de dedinhos dos pés arrebitados, de unhas das mãos pintalgadas. Uns e outras acoplados a braços e pernas tatuados. Ó ilustres ilustrados que tão bem sabeis atapetar e ornar as praias do Algarve!
A qualidade artística das ilustrações é superior à das automotoras grafitadas do ramal de Lagos. Não foram inscritas com spray, furtivamente, durante a paragem das composições da CP nos apeadeiros desertos. A grande arte precisa de berbequins de precisão, sangue estancado, dor e paciência.

O indígena não aderiu à estética incisiva dominante. Tem sovacos naturais, levemente embigodados. Cruz de peito com penugem encaracolada. Nas pernas, notam-se vestígios de orangotango pouco felpudo. A rude e primitiva silhueta contrasta com a elegância dos ilustres.

O orangotango, destemido, ousou roçar a água gelada. Uma única vez. Abaixo dos joelhos, a pelagem rosada, sem ilustrações, empertigou-se. Pele de peru. Regressou, de imediato, à areia. O sol calava. O indígena resmungava. Calor sufocante. Mar tiritante.
E toc, toc. Rajadas de bolas, disparadas pelas raquetes, a atingir os alvos fáceis. O corpanzil de incautos jacentes está no raio de acção dos atletas das raquetes. Há que não dar tréguas. Férias, sim. Calmaria, não.
Este alienígena de Agosto é um notório indígena. Parolo. Alvo fácil, também. Já ganhou com uma ou duas na mona. Resignou-se. O desporto faz bem à saúde. E os atletas de Agosto estão a cuidar da sua linha. E do instinto de defesa dos outros.

Bastaram-lhe os dois dias. Só regressou à praia pelo Outono. Ou nada. Quase nada. Mais duas horas de praia, em dois dias repartidos. Chega. O Outono continua Verão. Cansa.

O indígena tem excesso de praia. Começou a lá ir muito cedo. Ainda dentro do balão amniótico da mãe, Laura. Balão esvaziado, começou a frequentá-la do lado de fora. As casas dos avós estavam ali desabadas sobre a falésia. Mal se aguentava nas canelas, descia a vereda alcantilada. Mergulhava no mar salgado. Esturricava e pelava em salmoura. Quatro meses das férias em salgadeira e seco ao sol. Era seco, mesmo.

Ainda hoje suspira – Ó mar salgado quanto do teu sal foi júbilo do animal! Pessoa que o perdoe.

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