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Memórias Breves (17) O Perfume das Palavras

A 9 /12/2004 iniciei, no semanário de Faro “O Algarve”, o mais antigo da Região Algarvia, semanário fundado em 1908, o título – “Mulheres de Faro”- num n.º de 24 figuras que terminaria a 3 Março de 2005. Elas vêm desde o período Romano ao início do século XXI. Mulheres que fui consultando e admirando… Se bem que, a sua maioria se situe no século XX.

E de entre elas algumas Mulheres que deixaram registos pela terra plural: Hélène de Beauvoir, Catarina de Belém, Rachel Amram, Maria Campina, Brites de Almeida, Maria Amélia Coroa, Teresa Rita Lopes, Mariana Vilar, Maria Veleda, Francisca de Aragão, Dorila Carmona.

Já no romper do século XXI, convidara uma Mulher que não desejara que a tratássemos por “Senhora”. Um encontro no início do século XXI. Fora a minha escolha, preparando um estudo que iria prolongar-se. Convido o meu Amigo José Maria Oliveira, pintor da praça e reconhecido ilustrador. E ele , nessa satisfação em registar  “la Passionara de Faro”, como, num repente, a cognominar, retratando-a no registo  que publicámos numa gravura admirável.

Numa tarde de Maio marcámos um encontro no bar do novo Centro do Partido Comunista Português, em Faro, com Gertrudes Bárbara Cunha, a entrar nos 90 anos de idade. Pela vida longa, a viver a recordação dos tempos. Estava uma tarde quente. Logo nos conduziram a uma pequena sala, no primeiro piso, para que se resguardasse a intimidade da velha Senhora. Mostrou-me a viva alegria do novo espaço que os seus camaradas comunistas algarvios recuperaram de uma antiga moradia, na rua de Portugal. “A casa de todos nós”, diz-me num orgulho e numa afirmação. E, na sala acolhedora, a histórica militante, à roda da mesa, desfia o seu viver, em novela realista, que nos pasma escutar pela verdade das palavras fortes que lhe vêm da riqueza memorial e no respeito que dá à justiça delas. E a memória magnífica, criadora, corrige, distende, amplia, retoca, e interpreta, como se estivéssemos sobre um palco. Do tempo narrativo e do viver concreto vai à distância entre a condensação das situações dramáticas e a sua análise. E é nessa realidade que a ti`Estrudes explode em toda a verdade e intensidade.

E, eu, que entrevistei Mulheres que vão de Marguerite Yourcenar, Amélia Rey Colaço, Simone de Beauvoir e sua irmã Hélène, Lídia Jorge, Amélia Campos Coroa, Jovita Ladeira, Isilda Martins, Maria Campina, Lisete Martins, e que mais! Mas Gertrudes Bárbara Cunha, pela sua espontaneidade, pela natureza da mulher que nunca conhecera alguém que reparasse nela, como figura de mulher militante, saindo do vulgar, habituada ao convívio do tu cá… tu lá, na simplicidade do viver, ali estava, em fim de vida, reconstruindo ideias em palavras justas, na pessoa que conhecera todos os caminhos tortuosos do viver da mulher trabalhadora, de jorna, que se iniciou de menina operária e que foi sofrendo as seduções, os assédios, na adolescência, em que o bonito rosto era o tribute para que, impunemente, ao sedutor,  tudo fosse permitido.

E começa: “Nasci , em Abril de 1911, nas  “Portas do Céu”, em Loulé… A ironia, nascer pobre em terra dos ricos, foi crescer às portas do inferno”. E, nesse viver de trabalhadores rurais, por conta de patrão, foi o que foi. Gertrudes foi a mais nova da dúzia de irmãos que o pai fez e a mãe foi parindo sob a carga dos trabalhos. E a menina foi responsabilizando-se no seu crescer, mesmo nesse tempo novo que a república tudo oferecia de mãos vazias. Quando Gertrudes muda, com a família para Faro, em 1922. Muito decidida, afirma: “Eu conto-te, por que eu vivi e tu não! A minha cabeça foi registando tudo. E tu sabes que quem não sabe ler, tem que se servir dos seus próprios meios. Ainda em Loulé. quando ia às bicas carregar água, ouvia os homens falar que isto ia tudo mudar, com o Partido Comunista. Eu tinha dez anos, já era uma mulher de trabalho, sendo a mais nova, ainda na responsabilidade da casa e de uma irmã deficiente. Vê como eram as vidas das pessoas…O pai, mãe e irmãos, partiam pela manhã, regressando ao fim do dia. Eu fazia tudo, menos ir à escola. Aos serões, um membro da minha família estava escondido na nossa casa, por ter participado numa revolução, não recordo a época. Seria a revolução do Bengo, a revolução dos ferroviários? Aqui em Faro. Era, como diziam a revolta dos ferroviários  Eu escutava o homem, numa tristeza… Incendeia o olhar, a querer dar mais força ao passado que não gosta, para ficar no futuro que era agora o seu .” Não te importas que te trate por tu? Foi um hábito adquirido, que não quero que se perca. É tão bonito, tão fraternal”.

Fico no silêncio. A velha  Senhora remexe as mãos. Abre um pequeno saco. Retira documentos, papéis, que logo os remete à origem. Como uma criança que quer mostrar  algo em que se orgulha e, timidamente,  evita. Recomeça depois de um breve silêncio : “Voltando atrás, lembro o tempo das laranjas, das ameixas. O tempo da fruta. Estávamos proibidos de comer uma só peça. E  um dia, enchi uma pequena alcofa, levando a uma casa vizinha, com muitas crianças. Logo o patrão a expulsar-nos. E eu assumindo o meu acto. A minha mãe aceitou, apesar de tudo, a situação do despejo…. Não tanto o meu pai. Mas tudo se esquece. Mudámos para Faro. Gostei, era uma terra diferente. Fui trabalhar  para uma fábrica de rebuçados, no Bom-João. Era uma menina mulher! Eu, Gertrudes, assumi-me urbana, quando aos 11 anos já era operária. Foi o meu primeiro emprego, a ganhar 2$50 escudos por semana. O meu desejo era ir para uma escola, aprender a ler. Mas fui analfabeta no ler e escrever. Depois, já mulher. Agarrei-me aos livros”. Pareceu-me inquieta. Pergunto, o que tem? Não responde. Nota-se-lhe cansaço. Pergunto se quer parar. Que não. “Nunca desisti de nada. Para os outros era defeito, para mim qualidade. Vamos continuar…”

Abre  o saco. Retira um pequeno pente, e logo o remete ao saco. Passa as mãos pelo cabelo, num acto coquet. Faz um silêncio breve. Bebemos um chá fresco. “Tenho fé que o mundo vai aos poucos. Sempre assim tem sido. Tudo se conquista, no seu tempo. Tenho fé”. Pergunto, por perguntar : “Em Deus . É isso que quer dizer!?” Movimenta-se na cadeira, e responde resoluta. “Gostaria, aí, de ter mais certezas! Toma atenção ao meu dizer. Compreende-me. Hoje, Deus, para mim, é o universo! Os meus pais, e todos os meus, ensinaram-me a crer em Deus. E eu sempre fui nessa procura. Sempre quis querer em coisas boas. Deus deverá ser bom! Porque é criador. Assim me ensinaram. Mas os homens têm tido tudo para contrariar. E eu sempre nessa procura. Andar, andar, ensina-nos. Mas a Natureza é a grande criadora. E os que dizem crer em Deus, destroem o mundo, querem-no todo para eles. Não é o povo que alevanta guerras, bombas, aviões… É o poder… O dinheiro… A ambição do mais… Quantas guerras deste século a acabar, conhecemos. Quantos milhões ficaram nela. Onde estava Deus? É assim que eu penso, meu rapaz…Desculpa tratar-te tão…levianamente. Mas tu sabes… Certamente que sabes. As guerras enriquecem os danados. Esses  hidrófobos…uma palavra nova que aprendi, nos raivosos… É assim que o meu bisneto me diz. Não é um nome bonito”…

Porque fala assim, Gertrudes Cunha, na sua idade? “Ó, meu menino nunca fui alimentada  de palavras doces. A maior doçura que tive foi quando fiz o exame da quarta classe, tinha já para mais de 50 anos. Por isso agarrei-me aos livros Sabes que gosto de ler os  Poetas… Leio num encanto! Já tão tarde do meu viver. E eu entendo-os. Gosto do Aleixo, assim como do moço cá da terra, o Rosa, naquela palavra forte :” Não posso adiar o amor”… Não te diria que não o compreendo. Torno a ler e tudo se abre ao meu entendimento. Os Poetas….”

Para a narrativa. Logo recomeça.”Não quero perder o meu tempo em silêncios”.

Não me parece emocionada. Toma outro golo do chá de cidreira. Olha-me em satisfação: “ Foi muito bom termos tido esta conversa”. Gertudes Bárbara Cunha fixa-me, agarrando as minhas mãos, num carinho terno e comovente. Reparo, que pela primeira vez, na nossa conversa, a Senhora se comove. Retira do saco, um lenço e um bloco de papéis. E retoma a conversa.“Sabes, nestes papéis está o meu tempo que vou recuperando, desde há anos. Receio que as lembranças se possam perder. Será um escrever como falo, sem rabiscos, sem atavios, irão comigo quando eu abalar, porque não têm a força que um escritor dá. Nisso tenho a convicção plena dos valores. Os jovens de hoje estão divididos, vão em rios separados. Mas quando perceberem do descaminho, as águas juntam-se. Que a Liberdade é como o Amor. É preciso conhecê-la amá-la e defendê-la…

A  “Passionaria” de Faro  levou o corpo ao espaldar da cadeira. Deixou-se ficar. Passou as mãos pelos cabelos matizados, visivelmente cansada. E, num curto murmúrio acrescentou: “Continuamos, depois, Amigo”. Ficando numa tranquilidade, sem dar pela minha ausência. Adormeceu.

 

 

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