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Eleições municipais e irregularidades, em Messines, em 1898

No primeiro domingo do mês de Novembro de 1898, dia 6, os eleitores do concelho de Silves foram chamados a escolher uma nova vereação municipal pelo sistema de listas (pautas dos elegíveis, efectivos e substitutos), sendo constituídas assembleias de voto nas várias igrejas paroquiais.

Em S. Bartolomeu de Messines, o edital com o alvará do governador civil a convocar a assembleia eleitoral tinha sido afixado à porta da igreja e o pároco António Máximo de Sousa Calado fizera o anúncio em todas as missas conventuais (para a comunidade de fiéis), realizadas desde a marcação das eleições.

Manoel Vargues

Efectuaram-se as eleições na igreja de acordo com os procedimentos determinados pelo Código Administrativo de 1895 para a preparação, acto de votação, apuramento e reclamações. Qualquer eleitor poderia reclamar contra eventuais ilegalidades das operações eleitorais, podendo fazê-lo verbalmente ou por escrito, no próprio acto de votação ou depois dele até ao sábado seguinte, neste caso por escrito e com as assinaturas reconhecidas dos reclamantes para o protesto ser entregue ao governador civil.

Ao que parece, entre outras irregularidades, o apuramento dos votos fez-se logo por volta das 4 horas da tarde do dia 6, o que terá impedido alguns eleitores de votarem.

Por não terem podido apresentar protesto presencial, nem mesmo no dia seguinte na igreja, dirigiram-se no dia 8 ao notário de Silves, Lino António Caro que registou no seu livro de notas o seguinte protesto:

Saibam quantos este instrumento de protesto virem que no meu escritório compareceram Manuel Vargas, casado, proprietário, morador no Salto, freguesia de S. Bartolomeu de Messines, Ventura dos Santos Vargas, casado, proprietário, morador em S. Marcos da Serra, Diogo Maria Cabrita, casado, almocreve, morador em S. Bartolomeu de Messines. E disseram na presença de testemunhas que queriam deixar protesto.

 

 

Ontem, pelas 3 horas e meia da tarde, na igreja paroquial de S. Bartolomeu de Messines, foram para apresentar protesto contra os actos eleitorais da assembleia eleitoral convocada pela igreja para os cargos de vereadores e todas as portas da igreja estavam fechadas e não puderam apresentar protesto contra as ilegalidades da assembleia eleitoral:

1º – O terem-se recebido listas em número superior a 400, impróprias e por tal forma que exteriormente se conheciam.

2º – Não se fechou a urna onde se guardavam as listas.

3º –  Fecharam os trabalhos eleitorais às 4 horas da tarde do dia 6, muito antes do sol-posto.

João Vargues

Testemunhas: João Vargas, José Gomes Vilarinho, José Gomes Santinho.

(Arquivo Distrital de Faro, Cartório Notarial de Silves, Escrituras Diversas, Livro 54, fl. 21)

Quem eram os reclamantes e as testemunhas que os acompanharam na deslocação a Silves?

– Manuel Vargas (1845-1925) – lavrador, proprietário do Monte do Salto (Mariares), terá sido o mentor principal do protesto.

– Ventura dos Santos Vargas (1855-1930) – negociante e proprietário, morador em S. Marcos da Serra, irmão do anterior.

– João Vargas (1856-1916) – almocreve e proprietário, morador no Salto, irmão dos anteriores.

– José Gomes Santinho (1836-?) – pedreiro, tinha casado em 1863 com Elvira da Graça, filha do segundo matrimónio de Maria Clara Bastos, viúva do Remexido.

Quanto aos outros intervenientes, Diogo Maria Cabrita e José Gomes Vilarinho, não conseguimos apurar ao certo as identidades. Nem sabemos o seguimento que teve o protesto, se é que teve algum.

O que sabemos é que alguns familiares dos reclamantes viriam a ser destacados republicanos no concelho.

 

Foram os casos de José Ventura Vargas (1886-1962), filho de Ventura dos Santos Vargas, e de Manuel Gomes Santinho Jr. (1865-1924), sobrinho de José Gomes Santinho, e cuja filha Maria Santinho (1892-1950), casada com José Ventura Vargas, pertenceu à Liga das Mulheres Republicanas.

 

Nota: As fotos de Manuel Vargas e de João Vargas foram cedidas pelo sr. Gilberto Jacinto Valério, a quem muito agradecemos,

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