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Andaram por cá há mais de 200 milhões de anos e agora há um projeto para que todos os possam ver

Durante milhões de anos percorreram o território do Algarve, que, na verdade, se encontrava no fundo do mar, na maior parte desse tempo.
Vestígios desses animais foram descobertos em São Bartolomeu de Messines e também no Algoz.

Hugo Campos, paleontólogo, esteve no Museu Municipal de Arqueologia de Silves para falar de “Antes do Homem, os animais que viviam no Centro do Algarve”, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (18 de abril) que este ano foi dedicado ao “Património e Paisagem Rural”.
Nesta iniciativa da Câmara Municipal de Silves falou-se ainda do projeto de construção de um Geoparque que irá envolver os municípios de Loulé, Silves e Albufeira.

O paleontólogo Hugo Campos em Silves

O Algarve é uma região com grande riqueza geológica que nos permite contar uma história longa, de “350 milhões de anos”. Uma grande parte dessa riqueza está concentrada numas rochas que conhecemos bem, sob o nome de “grés de Silves”.
É do chamado período Triássico, ocorrido há cerca de 252 milhões de anos, que nos chegam as descobertas “mais interessantes para o Algarve”, como explica Hugo Campos.
Era um mundo muito diferente daquele em que vivemos. Existia apenas o supercontinente Pangeia, rodeado pelo grande oceano Pantalassa. O clima era quente e árido, com ambientes lacustres onde se condensava a vida. Surgem então os primeiros dinossauros e os primeiros proto-mamíferos.

Reconstrução artística do anfíbio do Triásico do Algarve, Metoposaurus algarvensis, por Joana Bruno

Um destes animais era o Metoposaurus algarvensis, descoberto na Rocha da Pena, no concelho de Loulé. Este era como que “uma super salamandra, com três metros de comprimento, carnívoro” e numa jazida foram encontradas algumas dezenas de indivíduos. A explicação mais provável, diz Hugo Campos, é que se tenham concentrado todos neste local com água e teriam morrido num período de seca.
Até hoje, este é o único local do mundo onde foram encontrados fósseis desta espécie e dois deles estão atualmente expostos no Museu Municipal de Loulé.
Ainda na Rocha da Pena foram descobertos vestígios, uma mandíbula e dentes, de um fitossauro, espécie que se extinguiu há 200 milhões de anos. Os fitossauros eram répteis, parecidos com crocodilos, com a particularidade de terem as narinas junto dos olhos, o que lhes permitia respirar com o corpo quase todo submerso. Viveram em várias regiões do globo, mas na Península Ibérica o único fóssil de fitossauro que se conhece é este, encontrado em Loulé.

Placodontes em Messines
Mas não só em Loulé se fizeram descobertas importantes. Em São Bartolomeu de Messines, foram descobertos, em 2016, vestígios de um placodonte, um grupo de répteis aquáticos, com uma aparência semelhante à das tartarugas, devido às carapaças que possuíam. Alimentavam-se de moluscos que esmagavam com os seus grandes dentes planos.

Assim seria o animal que viveu em Messines há mais de 200 milhões de anos

O placodonte descoberto em Messines faz parte de uma espécie muito rara, Henodus, que vivia em lagoas pouco profundas e, ao contrário dos seus “primos” era desdentada, pelo que se alimentava, por filtragem, de pequenos organismos que se encontravam na água, tal como fazem os flamingos.
Por a sua descoberta ser recente, ainda estão em estudo algumas hipóteses mas pensa-se que esta poderá ser uma espécie única do Algarve Central, presente nos concelhos de Silves e de Loulé.

É do período do Neogénico, que se inicia há cerca de 23 milhões de anos, já com a geologia da Terra semelhante à que hoje conhecemos, quando os mamíferos se começam a espalhar e a dominar os continentes, numa altura em que grande parte do Algarve ainda se encontrava no fundo do mar, que surge, vindo do Algoz, o fóssil de um hipopótamo europeu, maior do que o africano. Pela região, encontram-se também vestígios do veado vermelho, bem como de equídeos, coelhos, lebres e muitos roedores.

Todos terminam com extinções
Na parte final da sua palestra, Hugo Campos abordou o período Antropocénico, aquele em que vivemos atualmente, com o homem como espécie dominante no planeta.
A propósito lembrou que, na escala da evolução da Terra, o homem é uma espécie muito recente, mas que o seu impacte no planeta é imenso, quer pelas alterações que tem feito na paisagem e nos habitas, quer pelo transporte de animais de região para região e principalmente pelas alterações climáticas que tem provocado. Lembrou também que, historicamente, todos os grandes períodos da história da Terra “terminaram com extinções” e defendeu que esse conhecimento deve servir como um alerta para a humanidade.
Nesse sentido, a criação do Geoparque pelos municípios de Loulé, Silves e Albufeira, terá como objetivo não só dar a conhecer o riquíssimo património natural deste território, mas também sensibilizar para os perigos das alterações climáticas. “Para que a sexta extinção não sejamos nós a causá-la”, disse Hugo Campos.

 

Geoparque Loulé, Silves e Albufeira

A descoberta, em 2015, de um fóssil de Metoposaurus algarvensis, anfíbio que terá habitado a terra há 227 milhões de anos, no sítio da Penina, interior do concelho de Loulé, está na origem do projeto partilhado entre os Municípios de Loulé e Silves, que dividem a mesma página da história geológica, de criação do primeiro Geoparque algarvio.

O futuro Geoparque tem como diretora técnica Cristina Veiga-Pires, professora da Universidade do Algarve, entidade também ligada à candidatura a Geoparque Mundial da Unesco liderada pela Câmara Municipal de Loulé. Além de Loulé e Silves, o projeto do Geoparque estendeu-se recentemente ao município de Albufeira, podendo vir a sofrer algumas alterações relativamente ao projeto inicial, mas o objetivo mantém-se: a  valorização e dinamização da riqueza geológica e paleontológica do interior.

Os primeiros passos na história da paleontologia no Algarve

A história da paleontologia do Algarve data desde os trabalhos do naturalista Charles Bonnet (1816-1867), fundador da Comissão Geológica e que viveu em Loulé. O primeiro trabalho de fundo sobre a paleontologia do Algarve chega de Jorge Cotter (1845-1919) que estudou a fauna miocénica.

O primeiro trabalho de paleontologia de vertebrados do Algarve vem pelo punho de um dos grandes nomes da geologia portuguesa, o geólogo suíço Paul Choffat, que numa memória de 1885 relatou a ocorrência de alguns géneros de peixes e uma tartaruga fóssil da Mexilhoeira. Também trata a geologia do Grés de Silves.

A partir dos anos 60, Miguel Telles Antunes descreve uma série de fósseis miocénicos, e descreve em 1979, vários vertebrados, incluindo um sirénio (possivelmente um dugongo) e baleias de Olhos de Água; em 1981, peixes e mais dentes de Tomistoma cf. lusitanica na Praia Grande (Albufeira); e em 1986, vários mamíferos plistocénicos de Goldra (Loulé), Algoz (Silves) e Morgadinho (Tavira), entre os quais se incluem um javali, um equídeo, um hipopótamo, cervos, lagomorfos (grupo das lebres e coelhos), soricídeos (grupo dos musaranhos), talpídeos (grupo das toupeiras) e vários roedores.

Em matéria de paleontologia de vertebrados é de destacar a ocorrência de pegadas e raros ossos de dinossauros do Cretácico Inferior de Porto de Mós (Lagos), Praia da Salema e Praia Santa (Santos et al., 2013).

Nota: Estas informações foram recolhidas no Catálogo da Exposição “Loulé, Territórios, Memórias, Identidades”, editado pelo Museu Municipal de Loulé e no site da Câmara Municipal de Loulé.

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