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Mulher cega, Homem surdo

O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo. O aviso não é meu. É do Sócrates. O outro, o de Atenas. A certeza tem mais de dois mil anos. Quem somos nós, hoje, para duvidar?

É de acrescentar, àquelas qualidades, a mudez. Sócrates não a tinha. Falava pelos poros todos. O homem era feio, gordo, desmazelado. Mas ninguém o calava. Andava descalço pelas vielas e praças de Atenas. Debitava avisos, conselhos, recomendações. Ouvia toda gente. Questionava. Esgrimia argumentos. Discutia muito. A sua missão de educador era tida como divina no século V antes de Cristo. Tal como em 2019 depois de Cristo.
Só que as mulheres não o viam. De certa forma, estavam cegas. Quem não é visto, não vê. E elas não eram vistas na praça pública, a ágora. Não podiam participar nos debates públicos. Nem ter propriedades. Nem negócios. Viviam quase felizes no gineceu. Imagino.

Agostinha da Silva, muito mais perto de nós do que Sócrates, também avisava: “ame sem poder e verá o que lhe acontece; verá como a vida se vinga; o melhor que lhe poderá suceder é casar. Mas isso é um mal elementar.”
Cegos e surdos aos bons conselhos, os portugueses desataram a casar um pouco mais. Quase nada. Coisa leve. Provavelmente, temeram a recomendação de Schopenhauer: “casar-se significa duplicar as suas obrigações e reduzir a metade os seus direitos”.

Casa quem quer e pode. Em 2018, a grande maioria dos casamentos, foi entre pessoas de sexo oposto, 34.030 parelhas. Outros casamentos menos convencionais começam a ganhar expressão. 607 entre pessoas do mesmo sexo foram celebrados o ano passado. Destes, 342 entre homens e 265 entre mulheres. Há quem franza o olho a estes últimos, em boa hora consagrados na lei. Não é o meu caso. Cada um sabe de si. Ninguém tem o direito de impor a outros o seu preconceito ancestral. A felicidade é terrena. Da outra, do além mundo, nunca tivemos notícias.

O ano passado, houve em Portugal um aumento global dos casamentos de 3%, relativamente a 2017. A tendência manifesta-se desde 2015. Modestíssima. É o INE que o certifica. Em mais de metade dos casamentos, os noivos já viviam juntos. Juntos sempre foi uma grande instituição nacional desde os primórdios da nacionalidade. A tendência de viver junto e não casar tem vindo a aumentar. Em 2010, eram menos de 45% (44, 2). O ano passado foram quase 60% (59, 8). Falta averiguar aqui a expressão do ser casado e viver separado. Conheço alguns. Dá jeito. Repartir património é sempre uma conta de dividir. Dói.
O casamento católico tem vindo a mirrar. Baixou de 42,1% para 32,5% de 2010 para 2018. Parece que o altar assusta cada vez mais gente. Pudera. Se até o da Nôtre Dâme de Paris não está protegido por Deus.

Quem é indiferente a estes dados também não se preocupa com os seus próprios danos corporais. O número de óbitos, em 2108, aumentou 3% relativamente ao ano anterior. Morreram 113.000 pessoas em Portugal. Mais 25.980 do que as que nasceram. Saldo natural negativo. É natural. É negativo. É. Quase nunca foi assim de forma contínua. Excepto durante as guerras e as epidemias, a peste e a cólera.

Andamos nisto. Morre mais gente do que nasce. A população envelhece. E o país com ela. Um país de velhos não se recomenda. Nem aos próprios. Nem a mim que vou a caminho dos próprios.

Em 2018, 70% dos viúvos, eram mulheres. Os homens, que são uns santos, chegam mais depressa ao Paraíso. Elas ficam na solidão do Inferno terrestre. Injusto. Ou talvez não. Os homens são mais dados a estragar o corpinho. As, mulheres, mais cerebrais, a cuidá-lo. E não apenas por fora. Cada vez mais, o amaciam por dentro. Mais de 70% dos licenciados são mulheres.
Todas as casadas e juntas, ficam sozinhas mais cinco anos do que eles. Umas e outros voltarão a juntar-se na terra do nada. Digo bem. Juntar-se. Na terra do nada não deve haver conservador do registo civil disposto a legalizar relações post mortem. Presumo.

Juntos ou ligados pelo matrimónio, civil ou religioso, o que é certo é que os portugueses andam a trepidar com mil cautelas. Eles e elas são preservativos. Sim, claro, são prevenidos, defensivos por método e opção para não terem filhos. Duvido que estes defensivos tenham celebrado o Dia Internacional do Preservativo, instituído pelo SNS, a 13 de Fevereiro do corrente.

O número de bebés aumentou apenas 1% num ano. Isto é de nação bem criada que não quer procriar. Seguramente, para não ter de cuidar da filharada. A coisa nota-se quando a criançada – os poucos que nascem e começam a subir o escadote da vida – chega ao ensino básico e secundário. Os pais não os aturaram, os professores que os aturem.
Nos últimos quatro anos, há mais bebés a nascer fora do casamento do que de pais casados. Mas uns e outros são muito poucos. Daqui a cem anos, se a inseminação natural continuar com esta pujança, os portugueses serão meia dúzia de gatos pingados. Provavelmente muito velhos. Ou definitivamente cegos, surdos e mudos.

Este futuro não é desejável. É preciso continuar a insistir na procriação assistida pelos próprios. Julie Lespinasse, uma escritora francesa do século das Luzes, dá conselho avisado mas sem grande fé: “Casar, ter filhos, é jogar atrevidamente na sorte, na qual tão raramente os bilhetes nos saem premiados.”

Ainda assim, os portugueses em idade fértil – solteiros, casados, juntos, separados – deverão soletrar cada vez mais, com excitação e brio, o nosso hino: “Heróis do mar, nobre povo,/ Nação valente, imortal / Levantai hoje, de novo…” . Levantai e deitai. Deitai e levantai. Hoje de novo. A qualquer hora. Em qualquer lugar. Até que o corpo se canse. E o saldo natural seja positivo.

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