Home / Opinião / Par de Córneas

Par de Córneas

Cego e surdo. Ninguém deseja correr o risco. Nem eu. Há quem vele por mim. Registo o cuidado. Não sei se quem ainda consegue ler estas linhas é notado. Ou se já tem deficiências visuais e auditivas graves. Oxalá, não.

A cidade está pejada de estabelecimentos para venda de óculos para a boa vista e de aparelhos contra a má surdez. Ruas prevenidas. Em cada esquina um amigo. Em cada rosto bondade. Procuram, julgo, gente de vistas curtas e de surdez larga.

Bata branca. Gravata ajustada. Sorriso ajustado a interpelar os passantes. O sorriso abre-se em representação da nacional ou da multinacional do negócio. Apesar do ajustado, noto que quem veste a bata branca está preocupado com quem circula. Julga-o a caminho da cegueira parcial. Ou da surdez total. Ou nem por isso. Ou precisam apenas que assim seja.

Os preocupados da cegueira são mais acanhados. Raramente ultrapassam o poial da loja. O sorriso de esmalte níveo convida o vulto a entrar. Não tropece quem ousar. Veja bem. Nos escaparates, óculos de sol para qualquer cambiante de luz, cangalhas para todo o rosto, lentes de contacto para qualquer córnea.
Lá bem no fundo da retina, a bata branca deseja apenas interromper a degenerescência macular de um desconhecido. Sem mácula, claro. O par de córneas de uma vida merece todo o cuidado.

Os preocupados da surdez são mais ousados, mas em menor número. A bata branca aborda no passeio o potencial tramouco. Topa, perdão, escuta à distância o septuagenário tropeçante, surdo que nem uma porta, então não se vê logo? Se não traz um carrapato agarrado à orelha, é porque precisa. Com voz maviosa e falinha mansa, captura-o para dentro da loja.

E, lá dentro, quem não suspeitava que o era, passa a sê-lo. Tramouco. Testes auditivos e música celestial. Sai de lá airoso. Com um carrapato de última geração ferrado na orelha. Imperceptível. A gente olha e pensa – coitado, é mesmo tramouco! E o carrapatado vai ter dificuldade em desferrar uma factura, muito generosa, em 36 ou 48 suaves prestações mensais. Que pagará religiosamente. Pelo menos, enquanto não estiver cego, surdo e mudo. De vez.

Para saber vender um carrapato pouco menos que inútil é preciso ser carraça. Carraça bem falante. Há muitas. Em muitos ramos da saúde.

O meu paizinho, que não era pitosga nem tramouco, passou a sê-lo. Hoje não está melhor. Desde 1912, que nunca vê tão mal e ouve tão péssimo. Dizem que é por estar no escuro, desde 2002. Ninguém o mandou para lá. Foi-se. Acabara de pagar a última suave prestação.

As nacionais e multinacionais do negócio do olho e do ouvido há muito que perceberam. Os portugueses não veem porque não querem ver. Não ouvem porque não querem ouvir. Sabem tudo. Assim sendo, há que lhes vender próteses. Ficam teimosos na mesma. Mas pagam.

Mudos nunca seremos. Enquanto nos deixarem. Pelo menos, falaremos sempre e mal e pelos cotovelos, dos políticos, do Estado, do Serviço Nacional de Saúde, do patrão, da empregada de limpeza, do cão do vizinho, da mulher do outro e, claro, de cangalhas e carrapatos que comprámos voluntariamente à força e que não usamos.

Então óculos de ver ou carrapatos de ouvir não são muito mais discretos dentro do estojo?

Veja Também

Na minha terra

Fui de comboio a Santarém. Até Lisboa fui no Alfa Pendular das sete horas e …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *