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Na minha terra

Fui de comboio a Santarém. Até Lisboa fui no Alfa Pendular das sete horas e vinte e nove minutos da manhã (a partir de Tunes). Desci em Lisboa Oriente e esperei por um comboio regional com destino a Santarém. Verdadeiramente o comboio regional tinha como destino Tomar. Fiquei pensando, quais seriam as estações até Santarém e, o mais importante de tudo, qual seria a estação imediatamente anterior a Santarém. Gosto de antecipar as situações e de me precaver em relação a acontecimentos futuros. Quando o revisor veio certificar-se do meu título de transporte, perguntei-lhe qual era a estação imediatamente anterior à de Santarém.

Ele respondeu-me, Vale de Santarém, e eu disse, Claro, as Viagens da Minha Terra. O revisor olhou para mim com um ar interrogativo e eu reagi, Não é nada, apenas uma história com mais de cento e cinquenta anos. O revisor continuou a revisar, examinar, fiscalizar, inspecionar, revistar, verificar, e eu pensei que o Almeida Garrett jurara nunca andar de comboio.

Estas viagens, em serviço profissional, são, para mim, também uma forma de revisitar lugares e sensações, normalmente em contacto com outros colegas destes meios académicos, locais e não locais, em que partilhamos memórias, passados, futuros e refeições prazerosas. Por falar em memórias, quando vou a Santarém, gosto de ficar olhando o monumento a Salgueiro Maia, junto a uma Chaimite, naquele local por onde terão passado, há quarenta e cinco anos, na madrugada de abril, em direção a Lisboa. Foi este abril que possibilitou a minha vida pessoal e profissional, não tenho a menor dúvida sobre o seu efeito na mobilidade económica, social e cultural das classes operárias. Regressei de comboio até Tunes, sempre com paragem na capital, onde retomei o meu carro, para retornar a Silves.

Ainda, nestes últimos dias do mês de março, fui a Viana do Castelo, desta feita de avião entre Faro e Porto, de carro, na ida, e de comboio, na vinda, entre Porto e Viana do Castelo. Os transportes vão se democratizando e até o avião, que era elitista, é agora uma forma de viajar acessível e bastante útil entre o sul e o norte (ou vice-versa), especialmente entre Faro e Porto. Havia dez anos que não ia a Viana do Castelo e alguns mais que não ia ao Monte de Santa Luzia. Os locais diriam ao Monte, os turistas (mesmo nacionais) ao templo de Santa Luzia. O templo monumento a Santa Luzia faz-me sempre lembrar a Basílica de Sacré Coeur (Sagrado Coração) de Paris. Nunca tinha andado no Elevador de Santa Luzia (inexistente entre 2001 e 2007), portanto, esta viagem acrescentou uma outra vivência às minhas anteriores existências a propósito dos locais.

Questionei-me sobre o modo de funcionamento deste funicular. Depois de uma breve busca, no google, fiquei a saber que as carruagens funcionam em contrapeso, cruzando-se exatamente a meio do percurso e que o sistema hidráulico é apoiado por um motor elétrico, para compensar as diferentes cargas de passageiros. E ainda que a viagem de sete minutos deste funicular é a mais longa do país, num total de 650 metros, vencendo um desnível de 160 metros. Hoje, tudo se sabe, com uma pequena busca no mundo virtual, mas tudo se sabe apenas sobre o conhecido, ainda são as nossas estimáveis massas cinzentas que podem inventar os novos saberes. Numa visita célere ao templo, observei duas mulheres que rezavam o pai nosso, a oração ensinada por Jesus, em alta voz, com apoio de um dispositivo tecnológico. Não compreendi se gravavam, se liam ou se comunicavam com alguém, decerto crente, em outra parte deste universo.

Em alguns jantares associados a estes eventos académicos, os anfitriões tudo fazem para agradar, sendo recorrente a divulgação da região em termos turísticos, particularmente etnográficos. Desta feita, o grupo etnográfico de Areosa, Viana do Castelo, presenteou-nos com as suas danças. O que acho mais interessante nestas danças de folclore é a leveza dos dançarinos, como se ondulassem sobre si próprios contrariando a força da gravidade.

 

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