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Entrevista a Carlos Vargas, presidente do Conselho de Administração do Crédito Agrícola de Messines

Entrevista a Carlos Vargas Presidente do Conselho de Administração do Crédito Agrícola de Messines

“Unir esforços é garantir o futuro”

O Crédito Agrícola de São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra enfrenta um momento complexo, confrontado com as exigências do supervisor europeu, transcritas pelo regulador português e a tentativa de centralização por parte da entidade de coordenação. A “oposição” de Messines, secundada por meia dúzia de Caixas Agrícolas, foi notícia a nível nacional, mas a disputa está longe de estar encerrada. É neste contexto que, alguns dias depois da eleição de novos órgãos sociais, se debate um outro assunto que volta à ribalta dez anos depois: faz ou não sentido falarmos de uma fusão com o Crédito Agrícola de Silves?

Carlos Vargas

 

No dia 24 de Março houve eleições para os órgãos sociais da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra. Há uma nova composição e ao que consta enfrentaram algumas dificuldades…

Há um elenco novo devido a exigências do regulador que são muito complicadas. Isto tem a ver com as sequelas do que tem ocorrido no sistema financeiro, pagam os justos pelos pecadores, como se costuma dizer. Mas neste caso, o regulador quer aplicar também às pequenas instituições do Crédito Agrícola, as mesmas regras e princípios que às outras instituições de crédito o que torna a vida das mesmas muito difícil. Como resultado, temos de encontrar no nosso grupo de sócios, as pessoas que preencham os requisitos para as posições essenciais. Por exemplo, os elementos da Administração e do Conselho Fiscal têm de ter licenciaturas em Direito, Gestão ou Economia. A independência é fundamental, não pode haver acumulação de funções, tem de ser em exclusividade para os titulares de funções executivas. A idoneidade é inquestionável e qualquer registo negativo é impeditivo. A experiência profissional é obrigatória, no caso da Administração, recomenda-se/exige-se vários anos de experiência bancária efectiva.

Num universo de 2.800 sócios efectivos da Caixa de Messines, é difícil encontrar sócios que reúnam estes quesitos todos, e outros, pelo que a preparação da lista deu algum trabalho.

O que tem vindo a acontecer na maioria das Caixas é a profissionalização dos cargos eleitos, ou seja, colaboradores que já dispõem de licenciatura, experiência bancária, etc, passam a ser eleitos e deixam de ser quadros contratados.

Isso vai alterar muito o sistema habitual das Caixas…

Isto começa a ser uma derrogação das regras tradicionais, onde os tradicionais dirigentes do Crédito Agrícola deixam de ter possibilidade de se manterem. Ao longo de 100 anos, as Caixas foram geridas pelo “homem bom da terra”, ainda há alguns em fins de mandato, mas estamos a caminhar para a profissionalização das funções… O que de alguma maneira se compreende, dada a complexidade da atividade que é crescente, e os problemas registados no sector têm sido tantos que o regulador, diga-se, europeu, já que estas regras são todas impostas pela entidade supervisora europeia, entendeu tomá-las.

Já li no Expresso que são 150 os dirigentes das Caixas que terão de abandonar as administrações…

O dirigente tradicional deixa de poder assegurar essa função, o que é penoso para uma instituição de dimensão local. Em Lisboa há um movimento centralizador, até com uma campanha publicitária – “Um banco nacional com pronúncia local”. Estão a dizer exatamente o que pretendem, isto é, que as Caixas locais deixem de ter o seu significado, independência e autonomia e passe a haver uma crescente subordinação a uma outra entidade de dimensão nacional. Em Messines defendemos exatamente o contrário, as Caixas Agrícolas devem continuar a ser bancos locais que, articulados entre si, tenham expressão nacional.

Não queremos um banco nacional com pronúncia local, pois isso culminará numa figura de agência.

A alguns interessa a centralização, mas no dia em que se perder a proximidade, a capacidade de interpretação local e a ligação à comunidade, que é aquilo que tem marcado a existência e a valia das Caixas Agrícolas, a sua continuidade poderá estar em causa. A acontecer um processo de centralização vai ser uma negociação complicada puxar a brasa à sardinha local. A capacidade de decisão deixa de ficar aqui sedeada… mas ainda lá não estamos e continuaremos a defender o banco local, com expressão nacional.

Nesse artigo do Expresso, vi que Messines não está sozinha, nessa oposição à centralização.

Não está sozinha, mas está com muito pouca companhia. Muitas das outras CA’s também não estão de acordo mas…receiam a expressão clara das suas posições, excepto se for em voto secreto

Por outro lado, aquele homem bom de que falava, o tradicional dirigente, nem sempre é bom….

Sim, também existiram situações de promiscuidade, ligações e desempenhos reprováveis. Mas é importante que o homem bom continue a ser um homem bom, só que com competência, idoneidade, experiência e disponibilidade. Dantes estes factores eram menos aferidos, já que se tratava de pessoa relevante, pessoa influente e reconhecida na comunidade embora sempre tenha havido uns que tinham a noção da ética e outros que se foram aproveitando… como em tudo, na política, na gestão autárquica… actualmente já não é possível perpetuar esse modelo sem a satisfação destas exigências. E estas começam logo no processo eleitoral, as listas são entregues ao presidente da Assembleia Geral que tem de verificar a sua legalidade, depois há uma Comissão de Avaliação que é presidida por um elemento designado pela Caixa Central, com mais dois sócios designados pela Caixa e essa comissão é que vai verificar, em detalhe, se em tudo se cumpre os quesitos. Depois há ainda um terceiro passo, que é a Caixa Central emitir um parecer favorável à lista que, no nosso caso entretanto já foi votada, e por último o Banco de Portugal, que tudo revisto em conformidade, deverá validar o registo. Veja bem, isto é exigido a uma instituição desta dimensão e natureza., ou seja, as Caixas de Crédito Agrícola, pequenas instituições locais passam por um crivo que as pessoas não têm ideia…

Mesmo assim conseguiram cumprir.

Aqui em Messines, cumprimos naturalmente as novas regras, e temos um elenco muito capaz, a nível de todos os órgãos. E também destacamos que pela primeira vez a Caixa de Messines passou a barreira dos 100 milhões em ativos.

Ainda há dinheiro em Messines…

Ainda há poupanças em Messines, mas embora tenhamos aqui a maioria das operações, quer nos recursos quer nas aplicações, algumas já o são com empresas domiciliadas em todo o Algarve e não só, resultante de relações que fomos mantendo ou identificando. Os particulares obviamente são residentes aqui e nas proximidades.

Os nossos rácios são todos excelentes, sendo que a Caixa de Messines está no grupo das mais bem qualificadas e sólidas a nível nacional.

Temos na CA de Messines capitais próprios na ordem dos 15 milhões, este ano tivemos um milhão de euros de resultados líquidos. Só assim nos será possível remunerar os títulos de capital a uma taxa de 3 por cento, ou seja, foi um excelente investimento dos sócios. Temos feito um grande esforço, mas conseguimos estar entre os melhores. Há quem ache estranho, ou pelo menos se admire que uma Caixa pequena tenha a veleidade de fazer ouvir a sua voz… Outros mantém silencio e assumem passividade por receio de retaliações e acabam por estar reféns da situação. Não é o nosso caso. Na última Assembleia Geral da Caixa Central, Messines foi a Caixa que se manifestou contrária à situação que se estava a discutir e deliberar. A intervenção que fiz foi a contestar a realidade que se vai vivendo no Crédito Agrícola-Sicam, que julgamos dever ser uma instituição aberta e transparente, preparada para alternâncias. Mas tendo-se reduzido de forma significativa o número de Caixas aderentes, neste momento são 80, em vias de serem 70, e o número de titulares para os órgãos sociais, incluindo as participadas, já não permite a constituição de duas listas… é a lista única.

Falou na redução das Caixas, por vias de fusão. Já se começou a falar nisso no concelho?

Na Assembleia, em dezembro, já falei aos sócios. A questão é esta, ou somos proativos e tomamos a iniciativa, ou teremos cada vez menos margem de manobra. Há cerca de dois ou três anos, a Caixa Central veio abordar o assunto, sem nos consultar previamente. Portanto, antevendo a evolução das exigências, mais vale tomar a rédea e sermos nós, a Caixa de Messines e a Caixa de Silves, a conduzir o processo, do que esperarmos que outros nos imponham condições que não correspondem às nossas vontades. Qual é o limite e o intervalo desta conjugação de esforços? Que seja uma negociação justa e equilibrada. Temos diferenças, já que a CA de Silves tem ligeiramente menos capital mas por outro lado, regista o dobro do volume do balanço, com agências igualmente no concelho de Lagoa. A verificar-se esta união, ficaremos com uma instituição com um peso incontestável a nível regional e no sul do país, sediada no nosso concelho. Passaremos a ser uma entidade relevante no seio do Crédito Agrícola, porque unidos seremos mais do que a soma simples.

A fusão das duas Caixas é um assunto que há uns anos atrás incomodou a comunidade messinense.

É um assunto ultrapassado.

Uma visão estratégica de futuro obriga-nos à construção duma solução que se pretende justa e equilibrada. Será inquestionável a localização da sede social em Silves, sede do Concelho.

Um factor muito importante é garantir a proximidade do centro de decisão. Em Messines dever-se-á manter a capacidade para processar, decidir e deliberar sobre os seus assuntos, assegurando a continuidade da sua função social na comunidade. Sendo o Crédito Agrícola uma instituição local não faz sentido que ao encontrar uma solução de juntar esforços, para garantir maior viabilidade, se perca o elemento principal que é a proximidade. A proximidade é o factor que está à frente, e nisto estamos todos de acordo. A questão que se coloca é no governo da instituição, e como é que isso se vai processar, de modo a assegurar a representatividade do seu universo associativo. Considero que tendo como base, o acordo nos princípios, se esteja a adoptar uma boa metodologia para levar a cabo a negociação. Se não forem negociados os princípios, dificilmente chegaremos a uma conclusão aceitável.

A negociação já está a decorrer?

Já devia ter começado em Dezembro, mas atrasou-se, devido aos actos eleitorais, encerramento de contas, preparação dos relatórios, temos estado ocupados. Mas este projeto tem todo o sentido do ponto de vista da sustentabilidade acrescida das instituições. E para o concelho também seria bom, ter uma instituição relevante do ponto de vista regional. A instituição que decorra deste processo será a mais robusta e sólida na região do Algarve.
A Caixa de Messines é uma entidade com capitais próprios consideráveis no concelho, tem 15 milhões de Euros, não é o maior empregador, só temos 17 colaboradores, mas tem um balanço de mais de 100 milhões de euros. As pessoas que são sócias e clientes da Caixa de Messines, que foi criada em 1979, já lá vão 40 anos, devem ter a noção de que a Caixa não tem tido problemas financeiros nem de desempenho. A Caixa de Messines está bem e recomenda-se, como se costuma dizer. Agora pode e deve contribuir e lutar por um projeto com outra dimensão porque senão o fizer está em risco a sua sustentabilidade, mormente, por um problema de escala.

Vai ser cada vez mais difícil ser pequenina?

Ao longo de 40 anos não tivemos problemas, mas cada vez vai ser mais difícil. Nas duas freguesias onde operamos, São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra, a atividade sócio económica está em quase estagnação. Já lá vão os tempos dos anos 40, 50, 60, em que Messines tinha uma visibilidade e capacidade económicas invejáveis. Eu nasci em Albufeira e vinha a Messines comprar sapatos! Havia empresas geradoras de riqueza e de emprego, mas quando esse ciclo agro-industrial e comercial se extinguiu, passou a ser dormitório de gente que presta serviços no sector turístico do litoral. Depois, Messines não teve a oportunidade de dispor, em tempo, uma infraestrutura como zona industrial, e o desenvolvimento que se vê agora no Algoz, decorre do PDM do concelho ter previsto na altura uma zona de expansão para o Algoz e para aqui não. Messines está no nó rodoviário, tem as acessibilidades e se tivesse tido essa oferta de terreno industrial teria pelo menos competido com outros locais, assim ficou completamente para trás.

Messines de per si não tem gerado suficientes oportunidades que garantam um crescimento desejável para uma instituição desta natureza, muito embora tenha havido alguma transformação no sector primário, a agricultura tem nova dinâmica, a prestação de serviços também, mas não tem sido suficiente.

E São Marcos da Serra também é uma freguesia desertificada, sem a atividade de outros tempos…

A vida de uma instituição confinada a estas duas freguesias é muito limitada. O que significa que temos obrigação de encontrar soluções que garantam a rentabilidade do capital acumulado. No fundo, as Caixas de Crédito Agrícola são o quê? São um legado, no caso de Silves de 90 anos e no caso de Messines de 40 anos, de esforços, não só das equipas que aqui trabalham e trabalharam, mas também dos dirigentes que por aqui passaram, no sentido de criar este “mealheiro”. A grande diferença entre o Crédito Agrícola e outras instituições é que o nosso capital traduz-se por um acumulado de poupanças, de reservas que foram sendo retidas, exercício após exercício. Na banca comercial, os seus acionistas subscreveram e realizaram efetivamente o capital mas todos os anos são remunerados, com a maximização dos dividendos. Nas Caixas Agrícolas os sócios são cooperantes num processo consistente de poupança regular com vista à acumulação de recursos indispensáveis ao reforço da solidez e solvabilidade.

Há uma lógica diferente…

Mais de 90 por cento dos capitais próprios da instituição resultam de integração de reservas acumuladas. Não se distribuem os resultados, incorporam-se em capitais, portanto quem gere uma instituição desta natureza deve ter a noção de que está a gerir um legado, não é titular de nada, está a gerir o que resultou do esforço de 40 anos de trabalho. Isto significa que tem de haver uma postura muito responsável. Não é tolerável, a título algum, leviandades numa instituição desta natureza. Não só porque é democrática, qualquer sócio só tem direito a um voto, independentemente do capital subscrito, mas porque se o capital subscrito pelos atuais sócios não chega a 10 por cento do total, estamos a gerir uma herança pela qual há que ter a maior responsabilidade e respeito.

Estamos a falar de passado e de futuro, ainda consigo?

Desejavelmente não cumprirei mais mandatos com funções executivas, a instituição deve ter meios e recursos próprios para fazer o seu caminho e se ainda não tem, temos de a preparar, agora perpetuar-me não… vou fazer 70 anos este ano e há decisões que já tomei, eu comecei a trabalhar aos 19 anos…. A minha obrigação, quando vim, foi fazer com que a Caixa de Messines recuperasse alguma visibilidade, consolidasse a sua posição financeira, e esses são objetivos que estão atingidos.

O novo objetivo é começar a preparar condições de acrescida sustentabilidade, e este processo de negociação que se irá iniciar com Silves tenderá a solucionar este assunto.

Muitas pessoas irão lembrar-se que veio para a Caixa de Messines precisamente para criar condições para que essa fusão não fosse inevitável…

Sim, mas eu não teimo por teimar. Hoje, a integração faz todo o sentido, desde que seja, como já disse, justa e equilibrada. Se não for assim, não posso ir à Assembleia de sócios dizer que é. Do mesmo modo como há uns anos atrás, disse que não, por esta e por aquela razão, agora direi que sim, caso entenda que estamos perante um resultado aceitável porque justo. Há que ter justificações. Eu não estou a defender nenhuma coisa para mim. Garantido que esteja o centro de decisão localizado e um reconhecimento das especificidades, os sócios de Messines não têm de ter receio, pois passaremos a ser cooperantes de uma entidade com outro alcance e capacidade de resiliência face aos grandes desafios que se antevêem.

 

Órgãos Sociais para o triénio 2019-2021
Crédito Agrícola de Messines

Assembleia Geral
Presidente – Joaquim Manuel da Costa Palma
Vice-Presidente- Eurídice Mendes Vieira
Secretário – Rui Graça da Silva

Conselho de Administração
Presidente – Carlos Alberto Samora Bitoque Vargas Mogo
Vice-Presidente – Carlos Francisco da Silveira Couto de Pinho
Vogal- Maria Teresa Rodrigues Claudino
Suplente – Francisco Manuel Guerreiro Martins

Conselho Fiscal
Presidente – Augusto José Patrício Ramos
Vice-Presidente – Marta Filipa dos Santos Rodrigues
Vogal – Paulo Alexandre Rodrigues Correia
Suplente – Isabel Maria Varela Fernandes

Conselho Consultivo
Presidente – José Carlos Xavier dos Santos
Vice-Presidente – António José das Neves Cabrita
Vogal- Francisco José Gonçalves Calado
Vogal – Luís Manuel Viegas Cabrita
Vogal- Maria Salomé Vieira Luz Carriço da Silva
Suplente – Eduardo Sequeira Cabrita
Suplente – Fernando Manuel Bila Rodrigues

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