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O Brexit para o Algarve

Sigo com uma certa curiosidade mórbida o desenrolar do Brexit desde que a saída britânica da União Europeia foi anunciada em meados de 2016. Confesso até um certo deleite ao assistir às contínuas tentativas frustradas da Primeira-Ministra britânica em conseguir um acordo que seja aceite pelos Parlamentos Britânico e Europeu.
Comparo a tarefa ao castigo imposto a Sísifo, o lendário rei de Corinto, condenado pelos deuses a empurrar uma pedra por um monte acima, apenas para ver a pedra rebolar para baixo cada vez que se aproxima do cume. Theresa May vê todas as tentativas de acordo esbarrarem num parlamento que não sabe o que quer; sabe apenas o que não quer. Num único dia, o Parlamento britânico conseguiu rejeitar uma união aduaneira com a UE, uma integração aduaneira ao estilo da Noruega, um segundo referendo sobre o Brexit e a revogação do artigo 50 do Tratado de Lisboa, o que significaria um adiamento do Brexit para mais tarde. É obra.

O meu gozo acaba quando me lembro de que não estou a assistir a mais um episódio da icónica série da BBC “Sim, Senhor Ministro”, mas aos imbróglios reais de um país dilacerado em relação à visão do seu futuro e com um parlamento imobilizado por uma fratura tão grande que impede sequer que ambos os lados falem a mesma linguagem.

E o que é que isso interessa aqui ao burgo, perguntam-me. O Brexit não é lá longe, nas margens para lá do Canal da Mancha, no nevoeiro da Velha Albion? Infelizmente, a globalização tem destas coisas; estamos todos ligados de uma forma ou de outra.

A comunidade britânica residente no Algarve deverá rondar alguns milhares, visto que alberga a maior fatia de uma população estimada em 49.000 indivíduos no país. Isso, claro, sem falar dos inúmeros turistas das ilhas britânicas que nos visitam todos os anos, para se banharem nas águas das nossas praias.

Os efeitos do Brexit já se fazem sentir; a queda livre da libra esterlina dos últimos anos tem feito com que os britânicos achem a região mais cara do que antes e isso reflete-se numa diminuição da afluência turística ao Algarve, na ordem dos 0,9% em 2017, face ao ano anterior. Os próprios britânicos residentes que decidiram instalar-se na nossa região para desfrutar da sua reforma veem os seus rendimentos diminuírem drasticamente, e com isso, a sua capacidade de gastarem as ditas reformas com os portugueses. Dada a dimensão desta diáspora britânica, esta diminuição de rendimentos não é insignificante para a atividade económica do Algarve.
Há, no entanto, elementos interessantes em todo este processo: a Bloomberg reportou este mês num artigo que o número de britânicos residentes registados em Portugal em 2018 aumentou 18% em relação ao período homólogo. O mesmo artigo indica que a procura de casas com preços inferiores a 500.000,00€ por parte de britânicos praticamente desapareceu. Por outro lado, a procura de casas de luxo mantém a sua trajetória, o que indica que os britânicos abastados continuam a escolher o Algarve como segunda residência, talvez como forma de assegurarem um acesso à UE depois do Brexit. O que sucede é que o Brexit, como em tantas outras coisas, não afeta todos da mesma maneira.

Aparentemente o Algarve continua a ser atrativo e acessível para aqueles que conseguem adquirir casas de luxo; quanto aos britânicos que nos visitam durante uns dias de férias no verão, estes começam a sentir o peso do custo do Brexit nas suas carteiras.

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