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Memórias Breves (15) – João de Deus na História da Imprensa

JOÃO DE DEUS NA HISTÓRIA DA IMPRENSA

O ALGARVE inaugurou, em fim de 2018, uma Exposição: “Da Arquitypographia à Industrialização da Imprensa”. Fisicamente a Exposição encontra-se num espaço (antiga capela) do palácio Episcopal de Faro, Rua do Município, cedido pela Diocese do Algarve.
Como sabemos o primeiro livro impresso em Portugal, na villa de Faro, a 30 de Junho/1487, de título “Pentateuco”, fará, em Março deste ano, 532 anos. Há promessas de ser esta exposição o “arranque” para o desejado e merecido Museu da Imprensa, em Faro.

José Pacheco, um homem audacioso vem com quatro volumes, num total de 1724 páginas, revelar uma pesquisa e trabalho louváveis para o conhecimento do desenvolvimento da impressão em Portugal. Muito se tem escrito sobre a primeira impressão em Portugal, ter sido feita em Faro… Muitas falas e mais silêncios. O judeu natural de Faro, pertencente a essa religião, que viveu em bairro distinto da villa de Faro, a chamada Judiaria, no reinado de João II de Portugal, de nome Samuel Gacon, nunca teve um reconhecimento dos demais. Um Museu da Imprensa, falado e silenciado, tem continuado e seguido um tempo de injustificações. Nós somos o que herdámos… E esse registo, das palavras dos tempos, é a grande herança comum e de orgulho.

Porque trago João de Deus para este ajuntamento de figuras que deram, de si, essa continuidade. Pois bem, há que reconhecer a acção deste português, quase universal, no desempenho da imprensa, no grande espaço da língua portuguesa, com centenas de milhões utilitários. O historiador e produtor José Pacheco, trá-lo para a sua importante obra citada, como Educador e com o seu contributo na imprensa, na sociedade, na cultura que se desenvolveram no após liberalismo português. Último quartel do século XIX. Foi um tempo de tempestades e de Primaveras!

João de Deus viveu intensamente o tempo. Foi um estudioso à altura do último quartel do século XIX. A imprensa, mais a centro e norte, criavam espaços de publicações de avant-garde. Era o sentido combate político centrado no republicanismo.João de Deus não foi como o apresentaram no período da ditadura do século XX, um “cidadão tranquilo”.

Vamos encontrá-lo nos debates do Grupo do Leão. Lá encontrámos o algarvio Manuel Teixeira Gomes, entre Jaime Séguier, Mariano Pina, Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Gomes Leal e João de Deus. Crónicas ou poemas surgem ilustradas por um extenso grupo de artistas do qual se destacam nomes como os de António Ramalho, Moura Girão, Casanova, José Malhoa, Silva Porto, Alfredo Keil (o autor do Hino Nacional), Henrique Pousão e Luciano Lallemant, ou seja a maioria daqueles que Mariano Pina integrou no GRUPO do LEÃO.

João de Deus, pintura a óleo, Mestre Joaquim Lopes, Académico portuense século XX

 

João de Deus, um poeta multifacetado, nessa sua educação religiosa, onde, em jovem, fora educado, envereda por uma poesia em ironia lírica e popular. Por Lisboa, no tempo em que o republicanismo estava numa efervescência naturalmente debatida pela inteligência portuguesa, onde toda a vida artística de Lisboa se centrava em tertúlias na Cervejaria Leão de Ouro, o “Grupo do Leão” se distinguiu, burguesmente, nos novos sopros da República. Mas acrescentar a todas estas medidas, talvez valha acrescentar a criação importante da Associação das Escolas Móveis, com o método de João de Deus, a “Cartilha Maternal”. Cartilha que António Sena, depois de analisar outras publicadas por todo o mundo, não tem a mínima dúvida em confidenciar que considera uma verdadeira obra prima, do ponto de vista pedagógico, mas também gráfico, dada a solução inicialmente encontrada, em 1876, pelo tipógrafo portuense António José da Silva Teixeira e, posteriormente, pela Imprensa Nacional, para a reprodução e impressão das palavras e o destaque dado às sílabas, através da utilização de caracteres raiados ou lavrados, um processo certamente moroso de que se conhecem exactamente os contornos técnicos, mas que permite simular, talvez só possível, mais tarde, através da utilização da fotogravura, tecnologia que chegaria já no final do século XIX. A partir de então, os alunos aprenderiam a ler e a escrever e a contar correctamente. Os aluno familiarizavam-se com os diferentes caracteres tipográficos, receberiam conhecimentos até então ignorados. Entravam no caminho de outras línguas europeias. Complementariamente ser-lhes-iam ministradas noções de história, ciências, literatura, etc…
Não foi fácil! Havia uma oposição ao desenvolvimento do ensino, do alfabetismo em Portugal, numa política contra o tempo. João de Deus, o pedagogo não teria muita folga ao seu processo e do prosseguimento. No entanto, digamos, a persistência do poeta-educador, foi crescendo, levando a sua Cartilha a edições sucessivas. Em 1878, conforme se anuncia, a “Cartilha Maternal – ou Arte de leitura”, entra na sua 3.ª edição- Lisboa Imprensa Nacional.
O Homem de S. Bartolomeu de Messines é admirado numa nação dividida entre uma política cultural contra o analfabetismo e em continuidade da mesma.
Há uma edição completa de toda a sua obra, da responsabilidade da Associação de Jardins-Escola João de Deus, edição de 2002, com 214 páginas, numa brochura que se ilustra com desenhos do poeta-educador.
Já José Pacheco o autor da obra: “Da Arquitypographia à Industrialização da IMPRENSA”, nos mostra a admiração do educador, afirmando: “João de Deus, um intelectual ligado aos tipógrafos pelo ofício da escrita e a admiração por Gutenberg.

Foi uma figura nacional e incómoda, no seu tempo. Como o foram Camões, Antero, Eça, e quantos mais, numa sociedade sempre em construção. O meu Irmão de Messines sempre me levou por esses caminhos que me “indicou”: Conversas pedagógicas, em que somente as indico pela nossa terra: Lisboa, Casa Museu, Silves, Câmara Municipal, Messines, Junta Freguesia e Escolas: São Brás de Alportel- Biblioteca Municipal, Faro – Biblioteca Municipal. Muitas lições, país fora. Tenho, pela Imprensa publicado estudos, algumas dezenas. E pelos sítios europeus tenho mostrado o nosso Educador … E nada é demais para a figura Grande do futurista, que nos seus 66 anos de vida, foi um persistente lutador. Que nos 123 anos de entrada no Panteão, continua na oportunidade de Homem presente. E que não vamos esquecer.
Ainda tenho palavras para deixá-las na minha Terra. E imagens para mostrar. Sem me enfadar.

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