Home / Concelho / Inaugurado Largo Luís Carreira, em homenagem ao piloto messinense

Inaugurado Largo Luís Carreira, em homenagem ao piloto messinense

Dezenas de motards reuniram-se em São Bartolomeu de Messines, no dia 23 de março, para se juntarem à homenagem ao piloto Luís Carreira, falecido precocemente aos 35 anos, vítima de acidente quando participava no Grande Prémio de Macau, em novembro de 2012.
Foi num clima de emoção e saudade que a cerimónia se desenvolveu, tendo início após a chegada dos motociclistas que percorreram as principais ruas da vila, antes de se dirigirem ao local que agora é o Largo Luís Carreira (junto ao bar Mitto’s), onde se encontravam várias dezenas de populares.

Aspeto geral da cerimónia – Foto de Bruno Cortes

Tomou a palavra, em primeiro lugar, João Carlos Correia, naquele que foi o seu último ato oficial enquanto presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, para relembrar os feitos e títulos conquistados por Luís Carreira, mas principalmente as suas qualidades enquanto ser humano.
Os pais de Luís Carreira usaram da palavra para recordar aquele que não esquecem, agradecendo a todos os presentes. Num registo emocionado, a mãe falou do “privilégio” que lhe foi concedido por ter sido mãe de uma pessoa tão especial.

Também a presidente da Câmara Municipal de Silves, Rosa Palma, lembrou os anos de infância e juventude partilhados com Luís Carreira, natural de Lisboa mas que cresceu em São Bartolomeu de Messines, e falou do tempo e das brincadeiras que tinham enquanto vizinhos.

Os familiares com Rosa Palma e João Carlos Correia – Foto de Bruno Cortes

Outros amigos recordaram também o amigo falecido e a sua paixão precoce pelas motas, uma paixão que o levaria a seguir esse percurso, com grande sucesso, tendo sido piloto oficial da Honda e Campeão Nacional de Stocksport 1000 em 2005, 2008, 2009 e 2010 além de ter alcançado diversos outros títulos e troféus na área do motociclismo. Morreu, como foi ainda dito, a fazer o que mais gostava, numa prova de qualificação para o Grande Prémio de Macau, em que participava pela sétima vez.

Após as intervenções foi descerrada a placa toponímica “Largo Luís Carreira”.

E, assim, como as motas tinham dado o sinal de partida para esta cerimónia, foram também elas que encerraram este ato simbólico, fazendo ouvir bem alto os seus motores, durante vários minutos.

 

  EM MEMÓRIA

Em novembro de 2005, o Terra Ruiva publicou uma Entrevista com Luís Carreira que acabava de alcançar o título de Campeão Nacional.

Aqui se recorda um excerto dessa entrevista, publicada na edição nº 62.

Luís Carreira, Campeão Nacional de Stocksport 1000
“Enquanto conseguir correr já me sinto suficientemente feliz”

Há pouco mais de 15 dias, Luís Carreira, um jovem messinense, sagrou-se Campeão Nacional de Stocksport 1000, a modalidade “rainha” do motociclismo, conquistando o título mais importante de uma carreira recheada de vitórias.
Sobre o seu percurso, iniciado em 1998, das vitórias e das dificuldades se fala nesta entrevista, numa altura em que o jovem piloto oficial da Honda de 28 anos se prepara para lutar pela internacionalização da sua carreira.

O Luís Carreira é um dos pilotos portugueses mais conhecidos, tem tido muitas vitórias, mas comecemos pela mais recente: é o novo Campeão Nacional de Stocksport 1000. O que é que isso significa?
Isto é a categoria rainha do motociclismo em Portugal e em muitos outros países. A nível de motas a classe rainha são motas até 1000 centímetros cúbicos, as stpocksport são as 1000 actuais, é a classe que tem mais importância. O que eu venci foi o Campeonato Nacional de Stocksport 1000. As provas foram organizadas em Braga e Estoril, porque em Portugal só temos dois circuitos para esta modalidade. Acabamos por fazer uma outra prova em Jerez de la Frontera, para dar mais abertura aos pilotos e às equipes pois é pouco compensatório só fazermos dois circuitos. (…)

O Luís tem já uma longa carreira. Começou a correr muito jovem?
Por mim tinha começado a correr ainda mais jovem, porque isto é um sonho que vem desde criança e, Graças a Deus, estou a conseguir concretizá-lo. Em Portugal torna-se complicado fazer algum tipo de desporto e desporto motorizado ainda mais. Iniciei-me já tinha 18 anos, é uma idade um bocadinho tarde para começar, em 1998. Fui fazer o Troféu CBR 600, um troféu monomarca. Como as motas são iguais, o equipamento, os pneus, o que acaba por fazer a diferença é a pilotagem de cada um. E consegui logo nesse campeonato ser o melhor dos iniciados, fiz o primeiro lugar da classe de iniciados e o oitavo da geral, o que foi um início bastante bom para quem nunca tinha corrido e isso motivou-me ainda mais para continuar o sonho que já tinha. No segundo ano fui vice-campeão no Troféu Honda Hornet, eram motas um bocadinho diferentes; no ano seguinte fui campeão do Troféu Honda Hornet; no ano a seguir no Troféu Honda CBR e após esses títulos a Honda convidou-me para correr no Campeonato Stocksport. Tornei-me piloto oficial da Honda, até hoje. Nesses quatro anos que passaram, houve alguns que correram menos bem, com algumas lesões, o que não me deixou alcançar o título. O campeonato nacional é muito pequeno, são apenas sete corridas, e apesar de serem grelhas cheias, a lutar pelo título são seis ou sete pilotos que normalmente são os mesmos. Então, quando algum de nós cai, é muito difícil conseguir recuperar. E tenho andado sempre a ganhar umas corridas mas faltava-me o título.
Portanto é a primeira vez que ganha este título?
É a primeira vez. Tenho tido muitas vitórias, muitas vezes fui ao pódio, mas tem havido sempre uma coisinha que não corre como pensávamos. (…)
E como se sentiu quando finalmente alcançou o título de campeão nacional?
Para mim é fabuloso, é fantástico, porque é por isso que luto. Tenho que abdicar de muitas coisas cá fora, para consegui dar o máximo, para poder estar lá, é um esforço enorme. É difícil exprimir o contentamento que sinto em ser campeão nacional. Mas não é só ser campeão, é fazer o que eu gosto. Isso ainda é o mais importante de tudo.(…)

Neste momento o Luís é piloto oficial da Honda. Como é o seu dia a dia, como é que um piloto se prepara as provas?
O principal é trabalhar na moto, ter hipótese de treinar em circuitos e andar todos os fins de semana na moto. Mas isso não é possível, porque ir para circuitos, comporta quantias muito elevadas, porque temos de alugar o circuito e ele tem de ter ambulâncias e outras condições mínimas. Acabo por fazer o trabalho cá fora, no ginásio, e nas corridas matinais… é necessário muito empenho físico para que não sinta problemas físicos e tenha uma boa resistência, pois o desgaste de uma corrida é enorme. Sem este trabalho físico é impossível bons resultados.
Treina todos os dias?
Tento treinar todos os dias, não perder esta motivação, porque psicologicamente também é uma ajuda. Porque quando a pessoa vai para a corrida, vai a pensar, eu treinei, sinto-me bem, sinto-me forte, se a pessoa não treinou, não vai bem…È muito importante o treino físico, não é só chegar lá e correr.
E o treino psicológico? Como é que o Luís se prepara?
Sim, o segredo é a concentração, quando estamos a andar na moto não podemos pensar mesmo em mais nada, só no que estamos a fazer. O mínimo descuido pode ter consequências.
No seu extenso palmarés tem também provas internacionais.
Sim, temos feito algumas provas internacionais, como a corrida que fiz este ano em Angola. Fui convidado para correr no Autódromo Internacional de Luanda, numa prova internacional com pilotos portugueses, brasileiros, espanhóis, sul-africanos e os da casa.
E foi o Luís que ganhou…
Ganhei… e foi muito giro, porque tinha curiosidade em conhecer o país e desta forma juntei o útil ao agradável. A prova foi organizada pela polícia angolana e quando chegamos lá demos com um autódromo um bocadinho longe do que esperávamos, porque o autódromo serviu de base militar no tempo da guerra e em vez de andarem com automóveis ou motos de desporto, no circuito, andavam lá com tanques. O alcatrão estava completamente degradado, houve até pilotos que se recusaram a participar no evento. Eu também pensei que não seria capaz, mas depois de dar algumas voltas até achei engraçado e acabei por ganhar a prova. E foi giro porque os angolanos dão um grande destaque ao desporto motorizado. Enquanto em Portugal fazemos uma prova no domingo e pouca gente sabe, porque não há transmissões televisivas em directo, lá foi ao contrário, tínhamos as bancadas completamente cheias, houve transmissão televisiva em directo, estivemos a fazer programas de televisão e na rádio. Acabou por ser uma semana cheia dessas coisas que não estamos habituados em Portugal, onde os pilotos acabam por passar despercebidos. Lá não, tínhamos todo o valor, toda a gente sabia quem estava lá, quem não estava… gostei muito de participar nesta prova. E também fomos de certa forma ajudar a evoluir o motociclismo em Angola, estão numa fase inicial. Há pouco tempo estiveram em Portugal alguns pilotos que correram lá comigo, vieram cá fazer cursos. E nesse campo, estou disposto a ajudar no que poder. Fora isso, no ano passado, corremos no Grande Prémio de Macau, que é desses eventos que toda a gente conhece, toda a gente fala. (…)
Cá em Portugal, há bocado estava a falar nisso, não há grande promoção…
É só o futebol.
Tirando uma revista ou outra especializada…
Por isso mesmo se torna muito complicado arranjar apoios. Os apoios querem retornos e o retorno é a televisão, não há dúvida nenhuma. Temos alguma imprensa escrita que dá destaque e as reportagens televisivas também existem mas não são no dia da prova, são pequenos resumos, que não sabemos bem quando vão ser transmitidos. Isso torna a nossa vida muito complicada, porque sem apoios não conseguimos de forma nenhuma fazer o campeonato, e é por isso que temos tentado lutar com a Federação para conseguirmos ao menos a transmissão das provas ao domingo, no dia da prova, isso já ajudaria muito o motociclismo em Portugal. Temos o exemplo da Espanha, os espanhóis também vivem muito o futebol mas conseguem dar o mesmo retorno nas motas, e têm muitos pilotos a nível mundial, o que em Portugal é quase impossível. Mas têm transmissão de provas em directo e as bancadas estão lotadas e é isso que precisávamos. Em Portugal a maior parte das pessoas não sabe se há ou não corridas, só as pessoas que estão ligadas ao ramo. E essas são poucas para encher um autódromo. Hoje em dia estamos a iniciar classes para os jovens começarem mais cedo, e é necessário que nós, os mais velhos, façamos força para que comece a haver divulgação, para que os jovens que estão a começar, quando chegarem à minha idade, tenham hipóteses de chegar ao campeonato do mundo. Temos o caso do Tiago Monteiro, na Fórmula 1, que toda a gente sabe quem é, falta agora quem represente Portugal no mundo das duas rodas, ao mais alto nível. (…)

Deve ser muito difícil começar a correr. Teve que comprar mota, equipamento?
É verdade, eu comecei com a minha mota. Como muitas pessoas fazem, fiz um crédito para comprar a mota e meti-me na pista, corri o risco da coisa correr mal e ficar sem a mota e ter que continuar a pagá-la. Mas arrisquei e ainda bem. Foi uma forma de provar a mim mesmo que todo o gosto que eu tinha, todo o entusiasmo que sentia, tinha alguma razão de ser. Mas tive que arriscar muito, durante os primeiros quatro anos, sensivelmente, o investimento era todo meu. A minha sorte é que eu ia ganhando algumas coisinhas e como há prémios monetários, conseguia amortizar as despesas. Agora as coisas já são diferentes, com o apoio da Repsol e da Honda. Mas não funcionam também da maneira que muitas pessoas pensam. Nós temos muitas dificuldades financeiras e não podemos viver só unicamente para as motas.
Tem outra actividade profissional?
Tenho. Na actualidade sou um piloto profissional, como as coisas são vistas em Portugal. Mas só sou um profissional quando ando na moto, quando estou lá no fim de semana, porque no resto da semana sou um piloto amador, tenho que ter um trabalho suplementar.
Pensava que seria suficiente ser um piloto oficial de uma marca para poder viver.
Nesta modalidade ainda não. E é pena, porque queríamos evoluir e não conseguimos porque temos o tempo muito limitado, é muito complicado todos os fins de semana treinar e fazer provas, conciliar as duas coisas. No motocross há um ou outro piloto que consegue viver profissionalmente para o desporto, eu vivo profissionalmente apenas nos fins de semana das provas. É por isso que digo que temos que abdicar de muitas coisas, temos de fazer um esforço muito grande, e temos que gostar muito do que fazemos.

Quando vi no seu currículo que é piloto profissional da Honda, uma marca tão conhecida, não imaginava que tivesse de ter outra profissão…
Pois, é o que toda a gente pensa. Eu estou bem, em relação a muitos pilotos portugueses não me posso queixar. Mas para o nível que se quer, para o nível que a própria Honda e os patrocinadores exigem, acaba por ser um esforço muito grande da parte dos pilotos para darmos o retorno da forma que eles querem, trabalhar, ir ao ginásio e correr no fim de semana…
Isso quer dizer que o Luís, tempo livre não tem?
O tempo livre que tenho dedico unicamente à competição porque ou vou treinar ou estou preocupado a tentar arranjar informação para os patrocinadores, ou tenho actividades com os patrocinadores, acaba por ser o ano inteiro. O campeonato acabou há 15 dias e não posso dizer que tenha descansado, já tenho que começar a pensar no que vou fazer na próxima época.

E o que o faz correr, continuar? É o seu sonho e que mais?
É a paixão pelas motas… nasce com a pessoa, os meus pais dizem que quando era pequeno não podia ver uma mota. Eles pensavam que com a idade isto passava, que quando fizesse 18 anos quereria era ter um carro, mas não, foi sempre aquela paixão. E recordo-me que os castigos, quando não tinha boas notas, era não me deixarem ver corridas de motas. Não perdia um programa de motas, comprava as revistas todas, sabia tudo o que estava relacionado com motas. (…)

Neste momento, então, um jovem algarvio que queira seguir o seu exemplo tem de ir para Lisboa.
É mais uma prova das nossas dificuldades, os clubes algarvios têm imensas dificuldades. Se vamos a uma empresa sedeada no Algarve pedir um apoio para uma prova, perguntam: então onde é que são as provas? Ah, são em Lisboa e Braga… quer dizer, perdem logo a vontade. Portanto, temos que procurar uma multinacional e no Algarve não é fácil arranjar esse tipo de empresas que esteja disposta a apoiar. É mais fácil arranjar uma empresa em Lisboa, mesmo que seja uma empresa só da zona de Lisboa, pelo menos tem ali o autódromo que lhe pode dar algum retorno. Por isso o autódromo que vai ser feito em Portimão, vem de certa forma ajudar os pilotos algarvios. E vem dar um grande prestígio ao Algarve, porque com o nível com que vai ser feito, podendo receber provas da Fórmula 1 e qualquer desporto motorizado, vai complementar o Algarve, e para nós pilotos não há dúvida nenhuma que vai ser bem melhor, podemos ir correr em casa…

Por falar em apoios, tem sentido o apoio do concelho?
Sim, tenho tido o apoio da Junta de Freguesia de Messines e da Câmara Municipal, são apoios que não podem ser muito grandes, não podem fazer mais, e tenho tido o apoio dos amigos. Desde que comecei a correr tenho amigos que vão a quase todas as corridas, continuam sempre a apoiar-me. (…)

Num mundo tão competitivo, também há histórias engraçadas que lhe tenham acontecido?
A história mais engraçada que tenho é a certa altura ter comparecido no Autódromo do Estoril, uma massa de amigos em grande número, foram num autocarro cedido pela Câmara de Silves e apareceram lá a gritar, a chamar o meu nome, com bandeiras, na última prova que fiz desse troféu, já estava a comemorar o primeiro lugar. Foi uma enorme satisfação olhar para as bancadas e ver tanta gente, até músicas tinham, as pessoas que estavam ali não esperavam ver tanta gente, olhavam e diziam, eh pá, tanta gente que veio apoiar-te!…
(…)
Texto: Paula Bravo
Fotos cedidas por Luís Carreira

Veja Também

Fogos em Messines e Silves

Ainda estava em fase de resolução o incêndio que esta manhã ocupou os bombeiros em …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *