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Memórias: O sismo de 28 de fevereiro de 1969 no concelho de Silves

Memórias: No dia em que passam 50 anos sobre o sismo de 28 de fevereiro de 1969, que assustou todo o País, lembramos o que aconteceu no Concelho de Silves. O trabalho é de Vera Gonçalves e foi publicado na edição º 163,de fevereiro de 2015. Destaca a situação da aldeia de Fonte de Louzeiros, na freguesia de Alcantarilha que ficou totalmente destruída. 

28 de fevereiro de 1969

Na madrugada de 28 de fevereiro de 1969, pelas 3 horas e 41 minutos, Portugal Continental foi mais uma vez atingido por um violento sismo, com uma magnitude de 7.5 na escala de Richter. O epicentro localizou-se no mar, no Oceano Atlântico, a sudoeste do Cabo de S. Vicente e fez-se sentir não só em Portugal, como também em Espanha e Marrocos.

O pânico dominou os milhares de portugueses que, naquela noite, foram acordados pelo maior abalo sísmico verificado no país desde 1755, sentido com maior intensidade da escala internacional (VII) no Algarve, sendo atribuída à região de Lisboa uma intensidade VI.

Para além da sua grande intensidade o abalo foi particularmente violento pela extraordinária duração: cerca de um minuto – “um minuto que durou horas…” e se a sua duração se prolongasse os prejuízos seriam incalculáveis.

Pelas 5 horas e 28 minutos, em Lisboa, registou-se uma réplica, de menor intensidade, grau III da escala internacional, e de menor duração quase impercetível.

O sismo provocou alarme e pânico entre toda a população, cortes nas telecomunicações e no fornecimento de energia elétrica e avultados estragos nos edifícios. Os estragos sofridos pelas construções foram apreciáveis em muitos casos, conduzindo à destruição e ruína de inúmeras habitações, bem como a fendilhação de paredes, chaminés e tetos, quebra de vidros, deslocamento de telha e à perda de parte do recheio.

Para além dos prejuízos materiais houve também centenas de feridos e treze vítimas mortais a lamentar, dois como consequência direta do sismo e onze ocorridos posteriormente ao sismo, em consequência de choque nervoso provocado em doentes.

Apesar de se ter sentido em todo o país, os maiores danos causados pelo violento abalo telúrico foram registados no Algarve, em particular nas localidades algarvias de Vila do Bispo, Bensafrim, Lagos, Portimão, Silves e Castro Marim. Em Vila do Bispo sessenta casas ficaram totalmente destruídas e 60% dos edifícios sofreram sensíveis estrados e em Lagos calcula-se que cerca de 400 casas foram derrubadas ou arruinadas, muitos edifícios ficaram danificados e o próprio edifício da Câmara Municipal ficou danificado com o piso superior fendido e em risco de derrocada. Houve ainda a lamentar a perda de uma vida humana pelo desabamento de uma das paredes da habitação.

Em Castro Marim o hospital ficou praticamente destruído e várias igrejas um pouco por todo o Algarve tiveram de fechar ao culto por ameaçarem ruína.

O concelho de Silves também foi bastante afetado. A aldeia de Fonte de Louzeiros praticamente desapareceu, o Posto da Polícia de Segurança Pública, situado no torreão, ficou arruinado e o próprio edifício dos Paços do Concelho sofreu danos, nomeadamente, no Salão Nobre, tal como dezenas de habitações registaram danos ou ficaram parcialmente destruídas.

Nos dias seguintes a aldeia de Fonte de Louzeiros, que ficou completamente arrasada, foi notícia nos mais diversos periódicos – Folha de Domingo, Diário de Lisboa e O Século.

No Diário de Lisboa, de 2 de março de 1969, surge a notícia: “Uma povoação destruída a 13 quilómetros de Silves – um pequeno povoado a 13 quilómetros desta cidade foi a maior vítima do abalo de anteontem, que o destruiu quase por completo. Em Fontes dos Louzeiros não há palavras para descrever o que se passou: das dezasseis habitações modestíssimas do lugar só uma ficou de pé”.

Como a maioria da população ficou desalojada, as famílias “acolheram-se quase todas num pequeno armazém, igualmente poupado pelo sismo. Mas a teimosia de uns quantos habitantes faz com que persistam em ocupar (devia procurar-se outra palavra) os restos do que foram as suas moradias”.

Os paupérrimos haveres dos louzeirenses ficaram soterrados sob os escombros: só removendo pedra a pedra todo aquele entulho haveria possibilidade de descobrir roupas e algum alimento não deteriorado. Por isso já partiu gente de Fontes de Louzeiros para a «operação reabastecimento» – pois de fora não chega socorro.”

O referido periódico também enumera os chefes de família que sofreram os maiores prejuízos: “Francisco Sebastião da Graça, de 45 anos (6 filhos menores, 10 pessoas a seu cargo); José Varela Cabrita, de 56; Sebastião dos Santos Bento, de 47, pai de dois filhos menores; Manuel Joaquim dos Santos, de 48 (dois filhos, sendo um deles menor); Luís Guerreiro, de 59 (três familiares a seu cargo); Maria Perpétua, de 68, viúva (vivia sozinha); Joaquim Martins, de 60 (feitos precisamente ontem); José Rodrigues de Sousa, de 58 (dois filhos menores); Francisco Rodrigues Botão, de 56; Manuel de Oliveira Moutinho, de 70 e José Alves Franco, de 38 (4 filhos menores).”

O jornal dava ainda conta que “Fontes de Louzeiros foi a vítima ignorada do tremor de terra de anteontem. A 13 quilómetros de Silves desapareceu uma povoação”.

Para além da notícia publicada no Diário de Lisboa, a edição de 8 de março do jornal Folha do Domingo noticiou “Foram momentos de profunda ansiedade e de indescritível angústia que os algarvios viveram nessa dramática e tormentosa madrugada. Há centenas de casas totalmente destruídas, elevando-se o total dos prejuízos a muitos milhares de contos. (…) No sítio das Fontes dos Louzeiros, perto de Alcantarilha, das desasseis casas existentes, só uma ficou intacta”.

Num artigo do jornal O Século com o título “O fim do mundo passou pelo Algarve”, lê-se que das dezasseis casas da aldeia restou uma em pé.

Para visitar as zonas mais afetadas pelo violento sismo o Sr. Ministro das Obras Públicas, o Eng.º Rui Sanches, acompanhado pelo Governador Civil de Faro e Diretores do Instituto de Assistência à Família e dos Edifícios e Monumentos Nacionais da zona sul percorreram no dia 2 de março esta localidade. No final da tarde realizou-se em Portimão, no salão do edifício dos Paços do Concelho, uma sessão de trabalhos conjunta com os Presidentes dos Municípios de Portimão, Lagos, Silves e Vila do Bispo e técnicos de Lisboa e Algarve onde “foi discutida a situação nas suas linhas gerais, ficando deliberado acudir imediatamente às pessoas desalojadas, reparar os edifícios públicos danificados, reconstruir as habitações que o possam ser e instalar casas desmontáveis, ate que as circunstâncias possibilitem a construção de casas definitivas”, como se pode ler no jornal Folha do Domingo.

Na semana seguinte, a 7 de março, o então Presidente do Conselho, Marcello Caetano, visita o Algarve e Silves para se inteirar dos estragos provocados pelo violento abalo, como se pode comprovar através da deliberação da reunião ordinária da Câmara Municipal de Silves realizada no dia 12 de março de 1969 “Visita a Silves de Sua Excelência o Senhor Professor Doutor Marcello Caetano, Ilustre Presidente do Conselho – Pelo Presidente [Salvador Gomes Vilarinho] foi apresentada a seguinte proposta: A fim de se inteirar pessoalmente dos estragos causados no Algarve pelo sismo que na madrugada de vinte e oito de Fevereiro último abalou todo o País, deslocou-se a esta Província no dia sete do corrente, como é do conhecimento da Excelentíssima Câmara, Sua Excelência o Senhor Professor Doutor Marcello Caetano, Ilustre Presidente do Conselho. Como nessa deslocação concedeu a Silves a honra da sua visita, facto que, a desfeito do imprevisto de que se revestiu, provocou na população desta cidade verdadeira manifestação de admiração e carinho, proponho que fique exarado na acta desta reunião um voto de agradecimento a Sua Excelência o Sr. Professor Doutor Marcello Caetano pela honra com que distinguiu a cidade de Silves, visitando-a, e outro de felicidades no exercício do alto cargo de Presidente do Conselho.”

Para realojar as famílias que ficaram com as casas destruídas o Ministério das Obras Públicas, através da Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização, forneceu cinco casas desmontáveis pré-fabricadas destinadas aos sinistrados deste concelho. Também foram implantadas em Fonte de Louzeiros barracas para alojamento provisório das vítimas do tremor de terra, implantação que foi feita em terreno pertencente ao Sr. José da Silva Reis.

O tremor de terra de 28 de fevereiro de 1969 é considerado, ainda hoje, como o último grande sismo a ocorrer em Portugal Continental, desde 1755 e o mais importante do século XX.

 

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