Home / Opinião / A emoção das reguadas

A emoção das reguadas

A minha escrita prazerosa, mesmo que sofrida, iniciou-se numa tentativa poética, reclamando um amor idealizado, próprio de um jovem no início da sua adolescência, num enquadramento campestre de uma árvore, já lá vão quarenta e três anos. Muito mais tarde, há dez anos, o primeiro poema foi reescrito, uma árvore que se reinventa e que majestosamente brota frutos na raiz.

Ainda desejo os teus lábios
pequenos, nessa tonalidade juvenil,
que se afastam, impulsionados pelo tempo,
na boca de uma mulher.
Fiquei fundeado junto àquela árvore,
que imagino frondosa e rendilhada
de grafias no seu tronco.
O vento esfriou a sombra do arvoredo
e alimentou a tua ausência,
que preenchia os meus dias e sustentava a solidão.
Quis me imaginar desancorado
e sequei os seus ramos fazendo brotar os frutos na raiz.
Surgiu um poema, nada mais.
O meu desejo está eternizado em ti.

 

A árvore já não existe, foi arrancada do recinto escolar aquando das obras na escola secundária de Silves, mas fico sempre emocionado ao reviver esse ato criativo em que me desafiei para além do prognóstico de incapacidade linguística e literária.

Nesses primeiros escritos, denoto sinais de dislexia (provavelmente irreconhecível à época), particularmente em trocas fonológicas e lexicais, como pre e per (naturalmente que perto é muito diferente de preto), e uma inabilidade para os sons em língua estrangeira. Hoje sei que existe dislexia na leitura e na escrita e tenho consciência que provavelmente fui ligeiramente disléxico, particularmente pela presença constante de erros ortográficos nos detestados ditados que eram corrigidos emocionalmente com as famosas e ineficazes reguadas. Recordo a incapacidade de escrever, num ditado, palavras como nenúfar e outras nessa mesma lição. O que me (nos) safava o dia eram as freiras que apareciam a contar histórias da bíblia com figuras recortadas, em lugar dos ditados, talvez a história do Adão e Eva e do fruto (do conhecimento) proibido e não das maçãs proibidas.

Existem momentos que perduram nas nossas vidas, por vezes insignificantes, atribuídas por mim ao meu estilo racionalista (episódio um) e ao prazer sonoro incompreensível e irreproduzível (episódio dois). O episódio um relata o meu início da aprendizagem da língua francesa no manual escolar Je Commence, de Maria de Lurdes Monteiro dos Santos Costa, 1.º ano do ciclo preparatório. O referido manual de francês tinha um destacável só com gravuras, às quais a professora dava voz, em torno do Monsieur e da Madame Dupont, do filho Robert e da filha Nicole e do cão Patapouf. Eu interrogava-me, se não existiam quaisquer legendas naquelas gravuras, como é que a professora sabia o nome das personagens, nada fazia sentido, naquela aula de francês. Episódio dois, ainda na aprendizagem dessa língua estrangeira. Alguém é capaz de dizer nez pointu (nariz pontiagudo) sem rir? Eu não, recordo sempre o ataque de riso que tive naquela maldita (bendita) aula de francês. Tudo soava de forma hilariante. Dessas aulas, só perduram estes dois episódios e, infelizmente, da língua francesa quase nada, apesar dos sofridos sete anos de estudo, nessa época já sem reguadas.

Num outro dia, num congresso de inclusão, percebi que os disléxicos têm alguma dificuldade na aprendizagem de línguas não maternas. Na aprendizagem, todos nós queremos sempre ir mais além, mas existem alguns que estão sempre a reclamar que não fomos suficientemente longe, sem atender ao que já caminhamos. Esse é o principal estigma de uma escola elitista, que renego, sempre a nivelar os alunos e a classificá-los, por vezes, muitas vezes, até em quadros e outras molduras de mérito, usualmente associados à pura contabilização das classificações académicas.
Copiar e reproduzir, particularmente quando me era ditado, nunca foi o meu forte. Gostava mais de raciocinar e resolver os problemas de matemática.

Veja Também

Mulher cega, Homem surdo

O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo. O …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *