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A Parvónia

Sou natural da Parvónia. Parvo, portanto. Nado e criado. Mal criado. Deixo aqui já escrito o registo de interesses.

A Parvónia é aqui onde me não calo. Lugar duvidoso. Excesso de mar a dar à costa. Barrocal alteado, em bicos de pés, a fugir do mar. Serra encarquilhada, cabeluda, a fugir do Barrocal. Barlavento altaneiro a fugir das Américas. Sotavento areento, a fugir de Espanha. Paisagem feia. Imprópria para viver. E vive-se.

A Parvónia é habitada por gente esquisita. Gente atoleimada. Pouco inteligente. Poucochinha. Como eu. Dizem que há pior. Não conheço.

A Parvónia já foi reino. Reino dos Algarves. Dos alarves, daquém e dalém mar. O gê sempre esteve a mais no topónimo. Pelo menos, desde que foi conquistado aos moiros. Invadido, conquistado, ermado, povoado. Pensava-se que o Paraíso era aqui. Há quem não duvide. Sentimento de parvo.

A Parvónia foi conquistada e reconquistada muitas vezes. Em 1249, fixou as fronteiras definitivas. Saltitou indigente, inteligente, indiferente, até ao século XX. Com sangue derramado. Pouco. Pouco sangue na guelra nunca deu muito sangue derramado. Ainda bem.

Nas últimas seis décadas, sobretudo, a conquista foi gloriosa. Os conquistadores vieram de longe, de perto e da própria Parvónia. Entre os últimos, também despontaram os melhores, nados e criados. Bem criados. Os mesmo-parvos e os nada-parvos.

Conquistadores e reconquistados fizeram um pacto de não agressão. Encetaram namoro duradouro e núpcias precárias. Foram cobiçando e salivando ante a fofura de muitos lugares da Parvónia. Quase só, os de onde se vê o mar a dar à costa.

E logo começou o reboliço de gruas, camartelos e betoneiras. Um festim sem fim. E o cetim verde natural que debruava a Parvónia, junto ao mar, recuou ou desapareceu.

Que graça tinha que continuassem a germinar a eito, manchas intermináveis de sobreiros, medronheiros, alfarrobeiras, oliveiras, amendoeiras, figueiras? E zambujeiros, tomilhos-cabeçudos, chorões, palmeiras-anãs, cardos-de-ouro, cordeirinhos-das-praias, perpétuas-das-areias, narcisos-das-areias?

Eu, que fui um verdadeiro narciso-das areias, ou um falso cordeirinho-das-praias, acho que nenhuma graça. Não é porque tenha constatado que as perpétuas-das-areias eram fugazes e regressavam logo aos países de origem, sem saudades de narcisos-das-areias. Nada disso.

É que flora a mais e betão a menos dá urticária. O betão armado em parvo é mais adequado. Sobretudo para os nada-parvos. Tem uma cor mais carnal. Muito mais do que o verde verdoso a embirrar com os azuis imberbes do mar e céu.

O cinzento do betão armado em parvo é consensual. E sensual. Então o amor dentro de um apartamento não é mais excitante do que o amor espojado por sobre um cardo-de-ouro que pica? Um apartamento com vista para outro apartamento com amplas vistas para a traseira de outro apartamento de curtas vistas sobre o mar?

Muitos dos parvos agradeceram a excitação do apartamento recuado, levantado ou afundado. Os mais expeditos, com os bolsos pesados, deixaram de ser parvos. Passaram a nada-parvos. Os outros permaneceram mesmo-parvos.
Nada-parvos e mesmo-parvos assim vivem, de mãos dadas, numa comunidade pacífica, calma, calaceira. Uns dormitam. Os outros têm espertina. Espertos.

Os nada-parvos orientam-se. E orientam. Pela calada do dia. Os mesmo-parvos calam-se. Desorientam-se. Não muito. Fazem birras. Poucas. Os outros desembirram. Assim, assim. Sem drama. O drama do Algarve é não ter dramas. Isto é o que dizem os sedentos saudosos do Remexido. Poucos e desmemoriados. Felizmente.

Não fiz sondagem. Nem fui sondado. Mas continuo a achar que os mesmo-parvos são a maioria. Uma maioria pouco ambiciosa, encolhida, tolhida. Que não gosta de atropelar ninguém. Mas que não se importa de ser atropelada. Dá canseira reagir. Conformar-se é mais “peacefull”. Yeh! O nada-parvo agradece.

O mesmo-parvo cultiva tolas certezas. A de que não é preciso ter alguém por baixo para ficar mais alto. Vive de consciência leve. Não sei se dorme a sono pesado. Mas o sono é oco, apalermado. Seca a bolsa e a ambição. Não se incomoda com isso. Não inveja o nada-parvo. Admira-o, apenas.

O nada-parvo pode ser discreto. Sorrateiro, chega ao património. Sorrateiro, o guarda. Não tenta ostentar. Ostensiva é a sua falsa modéstia. Parecida com a genuína. O estilo é apreciado.
Também há o nada-parvo indiscreto. Gosta de se mostrar dentro do que mostra. Adora fazer inveja ao invejoso, já que acha que toda gente o é. Exibe adereços que o distinguem do mesmo-parvo. O nada-parvo é distinto.

Enganam-se os que julgam que o mesmo-parvo fica de queixo caído ante o nada-parvo, quando o vê desfilar sentado em flor de coiro, ao volante de um carro de traição às quatro rodas, saído ardilosamente do stand. Stand by me é a música favorita do nada-parvo. Tocada a solo em stand topo de gama. Gama mesmo.

O mesmo-parvo não vê nada. Ou não quer ver. Nem os abraços postiços do nada-parvo. Nem os beijinhos no ar do possuído de ridículas poses. Poses tão ridículas como as ridículas posses que gostam de ostentar.

O nada-parvo está a regressar aos velhos hábitos. Nunca os perdeu, é certo. Como nos anos doirados em que só ele teve olho vivo. É um ser superiormente inteligente. Só merece a sorte que lhe coube em sorte. Depois da crise e antes da crise. Sim. Da próxima que já espreita.
No entretanto, continua o seu exercício de superior inteligência. E o de fartar vilanagem. Perdão. Na Parvónia não há vilãos.

O mesmo-parvo é menos possuído que o possidente, ainda que o seja. Sabe que possuídos, possidentes e despojados, ficarão igualzinhos entre si. Cada um a seu tempo, embarcará na mesma lancha. Mãozinhas calejadas ou unhitas de gel a acenar. Perdão. Mãozinhas estáticas. Geladas. Viagem curta. Nunca mais chega ao céu. O céu a seu dono. O seu só foi céu em terra. O céu do nada-parvo será igual. A diferença é que não gosta de pensar nisso.

Aqui na Parvónia não chegamos a meio milhão. À espera de dois milhões na maré alta. Não conseguimos encher a uma cidade média europeia. Mas não estamos mal aqui na Parvónia. Com ou sem os dois milhões que nos visitam com os milhões que trazem. A terra é nossa. E deles. A terra a quem atrapalha. E a quem se deixa atropelar.

Aturemo-nos. Os mesmo-parvos, os nada-parvos e os outros dois milhões de parvos que nos visitam. Todos temos muito mais em comum do que imaginamos. Nenhum precisa de se encantar no outro. Nem de lhe complicar a vida. Nem estragar muito. Nem deixar estragar o resto.

Mas cuidado com as facilidades. Aqui cultiva-se ainda a árvore das patacas. A mesma, como dizia um amigo, que é regada a dificuldades para vender facilidades. Só que a árvore das patacas também dá frutos amargos, conhecidos por patacoadas. E a Parvónia ressente-se.

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