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A minha alegre casinha

Ela é uma acompanhante de luxo. Ele tem-na contratada há mais de dez anos, Ela é fina. Não é universitária. Nem operária. Apenas operadora. Supostamente, de telecomunicações. Comunicações ao longe, portanto. E nunca está por perto.

Ele, cada vez que precisa dos seus bons ofícios, ela não atende. Põe-no em espera. Espera interminável. De imediato, a Luisinha começa a entoar-lhe a melopeia “as saudades que eu já tinha / da minha alegre casinha, / tão modesta quanto eu”. A Luisinha repete o trecho. E repete. E nunca mais se cala. Ele desespera.

É claro que tem saudades da Luisinha. Ele tinha 20 anos, em 1943. Conheceu-a na estreia do filme “O Costa do Castelo”, de Arthur Duarte, a bordar e a cantar “A Minha Casinha”, pela voz da Milú. Teve uma paixão por ela. Paixão nunca correspondida.
Ele, na altura, não tinha problemas com o telefone fixo. Nem com a televisão. Nem com o telemóvel. Muito menos com a internet. Não porque a internet não funcionasse. E não funcionava. Ele só tinha dificuldade em comunicar. Era tímido.

Agora o tempos mudou e ela voltou. Contratou a assistente de luxo para que se afagar o corpo e a alma. Esquecer a paixão frustrada. Andar sempre bem acompanhado, por si próprio, nas infinitas viagens que fazia pelo mundo, em casa.

Só que a acompanhante de luxo, que o devia levar ao sétimo céu, não quer saber dele para nada. E é cara. Cara não querida. Profissional. Matreira. Sabe-la toda. E o patego sucumbiu. Ela fidelizou-o. E logo ele, tão dado às suas preferências como às suas infidelidades.

Agora ele é só mais um número. À deriva no meio da infinitude de escravos da acompanhante de luxo. Neste mercado, de escravos, ela agora tem posição dominante. Ele de dominado. Paga-lhe os caprichos e blandícias dos seus serviços. Ainda por cima, na sua alegre casinha. E não é pouco.
Paga-lhe a televisão. Cento e tal canais. Só vinte são hot. Tem vícios frígidos de homem solitário.
Paga-lhe telefone fixo. Uma anormalidade já que ninguém lhe liga nenhuma. E um fixo, numa alegre casinha, mesmo em boa companhia, é um espécime caído em desuso.
Paga-lhe três telemóveis. Só para nenhum se ligar entre eles. Não há grande conversa a dar-lhes entre si. Claro que são praticamente teleimóveis. A dormitar pelas secretárias, pechichés, mesas de cabeceira.
Paga-lhe o router que anda para ali às aranhas, não sabe indicar a rota a quem, como ele, está parado e quer viajar pelo éter acima sem sair da sua alegre casinha.
Paga-lhe dois repetidores de sinal para a internet sem fios. E, por sinal, o sinal é tão fraco que os repetidores não repetem coisa nenhuma. Andam para ali às voltas, voltas e voltinhas. Não deixam descarregar qualquer coisinha que permita viajar na alegre casinha.

A linha de apoio ao cliente, tira-lhe do sério. O nome de “linha de apoio” é um embuste. Devia designar-se por “linha de apoio à acompanhante de luxo”. A mensalidade dói ainda mais do que a chamada de valor acrescentado. O valor acrescentado é a arte de deixar o cliente diminuído no ssaldos. E a internet em casa sempre a funcionar aos bochechos. Mal. Só não é porcamente porque os suínos não têm culpa.

A voz da Luisinha põe-o nervoso. Irrita-o. Porque nunca chega a outra voz . A do assistente da acompanhante de luxo para comunicar o problema. Torna-se óbvio que a acompanhante de luxo é incompetente. Ou maldosa. E a ira dele vira-se contra a Luisinha. Quando ouve a sua voz perde as estribeiras. – É bom, meu Deus, morar assim num primeiro andar a contar vindo céu, sem internet? Nos dias que correm? Sem conseguir aligação sem fios? Nem no smartphone? Nem no portátil?
E ele fica fora de si. Dentro da alegre casinha.

Nunca mais chega um sinal do além. Só a voz irritante da Luisinha. As saudades que ele tinha e continua a ter. Cada vez mais. Mas já não é da Luisinha.
Na verdade, odeia-a. Não consegue cuscar no facebook, quando a face dela era tão bonita. Trumpicar-se no tweeter. Instragramar-se, narcisicamente, de jeito. Ser o verdadeiro snapchato. Aparecer e desaparecer. Para sempre.

Deixou de ser tímido. Mas estar uma eternidade à espera, que o assistente da acompanhante de luxo o atenda, exaspera-o. E a Luisinha é que paga.
Só lhe apetece dar xutos e pontapés, no cachaço do router, no rabo dos repetidores. E berrar como o Tim faz na alegre casinha, tão modesta como ele. E lançar o grito de guerra – Ó Luisinha, vai gozar mas é com a engenheira Isabel dos Santos!

Já se passaram dez dias desde que finalmente um dos assistentes da acompanhante de luxo lhe prometeu mandar um técnico à sua alegre casinha. E nada. Nem técnico. Nem fios. Nem rede. E, cada vez que liga para a linha do apoio à acompanhante de luxo, lá vem a cínica da Luisinha a gozar com a sua alegre casinha, tão modesta quanto ele.

Anda exausto. A caminho da depressão crónica. Refugia-se no quarto. Suspira. Desfaz-se em lágrimas. Não lhe sai da cabeça que, em 1943, o seu quarto era um ninho / o seu tecto tão baixinho / que ao ir para se deitar / abria a porta em tom discreto / e o senhor tecto deixava-o entrar… ao som da voz da sua linda Luisinha.

Senhor tecto, ou arquitecto, da acompanhante de luxo, deixe entrar na sua alegre casinha a internet sem fios! Por favor! Já chega! Olhe que o homem ainda faz uma asneira. E não apague a voz da Luisinha. Consta que ele nunca conseguirá passar sem ela. Pelo menos, enquanto viver na sua alegre casinha.

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