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Violência doméstica benigna

É muito mais velho do que eu. Tem a idade do meu filho. Não é apenas o tal amigo de peito nas redes sociais. Quando se cruza na rua, cumprimenta-me. Não olha para o lado com trejeitos de distraído. Nada disso. É afável. Sabe parar. Estender o bacalhau. Convidar para um cafezinho. Conversar ao vivo.

Não é um amigo da onça. Muito menos amigo da anca. Sim. De qualquer anca que se bamboleie à sua frente. Tem esposa extremosa. Dois filhos pequenos, ainda não extremados. É um chefe da família dedicado. Presumo.

Dentro da face translúcida, esconde-se uma alma lúcida, um pouco acanhada mas bem humorada. Não revelo o seu nome para proteger a sua integridade física. Sobretudo em casa.

Há uns dias atrás, fez uma confissão pública extraordinária. Percebi logo que era vítima de violência doméstica. Quando se clama na praça pública – naquela que o Mark Zuckerberg estendeu por todo o mundo visível e invisível – a coisa é séria. A pessoa devia estar desesperada. E, uma pessoa assim, não consegue travar o seu grito lancinante: “- Desde que a minha mulher iniciou a dieta já perdi 8 kgs”! Nota-se que queria exibir felicidade doméstica para disfarçar. Estratégia clássica de pessoa violentada.

Soltou-se-me, de imediato, a compaixão solidária. Sou, também, vítima de violência doméstica. Só que um procurador assegurou-me que os maus-tratos que recebo são do tipo benigno. Discordei. A benigna é maligna. O Ministério Público abandonou-me assim à minha sorte. Pior, ao meu azar. Só me resta penar. O código penal não tem pena de mim. Vítimas como eu e ele temos de andar a transformar lágrimas em sorrisos públicos.

Tenho pensado no que deveria dizer ao meu amigo para o ajudar. – Sabes, tenho uma lá em casa que há trinta anos começou a insinuar-se. Pezinhos de veludo, mãozinhas de vison, sorrizinhos de seda, a recender a eau de parfum da Givenchy. Conseguiu inebriar o indefeso. O indefeso é meu sósia. Confunde-se comigo. Gosto de o confundir.

E o indefeso não estava preparado para o que vinha a seguir. O indefeso era um ingénuo. Indefeso e ingénuo é o dois-em-um permitido ao triste. O indefeso era do tipo jeitoso, meio distraído, um pouco tonto, católico batizado, bons princípios, não cometia excessos. Tinha índice de massa corporal saudável, peito de nadador olímpico, bícepes arronaldados, glúteos schwarzneggerianos. Enfim, uma estampa, em forma de anjinho.

Só que as outras – gente pagã, pronta para desinquietar querubins – não desamparavam o botequim. O indefeso resistia. E o ingénuo lá seguia, probo e seráfico, a caminho do ginásio.

A tal dos sorrisinhos de seda, matreira, gizou um plano infalível. E o ingénuo caiu na esparrela. Levou-o para casa. E, suprema lata, para a casa do indefeso.

O indefeso não achava o procedimento correcto, nem oportuno. Ainda assim, ela arrastou-o, sem piedade, pelos cabelos. Flagelou-o. Obrigou-o a trocar o ginásio por treino doméstico. O ingénuo não se apercebeu.

Uma mulher determinada não tem limites. Não tropeça em obstáculos. No seu cocuruto miudinho aloja-se uma obsessão de trinitrotolueno contido. É explosiva por dentro e silenciosa por fora. Não descansa enquanto não queima tudo à volta de um santo, indefeso ou ingénuo. Não precisa de sacar do isqueiro. Limita-se a impedi-lo de queimar calorias. Empanturra-o com sandes de courato, toucinho da papada, torresmos de porco preto. E todo o cardápio com que as nutricionistas se deleitam em casa, desaconselhando os seus doentes de feijoadas à transmontana e costeletas do cachaço que adoram.

Numa palavra, como é que uma mulher faz de um homem um verdadeiro fiel. Disse bem. Um verdadeiro fiel de armazém doméstico? Fácil. Engorda-o.

Sacana, o indefeso ainda tentou amenizar as contrariedades do amigo, sugerindo que arrepiasse caminho, que não fosse atrás da dieta da mãe dos seus filhos e que a coagisse a fazer comida de jeito, seguindo o preceito natural de um homem casado. O indefeso atirou-lhe a provocação: – “Ouve lá, o teu lar é um lar disfuncional! No meu, funciona o princípio do vaso comunicante ou da transmutação lípida. Olha, a minha esposa – trato sempre, com elegância sofisticada, a minha mulher por esposa -, a minha querida esposa, caminha para ‘top model’ e eu para lutador de sumo. Harmonia conjugal, portanto!”

O meu amigo não se convenceu. Nem quis mais ouvir o indefeso. E lá continua na sua via sacra de mirrar a olhos vistos à mesa de jantar.

Só que o indefeso estava a mentir. Em sua casa, o vaso comunicante não comunica. A parelha funciona mal. Só podia. Não é, de facto, uma parelha. É um trio num ménage sórdido. A top model passeia-se levezinha pela vida. Ameaça a toda a hora o indefeso e o ingénuo com o código penal. E, pior que tudo, com as intragáveis dietas da agreste que é.

O lutador de sumo agora só bebe sumos naturais. Não ingere proteína animal. Não põe dentinho em peixinho assado. Ovos? Uma ova. Já perdeu, em definitivo, os pneus de camião que tinha nas jantes do ventre. Arrasta-se no calvário de vegetariano que ambiciona transformar-se em vegetal. Já parece um alho francês com olhinhos. Pouco falta para atingir o superior estatuto de raminho de salsa ao vento.

Há tanto sofrimento nas hortas biológicas da vida doméstica. É dos maridos dois-em-um que elas gostam. Mas sem dó. Nem piedade.

 

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