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Memórias: O Natal de Alcibíades

Memórias: Nestes dias de Natal recuperamos as memórias do nosso colaborador Teodomiro Neto, neste relato de um Natal da sua infância, há várias décadas atrás, quando a menina Sanita quis organizar um presépio vivo com os alunos da escola primária de Messines. (Este texto foi publicado na edição nº 85, de dezembro de 2007)

 

O NATAL de ALCIBÍADES

 

O NATAL é o tempo das nossas maiores recordações da infância e o Alcibíades veio, assim, numa memória de há muitas décadas. Portanto só há que passar as palavras do tempo pretérito no presente dos Leitores …

Foi no meu tempo de escola primária … Na minha rua de Messines residia, também, uma família cigana. Foi num palheiro que se adaptou aquela família nómada e que se acomodou por uns largos tempos na rua da Estalagem.

Alcibíades era da minha idade. Minha mãe convenceu a senhora Mercedes (assim se chamava a mãe do meu amigo) a levar o garoto à escola. D. Cândida, professora, não foi muito receptiva à ideia, teria de consultar o seu superior, o inspector escolar. A vizinhança fez força para que o moço cigano entrasse para a primária. E D. Cândida, uma mulher de religião extremista, deu-se bem com o conselho de Deus e admitiu o menino: pele de leite, cabelos ruivos frisados e olhos de um azul profundo. Era bonito, o moço cigano!

Nada mais puro que a juventude. Preconceitos, só os que a escola ou a família afloravam. Na minha casa cultivava-se o respeito naturalmente cristão, por isso Alcibíades meu companheiro de carteira, enfrentou muito tranquilo essa nova etapa do seu jovem viver, convivendo comigo e a maioria dos nossos colegas.

Chegou Dezembro! A menina Sanita (Maria da Conceição Neutel), senhora muito crente e de espírito aberto a manifestações culturais, pede a colaboração da escola  para organizar um presépio vivo. Ela encarregar-se-ia das infraestruturas para a realização. A escola só teria de comparticipar com os meninos e meninas.

Cândida faz a escolha. Não achava bem um cigano metido na representação natalícia. Era o que faltava… replica a menina Sanita, marginalizar um menino filho de Deus… Nunca, exclamou peremptória, nessa qualidade hierárquica de descendente dos primeiros viscondes de Messines (1792-1886).

Mas D. Cândida, na sua formação “intolerante” e exigida, decide que ao Alcibíades só lhe caberia o papel de um simples pastor … De rei! Alvitra a menina Neutel! – Ele tem um porte! Reparem na sua tez … Uma coroa ficar-lhe-á muito bem … Sanita era de formação, não esclarecida “estadonovista”, mas assumida monárquica. Era a diferença …

Entretanto começam os preparativos. Minha mãe colabora na sua habilidade em costura. O fato dos reis magos ficar-lhe-iam à sua responsabilidade. A senhora Mercedes encarrega-se das sedas, seu negócio de trapos nas feiras e mercados, para o seu menino rei. Uma casa rústica e desabitada da família da Sanita, rua da Fábrica com frente para a Rua Dr. Cabrita, será o estábulo para representar-se a cena do nascimento do Menino. Tudo se discute ao mínimo pormenor.

Messines, nesse tempo, ainda não era fornecida de energia eléctrica. Tudo era ao petróleo ou velas. Que tempo longínquo…!

O Vasco, menino espigado e de rosto severo, destina-se à figura de S. José; a Dulce, menina tranquila e doce, será a Mãe de Jesus. Agora a dificuldade está em encontrar um bebé que se adapte. E quem o terá? É a Flora, irmã mais velha de Alcibíades, que oferece a menina, recém-nascida, pela dificuldade de um nubente ser exposto em época de frio e de contágio, em tempo de tuberculose.

Eu, Alcibíades e o Álvaro seríamos os Magos. A menina Sanita observa-nos e decreta: Álvaro, o Belchior por ser afanado, digamos obeso, Alcibíades, o bonito, seria Baltazar, a mim coube-me Gaspar. Hoje lembro aquela pintura de Emiliano da Costa retratando, em soneto, a chegada dos três reis: (…) Só a Mártir, dispnéica, embala o filho. /E em volta, debruçados, os três reis: /- O tifo, o catarral e o garrotilho.

Mas se tudo se altera a partir da escolha dos figurantes. D. Cândida, a professora, decide que o cigano terá de ser o rei mouro. Ela, sem conhecimento da história, desconhecia a santidade de Gaspar; só que era um mouro, na sua afirmação radical e de cristã antipedagógica. Cândida aquiesce, engrolando, de dente canino exposto sobre o lábio, mostrava o seu falso cristianismo para com uma criança de etnia inferior. Meu avó já havia encomendado ao sr. Raul, o latoeiro da terra, três coroas iguais, de lata que haveria de dourar e decorar a migalhas de vidrinhos coloridos. Alcibíades não entendia o que se passava, mas foi a senhora Mercedes que bem entendeu, e acompanhada do meu avô puseram ponto final: “Não se pinta a cara a nenhum menino, todos irão como Deus os fez”. Só que eu passaria ao papel de Gaspar, pela minha tez mais morena. E gostei pelo presente que meu avô julgou oportuno: um saquinho de veludo vermelho com duas moedinhas de 50 centavos, limpas por si, como se fossem prata …

O povo de Messines acudiu a assistir ao nascimento natalício, iluminando o trajecto, da Igreja ao presépio, onde a menina da cigana Flora, incarnava o bebé Jesus.

Naquela noite distante e fria, de lua clara, muito se cantou em alegria, à beira de um fogo feito no adro.

E, meu avô, finda a cerimónia, enquanto subíamos para a rua da Estalagem, aproveitou  para nos contar, a mim e ao Alcibíades, quanto importante era o seu nome na história grega: o Alcibíades guerreiro, amigo do filósofo Sócrates. Ao que o meu amigo perguntou: – E era cigano como eu, ou preto? – Meu avô, muito sereno e sábio, como sempre o conheci, respondeu ao garoto que despertava para o conhecimento: – Era Homem, como vocês já começam a sê-lo agora!

Alcibíades deixou-nos e foi correndo para a sua família, rua acima, em manifestação de alegria, enquanto as vestes reais drapejavam em fim de festa!

Nós entrámos na nossa casa em satisfação idêntica. Minha Mãe esperava-nos para uma simples Consoada, de gente simples, à luz do petróleo.

 

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