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Memórias breves (12) – Silves num contexto cultural, político e religioso

Lápide da Porta do Sol , Silves 1227

Em Março de 2017 publicara em “TERRA RUIVA”, um estudo histórico, político/religioso sobre o bispo designado para o ”reino do Algarve”, em 1333, de nome Álvaro Pais. Um natural da Galiza, bispo indicado por Afonso XI de Castela, e dedicado a esse reino. Como sabemos, as intenções dos reis de Castela, do X ao XI, as  suas pretensões foram numa constância da posse e domínio do Algarve. Se é certo que o papa Inocêncio IV, em 1245, pelo Concílio de  Lyon (França), negociou com  Afonso, futuro III de Portugal, que se tornaria no conquistador do Algarve (1249) numa exigência em destronar o rei Sancho II, seu irmão, por este não ceder às  vontades dos bispos  do seu reino, recebendo todo o apoio do papa Inocêncio, na expulsão do legítimo, segundo a  lei de sangue das monarquias, em continuidade.

Foi um processo conquistado pelo jovem monarca português, mediante cedências ao papado e bispos de Portugal, enviando Inocêncio IV uma bula a Afonso X de Castela, proclamando que a terra do Algarve pertencia ao reino de Portugal. (Consultar livro publicado em 2009 – “Faro Romana Árabe e Cristã”, edição Ministério da Cultura de Portugal, na minha responsabilidade de autor.)

Reza a história que Afonso de Portugal não respeitou o contrato assinado entre o papa Inocêncio IV e os papas que se seguiram. Assim difícil se tornou reconhecer a posse do Algarve na integração do reino de Portugal. Tudo sobrou para o jovem rei Dinis, seu filho, que assumiu o reinado, por morte do pai, em 1279. Os Afonsos de Castela justificam a posse do Algarve integrada no seu reino. Os papas  criaram problemas ao  rei Dinis.

Mantem-se a divisão e a “guerra” papal, entre Roma e Avignon, onde dois papas governam a cristandade, repartida entre Roma (Itália) e Avignon (França). Portugal está com Roma, Castela com Avignon. É o tempo da oportunidade política-religião portuguesa, aproveitada por Dinis com o Tratado de Alcanises, firmado com Fernando IV de Castela (12 /09/ 1297), mediante o qual foi demarcada a nossa fronteira. O Algarve estava contido nas fronteiras de Portugal. Assim o idealismo de Afonso X de Castela em tornar o Algarve num “reino”, numa intenção futura e política de terra de ninguém, para uma oportunidade… Assim Portugal se formou na sua unidade territorial, com alguns defeitos que o seu parceiro Ibérico foi acrescentando pelos séculos. Mas continuando Portugal, nessa unidade de territorial, num exemplo europeu, com Alcanises, de há 731 anos.

Silves sempre foi, política e religiosamente, uma cidade “mal amada”, desde a conquista. Permitida a sua decadência. O beato João III, com a entrada da Inquisição, arrumou a lendária Silves, deslocando a Diocese para Faro. A excelsa cidade que fora de cultura árabe, declinando-a. Os tempos mudaram. A cidade foi perdendo e recuperando o seu fraco prestígio da enorme “queda” que foi construída, em séculos. O Algarve, na lendária cidade que foi  Chelb – Silves, entrou numa degradação permitida. No período do renascimento, o rei Manuel I eleva, em 1520, Tavira a cidade, iniciando o grupo dascidade renascentistas, com Faro, 1540, pelo rei João III; e Lagos, a denominada Notável, em 1578, elevada  à categoria de cidade, pelo jovem rei Sebastião. Estavam formadas  as três cidades do renascimento. A cidade de Silves que Afonso IV cedera ao tio, o infante Henrique, perdera o prestígio de cidade do açúcar para uma decadência ruinosa, em que do esplendor da cidade ficou para um tempo de futuro  adiado…

Mas tudo se recompõe. Silves recupera-se. A custo reganha o prestígio. Nos passados dias 28, 29 e 30 de Setembro/18, debateu-se na cidade, numa associação das Jornadas Europeias do Património, sob o tema “Partilhar Memórias”, sobre  a Sé e  o seu Cabido. O jovem Gonçalo Melo da Silva, o orador convidado, pronunciou-se nestes termos: “Silves, 1253, é sede de uma diocese restaurada, é dirigida por prelados próprios, é munida por um cabido organizado”. Não desejo referir mais palavras do jovem Gonçalo, porque a conversa está ferida de conhecimentos históricos. Não é tão fácil despejar informações… Para o jovem Gonçalo, assim foi, um vazio…  História não tem prazos. Há que respeitá-la. Não pretendo responsabilizar o jovem. Que caminhando se aprende a andar

O Algarve e as suas cidades plurais, donde se destacam Silves, a Árabe-Muçulmana, transformada e enriquecida durante os quase cinco séculos do domínio Árabe, no qual, dado às narrativas dos anciões, se chamara, da “Bagdad do Ocidente”, próspera e opulenta, poética e amorosa. Silves a bela cidade silenciosa. Cidade de planalto. Cidade característica, vermelha nas suas construções e reconstruções. Eu vos admiro, assim como a Romana Ossónoba de Faro, onde se regista a marca do império dominante de Roma e de entre outros testemunhos registados, como Silves, ao entrar no período dos Templários e de outras bandeiras. Sofreram todas as barbaridades dos conquistadores de que hoje se recuperam, num testemunho cultural e político do século XXI.

 

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