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Património monumental do concelho: quem o salva?

2018 foi consagrado pelo Parlamento Europeu como o “Ano Europeu do Património Cultural”. A iniciativa, com o lema «Património: onde o passado encontra o futuro», tem como objetivo desencadear um processo de mudanças efetivas no modo como usufruímos, protegemos e promovemos o património cultural. Afinal, este assume muitas e variadas formas, desde o natural (paisagens), o imaterial (práticas, representações), ao material (edifícios, monumentos, sítios arqueológicos, etc.).

Imbuídos por este espírito, empreendemos uma viagem pelo património material de Silves. Note-se que o concelho é aquele que, de entre os 16 municípios do Algarve, apresenta maior número de monumentos classificados ou em vias de classificação, cerca de 60, dos quais 5 são qualificados com a categoria de Monumento Nacional.

Foi assim, num fim de semana de outubro, que partimos de São Marcos da Serra num périplo veloz, ora abençoados com a chuva, ora pelo sol, sem esquecer os arco íris que presenciámos e que muito nos alentaram.

São Marcos da Serra, que nos anos de 1920 constituía uma estação de repouso muito procurada pela “gente pouco abastada da província”, tem apenas um monumento classificado, a chaminé algarvia do século XVII. Localizada nas imediações da igreja, apresenta-se em bom estado de conservação, tal como o templo religioso, a avaliar pelo seu exterior, pois este último encontrava-se encerrado.

Chaminé em São Marcos da Serra

Malogrado ficou, até agora, aquele que foi descrito como um dos pólos de atração da aldeia, que o era sem dúvida se se tivesse concluído. As obras de adaptação do antigo lagar a espaço museológico – Museu do Azeite, espaço de exposições, restaurante, pousada e posto de turismo, iniciaram-se, mas foram interrompidas, encontrando-se há anos desprezadas.

Voltámos à estrada, em direção a São Bartolomeu de Messines. A paragem seguinte ocorreu a escassos quilómetros a norte da vila, na ermida de Santa Ana. O templo religioso, que remontará ao século XV, foi palco, em 1834, de uma batalha entre Liberais e Absolutistas, que elevou o nome de S. B. de Messines à história de Portugal. Mas isso não é suficiente para travar a ruína em que se encontra. O telhado caiu há três anos e assim permanece… Não que o pároco não tentasse inverter o triste estado, mas sem sucesso e nada que incomode muito as entidades ou até mesmo a sociedade civil… Mas a jornada é grande. Lembrámos Sá da Bandeira, Tomás Cabreira e Remexido, capitães da peleja, bem como os inúmeros mortos da mesma, muitos estrangeiros (belgas) e metemo-nos a caminho.

Ermida de Sant’ Ana

Fomos ao cerro do castelo, sobranceiro à Aldeia Ruiva, visitar a necrópole indicada na rotunda. Mas, procurámos e voltámos a procurar, quase desistimos, quando a vislumbrámos. Perdida por entre rebentos de azinheira e muitos tojos e carrascos, merecia melhor sorte… Até porque é Monumento de Interesse Municipal e está indicada num dos eixos viários principais, entre o IC1 e a A2. Também à saída desta última uma placa indica “percurso arqueológico”, fomos no seu encalço. Cientes que o incêndio andou perto, levámos o coração apertado, porém o “monstro” ali não chegou. Os vários menires existentes, bem como as necrópoles, todos classificados como Monumentos, merecem visita atenta, mas os painéis informativos estão devolutos e carecem há muito de substituição…

O painel na Vilarinha

Demandámos enfim à vila. Não tivemos muita sorte. Os museus do Traje e das Tradições e a Casa Museu João de Deus, de titularidade municipal, estão encerrados ao fim de semana. Contemplámos as fachadas e evocámos o autor da Cartilha Maternal. O conjunto monumental da Casa Museu e da igreja matriz, Monumentos de Interesse Municipal e de Interesse Público, respetivamente, merecem uma observação atenta, e é pena que a rua não contemple os dois sentidos de trânsito para permitir a sua descoberta para quem circule de automóvel. Enfim não há justificações para o injustificável. O templo também está fechado. Não vislumbrámos as graciosas colunas torsas, nem as infiltrações que estão a destruir a nave norte, das quais o pároco, há dias, nos deu nota…

… Deslocámo-nos imediatamente para Algoz. Ainda junto à ermida de Nossa Senhora da Saúde, em S. B. de Messines, pedimos proteção à Virgem, para nós e para a sacristia. O cerro ameaça ceder, e se tal acontecer será inevitável o arrastamento daquela colina abaixo…
Ermida de Nossa Senhora do Pilar. Templo sobranceiro a Algoz, Monumento de Interesse Público desde 1993. Abandonada e duplamente roubada pela incúria das entidades nacionais, municipais e locais. Um caso que devia envergonhar a vergonha, mas isso já não há! Por outro lado, o telhado ainda não caiu, e Santa Ana, em Messines, roubou-lhe a dianteira no desmazelo… Uma porta de ferro impede hoje o acesso ao interior, e ao surripiado altar de talha dourada. Na casa anexa as telhas vieram ao chão e a parede de adobes também…

Ermida da Senhora do Pilar

Resta um movimento da sociedade civil, a Comissão de Amigos da Ermida, a que se associaram várias entidades, que vem a angariar receitas para a sua recuperação. Em março de 2017 foi mesmo noticiado que a Câmara de Silves havia submetido com sucesso uma candidatura a fundos comunitários para a sua reabilitação. Mas quase dois anos depois nada se alterou. Aguardará a iminente derrocada o “salvador” subsídio da Europa? E se o mesmo não vier? No céu, sobre o templo, nuvens negras, não podiam ser outras.

Em Tunes chove… Não fomos à estação do entroncamento ferroviário, mas lembrámos que foi na primavera de há 120 anos que se iniciou a construção do ramal de Lagos. Regressámos ao centro de Algoz e à igreja matriz. Estava encerrada, procurámos a ermida de São Sebastião, fechada estava.
Não muito longe o velho lavadouro, um símbolo da vila, propriedade da Junta de Freguesia, desprezado e condenado a umas obras que se iniciaram e que por desmazelo não terminaram…

Lavadouro Público

Porém, uma surpresa agradável, o velho celeiro do século XVIII foi recuperado pela Associação Patrimonial de Algoz, é agora o Centro Cultural Athaíde Oliveira, ilustre monografista e filho da terra. Finalmente uma boa notícia e melhor exemplo. Foi a contemplar o arco íris que deixámos as terras de Algoz.

Fomos para Alcantarilha, por Montes Raposos, que o relógio não pára.
Entrámos na vila a apreciar as várias casas nobres, e junto à igreja, Monumento de Interesse Público, estacionámos. Três surpresas agradáveis nos aguardavam. O templo estava aberto e o turista para ele se precipitou. Na casa de Deus, contemplar a capela mor manuelina, os azulejos da capela batismal e toda a imaginária presente é uma experiência a não perder, tal como a bela fachada neoclássica, gizada por Francisco Fabri.

A capela batismal

Na frontaria, como em todos os monumentos da vila, pontuam pequenas placas bilingues com a história, ainda que por vezes romanceada, de cada edifício; no largo junto à capela dos ossos, um mapa assinala todas as atrações da terra e no reverso pequenos resumos da sua história.

Mapa em Alcantarilha

É certo que tal existe por todo o lado, mas no concelho de Silves só mesmo em Alcantarilha. Mais faz quem quer do que quem pode, diz o povo… Está pois de parabéns a Junta de Freguesia local.

Alcantarilha já se destacava no século XVI, e lá está o castelo para o testemunhar. Encontrava-se em construção em 1573 e foi qualificado 404 anos depois como Monumento de Interesse Público. Porém, o maior inimigo que enfrenta nas últimas décadas é a ruína, principalmente na rua do castelo. Se não for intervencionado por estes dias apenas subsistirá a memória, além de um grande amontoado de pedras.

Castelo de Alcantarilha

As inúmeras cantarias de verga chanfrada constituíam um outro vestígio do século XVI, mas o camartelo tem levado ao seu desaparecimento, e se até recentemente eram frequentes, agora apenas uma encontrámos e tanto que calcorreámos. Os centros históricos do concelho, à exceção de Silves, não se encontram protegidos e se na Europa foram as bombas da 2.ª Guerra Mundial que os destruíram, em Portugal é o desconhecimento das populações e principalmente a incúria e ignorância dos seus representantes/ governantes.

Saímos para Pêra. Vila altaneira de ruas e ruelas calcetadas e belas casas. Procurámos a matriz e a igreja de S. Francisco. Não foi fácil, até porque São Pedro abriu as torneiras e choveu a bom chover, mas lá chegámos. Primeiro à matriz, exterior restaurado e bem pintado, mas a porta fechada. Não vislumbrámos o interior, que foi mais decorado que restaurado, ao que consta. É que restaurar é diferente de inventar e mais ainda de danificar, por vezes irreversivelmente… Mais além e bem húmidos chegámos a S. Francisco. Monumento de Interesse Público, porém também cerrado. Aspeto positivo, não morreu ninguém, pois ali se velam os defuntos.

Igreja de São Francisco

Se em Pêra chovia, em Armação de Pêra havia sol e foi para lá que de imediato saímos.

Pêra de Baixo, Santo António de Pêra ou Santo António do Mar assim a pretenderam designar, mas os topónimos não vingaram. A fortaleza de Armação, concluída em 1667, foi erguida para proteger as populações dos ataques dos piratas magrebinos. Monumento de Interesse Público e guarda avançada sobre a praia, ampara uma pequena capela e alguns edifícios, por ora encerrados, para onde se projetou um museu da pesca, que infelizmente não passou do propósito, tal como o do Azeite, de que algures já falámos… Pese embora esta contrariedade e da capela trancada, pareceu-nos o conjunto bem preservado, na curta visita que lhe dedicámos.

Fortaleza e Capela de Armação de Pêra

Mais à frente passámos pela igreja, porém, hora de eucaristia, não entrámos. Evocámos sim uma das benfeitoras do templo, D. Elisa Gomes e prosseguimos pela avenida. O chalet Caldas e Vasconcelos, Monumento de Interesse Municipal e propriedade privada, está em obras. Terminámos o périplo junto ao velho casino. Ocupada a grande sala por artesanato, devia, sem desprimor, todo o conjunto constituir um pólo cultural da vila, o mínimo que a autarquia silvense podia fazer pela outrora bela aldeia, que não soube de todo preservar.

Partimos enfim para Silves, capital dos reis mouros. Em Alcantarilha acenámos à Quinta da Cruz, Monumento de Interesse Público, que privados em boa hora recuperaram e lembrámos José Diogo Mascarenhas Neto. Mas a jornada ia longa e a escrita também.
Vislumbrámos Silves, mas logo desviámos para a Fragura. Procurámos a velha azenha medieval da Horta do Rodete e a ela pouco depois chegámos. Perplexos saímos do carro, algumas telhas já voaram outras ameaçam cair, e as silvas e o mato quase engolem o Monumento de Interesse Municipal. Sentimos a face húmida, mas era São Pedro que do céu “chorava”, agora, grossas lágrimas, nunca poderiam ser pequenas. Monumento, propriedade da autarquia, perdido e desamparado. Em tempos esteve previsto um museu, mas também este se quedou e vão três…

Moinho do Rodete

Enfim, Silves monumental para percorrer. Castelo, Monumento Nacional, restaurado e intervencionado, um dos locais mais visitados do Algarve.
Merece uma visita, pena que não existam audioguias. Há um folheto, é verdade, e um outro do museu da cidade. Dos restantes monumentos do concelho pedimos, mas nada há. Nem de museus ou igrejas. Do lince ibérico, em exposição na cisterna, houve em tempos uns panfletos. Para o turista o concelho apenas tem os monumentos da cidade, má sorte ser das freguesias… A quase milenar cisterna almóada, ou aljube, exibe há vários anos a mesma exposição, e pasme-se está sem água, colocando em risco a sua integridade estrutural… Fomos olhar às ruínas do palácio, pena que faltem os painéis interpretativos, como no restante espaço.

Castelo de Silves

Passámos pela Sé, também Monumento Nacional. O portal foi recentemente intervencionado pela Direção Regional da Cultura. No interior decorria um concerto e não incomodámos. Seguimos ao Museu. Inaugurado em 1990 exibe um majestoso poço cisterna, Monumento Nacional, claro está. As vitrinas, repletas de objetos, mostram o que de melhor se encontrou no subsolo. Mas é na sala de exposições temporárias que vislumbrámos a belíssima exposição da Corte, uma vila romana do concelho, que agradou e recomenda o viajante.

Exposição no Museu Municipal

Não descemos à Biblioteca, onde a 3.ª linha de muralhas sonha em ser musealizada, mas o projeto tarda e pouco se pode admirar. Melhor sorte, ou talvez não, têm as muralhas e porta da Almedina, igualmente Monumento Nacional, onde a câmara interveio recentemente num troço, mas os restantes requerem obras e urgentes… Sob o torreão ficou por estes dias a descoberto uma antiga calçada em grés, enquanto na frente dos Paços do Concelho foram agora removidas e substituídas, por novas, as seculares lajes de calcário. Critérios que não discutimos mas que nos fazem confusão…

Calçada junto à Torre de Almedina

Corremos à ponte, que de romana só ostentará o nome. A mesma está desde 2016 em risco de colapso e fechada desde então… Ou pelo menos devia, porque a cancela foi desviada…

A ponte velha de Silves

Uma nota ainda para a Cruz de Portugal, o 5º Monumento Nacional, cuja história de musealização/ intervenção merecia por si só uma longa e pertinente reflexão.

Cansado está o leitor de tão longa viagem.

Recordámos a iniciativa que por ora se comemora, o “Ano Europeu do Património Cultural”, para logo concluirmos que a maioria dos monumentos do concelho está entregues à indolência. Ignorados pela sociedade civil e abandonados pelas entidades locais e nacionais, as mesmas que não se coíbem de financiar festas e torneios, em detrimento da preservação de um património único e de todos – a nossa identidade. Com um papel importante no desenvolvimento social e económico o património constitui a nossa maior riqueza, um legado dos nossos antepassados que temos a obrigação de transmitir às gerações vindouras.
Milhões de estrangeiros visitam anualmente o Algarve, turistas que exigem hoje novos produtos além de “sol e praia”. Basta ver os que demandam a Lisboa ou ao Porto, onde não se coíbem de pagar a taxa turística, que vários monumentos naquelas cidades já recuperou. Silves é a nível patrimonial o município mais rico do Algarve. Urge salvaguardar e mostrar aquilo que de melhor devíamos ter, e não há melhor sala para o veicular que o castelo da cidade. Todavia, falta uma dupla estratégia, que nunca a houve, a de conservação/preservação e de promoção/divulgação integrada.

“Património: onde o passado se encontra com o futuro” é o lema europeu do ano, mas depois deste retrato, haverá, caro leitor, ainda futuro para o património do concelho de Silves?

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3 Comentários

  1. É habitual, mas por ser questão atual em desenvolvimento, não se compreende a ausência de referência à Fábrica do Inglês, já monumento concelhio e em vias de ser classificado como nacional.

  2. Aurélio Nuno Cabrita

    Tem toda a razão o prof. Manuel Ramos, mas foi mesmo esquecimento… Nem a Paula Bravo se lembrou… À última da hora ainda inseri um outro… Era impossível mencionar os 60… De qualquer forma, a Fábrica do Inglês é um exemplo que se encontra na ordem no dia, o que não acontece com a maioria dos que refiro no texto. É certo que tal não justifica a omissão, ainda que involuntária…

  3. Acontece! Obrigado pela explicação.

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