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Rebeldia

Quando eu era um jovem adolescente, no final dos anos setenta do século vinte, escrevinhava umas pequenas histórias de confronto moral de um jovem revolucionário contra a burguesia reinante, muito arreigada numa sociedade basicamente tradicional e salazarista. As minhas rebeldias eram idealizadas numa mudança de mentalidades, longe de confrontos físicos ou distúrbios materiais. Fundamentalmente era um jovem idealista que adotara uma chave de bocas (de prata) num fio de prata, em lugar do tradicional crucifixo num fio de oiro. Acredito na construção moral dos indivíduos e no poder das utopias de rebeldia na (r)evolução da sociedade.

Os escritos repousam algures e o jovem revolucionário que, verdadeiramente, sempre assumiu uma natureza equilibrada e, de algum modo, moralista, nunca rejeitou um debate, uma comparação de ideias, mesmo assumindo algum isolamento no confronto com um coletivo de outros que advogavam (e continuam a advogar) posições de direita e de continuidade das regras sociais. Hoje, apesar de me acomodar ao ritmo insuficiente da recuperação dos direitos de quem trabalha, admiro uma juventude que se posiciona e age a favor da radicalidade de uma sociedade anarquista. Divirto-me ao ouvir um jovem beirão (entre Aveiro e Viseu) que vive na minha república (a casa mudou o nome para Ninho da Matulónia, com o intuito de oficializar a inclusão de género) em Coimbra, defender, de modo entusiástico e com a energia dos seus vinte anos, uma sociedade anarca em que existe organização. Estou certo de que são os pequenos grãos de rebeldia que farão florescer de novo o campo, aparentemente, árido que alastra pelo mundo, na europa, nas américas e em outras paragens.

Tenho alguns alunos brasileiros (alunos internacionais da Universidade do Algarve) e, desde o passado domingo, mantenho uma inibição em comentar (em aula) o resultado eleitoral, apenas porque tenho receio da minha ação (do azedume ou do silêncio das palavras) se algum dos alunos for manifestamente defensor da solução política que obteve a maioria dos votos. Sou democrata, não aceito um discurso de ódio e de defesa da barbaré dos poderosos ou da negação do socialismo. Tenho a pura consciência dos vastos erros das concretizações do socialismo (incluindo os seus protagonistas), mas foram os valores das ideológicas marxistas que deram azo a muitas das conquistas das gentes simples e do mundo do trabalho.

Acredito que hoje, a sociedade e especialmente os pequenos focos de revolução ou de infeção (na perspetiva dos poderosos) estão mais preparados para combater uma sociedade fascista, apesar dos condicionamentos morais e da manipulação das mentalidades, das famosas notícias falsas. Os germes fascistas alastram, em resultado de uma classe política que se pavoneia na corte das pequenas vaidades e que esquece o seu verdadeiro papel em favor da coisa pública. Não são todos iguais, mas denoto uma minimização de valores éticos e morais do desempenho de cargos públicos (políticos ou não). São os pequenos e grandes pedidos e, consequentes, favores, são os incumprimentos sociais. Quase todos os telhados têm telhas de vidro, mas o vidro alastra igualmente nos telhados daqueles que repetidamente se posicionam, nas redes sociais, como defensores morais de uma sociedade conservadora e de direita.

A propósito dos nossos desabafos, a Paula enviou-me um vídeo brasileiro de um Samba da Utopia (lindo) que resiste e que relembra que «se o mundo andar para trás vou escrever num cartaz a palavra rebeldia».

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