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Centenário da Pneumónica, a pandemia mais mortífera de todos os tempos

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de outubro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “Centenário da Pneumónica, a pandemia mais mortífera de todos os tempos”.

A exposição é acompanhada de imagens e documentos.

O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Expo_DM_Outubro_2018

 

Centenário da Pneumónica, a pandemia mais mortífera de todos os tempos

 

Faz cem anos que a pneumónica, também conhecida por “gripe espanhola” ou simplesmente “a espanhola”, matou mais de 50 mil pessoas em Portugal, não poupando nenhuma classe social.

Em meados do ano de 1918, uma estirpe severa do vírus H1N1 atacou o mundo inteiro. A pandemia foi a mais mortífera da história da humanidade. A gripe pneumónica foi uma doença viral que se manifestou por surtos e por sucessivas mutações do vírus. O contágio era muitíssimo rápido e propagava-se pelo ar que se respirava.

A epidemia desenvolveu-se em três fases: a primeira, mais benigna, terminou em agosto de 1918; a segunda iniciou-se em setembro e terminou em dezembro-janeiro, com uma gravidade extrema e taxa de mortalidade altíssima; a terceira iniciou-se em fevereiro de 1919 e terminou em maio, com um carácter benigno.

Em 1918, Portugal vivia um clima de instabilidade política e financeira e de crise económica e social. Era um país com precárias condições de vida, nomeadamente, com insuficiência e incapacidade dos serviços de saúde e de assistência, com salários baixos, condições de habitação muito degradadas, a maioria da população vivia em deploráveis condições de higiene e sanitárias, com escassez de bens alimentares e medicamentos, com elevados índices de analfabetismo.

O contágio foi feito a partir da fronteira alentejana com a Espanha, daí o termo “gripe espanhola”. Os primeiros casos ocorreram em maio, com trabalhadores sazonais portugueses que trabalhavam em Badajoz e Olivença e que trouxeram a doença para Vila Viçosa. Em setembro a pneumónica chegou ao Algarve.

As notícias que iam surgindo nos jornais eram poucas, porque se dava destaque à Guerra Mundial. Foi nos princípios de outubro que a imprensa algarvia começou a noticiar os primeiros efeitos da gripe pneumónica.

Cruz Vermelha Portuguesa prestando assistência aos epidémicos

A pneumónica no Algarve

Em Silves, a 13 de outubro, o jornal «Voz do Sul» faz menção à epidemia “Nestes desgraçados tempos de fome e guerra chegou-nos mais as epidemias. Silves não prima por uma cidade higienica. Pelo contrario ha mais imundice por essas ruas, por essas casas e quintais. Torna-se urgente a intervenção do Sr. Sub-delegado de Saude”.

Na primeira quinzena de outubro, Loulé e S. Brás de Alportel foram as zonas infetadas,  e  doença dispersa-se pelo Algarve. Assiste-se ao surgimento de muitos casos mortais em praticamente todos os concelhos da região.

Este surto teve uma particularidade, uma vez que as faixas etárias mais atingidas foram sobretudo as crianças, dos 0 aos 24 meses, e os jovens adultos, ou seja, as pessoas entre os 20 e os 39 anos de idade.

Para fazer face à pandemia faltou quase tudo, médicos, enfermeiros e instalações hospitalares e havia um desconhecimento generalizado sobre as formas de combater a epidemia uma vez que não existiam terapias antivirais nem antibióticos.

Na primeira linha de combate à doença esteve o Dr. Ricardo Jorge, na qualidade de diretor do Conselho Superior de Higiene e de diretor-geral de Saúde, que decretou a mobilização dos médicos, a notificação obrigatória de todos os casos, o isolamento de doentes e a interdição das migrações das forças militares ou dos trabalhadores agrícolas.

As farmácias foram obrigadas a manter os preços dos medicamentos e a alargar o horário de funcionamento e criaram-se “comissões de socorro” para acudir aos doentes.

Jornal Voz do Sul, 13 de outubro de 1918

Em Silves, essa comissão foi criada, conforme o periódico «Voz do Sul», na edição n.º 96, de 27 de outubro: “À semelhança do que se tem feito em outras localidades já ha muito que se devia ter constituido em Silves uma comissão encarregada de proteger os doentes pobres (…) ha muitas pessoas que não vam para o hospital, uns porque não teem lá alojamento, outros porque sam contrarios a isso e outros cuja unica doença é a fome. E não ha exagero afirmamdo-se que Silves é uma das terras do Algarve onde ha mais fome e mais miseria”.

Em outubro viveu-se uma espécie de clímax da pandemia tendo sido implementadas medidas preventivas que passaram pelo encerramento de escolas, a proibição de feiras e romarias, de modo que a feira anual de Silves, que tinha lugar no dia 31 de outubro e 1 de novembro, não se realizou.

Por todo o país assistiu-se ao encerramento de espaços comerciais e industriais por falta de funcionários que padeciam da doença. Foi o que aconteceu ao nível da circulação ferroviária no sul do país, com o encerramento da estação de Poço Barreto e Alcantarilha, bem como os serviços dos correios e telégrafos da província.

Se nas cidades o combate à gripe era difícil, longe das mesmas tornou-se crítico, os recursos médicos eram uma miragem, não havia sequer capacidade para enterrar dignamente os corpos, sendo muitos jogados para a terra, embrulhados em serapilheira, derivado da falta de caixões para tanta gente.

Uma das medidas adotadas foi a lavagem das ruas com cal, mas a higiene pública era muito deficiente, levando a protestos da imprensa, que denunciavam a falta de limpeza.

A pneumónica em Silves

A entrada da doença no concelho terá ocorrido na segunda semana de outubro, tendo sido noticiada a existência de quatro casos fatais de pessoas vitimadas pela gripe pneumónica, no dia 11 desse mês, na freguesia de S. Bartolomeu de Messines pelo «Diário de Notícias», na edição de 21 de outubro de 1918 .

No dia seguinte a doença entra na cidade de Silves e a 13 de outubro, a «Voz do Sul» noticiou a chegada da epidemia e a existência de vários doentes.

A primeira morte oficialmente registada na freguesia de Silves data do dia 15 de outubro, um individuo do sexo feminino, de 14 anos de idade .

No número de 20 de outubro de 1918, o periódico silvense menciona a gravidade da situação “Tambem nos fez a sua visita, tendo feito baixar á cama, mais da decima parte da população do concelho. Felizmente tem um caracter benigno; sendo relativamente pouca a percentagem de óbitos (…) de boa medida de providencias seria pensar-se já era obter uma casa para hospitalização dos doentes (…) A epidemia também não poupou este nosso querido amigo e proprietário da Voz do Sul, retendo ha dias no leito”.

É ainda referido que “continua a ordem de encerramento da Havaneza, club, e mais estabelecimentos ás 21 horas na noite, conservando-se a cidade em verdadeiro estado de sitio”.

Neste concelho, a epidemia espalhou-se durante a terceira semana de outubro, atingindo grandes proporções no final do referido mês, estendendo-se do centro urbano em direção das freguesias limítrofes, de tal maneira que o «Diário de Notícias», na edição de 26 de Outubro de 1918, noticiou: “Dizem-nos de Alcantarilha: esta povoação, assim como Pêra e Armação de Pêra, acham-se num estado verdadeiramente deploravel. Há predios onde todos têm sido atacados da terrivel doença, contando-se muitos casos fatais. Não há médicos, não há remedios, não há medicamentos” .

Os registos efetuados no livro de “Enterramentos no Cemitério de Silves”, verificados entre 28 de outubro de 1918 (data que inicia o livro) e 31 de dezembro, mostram que em apenas 22 dias, entre 28 de outubro e 18 de novembro, faleceram na freguesia de Silves 168 indivíduos, dos quais 91 eram mulheres e 77 homens, correspondendo a 29 bebés, 31 crianças, 27 jovens, 57 jovens adultos e 24  maiores de 40 anos.

Passado o período mais dramático, na terceira semana de novembro, levantou-se a proibição das feiras e romarias e algumas escolas foram reabertas. A 17 de novembro, o periódico silvense noticiou a realização, naquele dia, da “feira de Silves por iniciativa da autoridade administrativa.”

No início de dezembro rebentou a terceira vaga da gripe, mas a fase mais terrível já tinha terminado e já se encontrava em regressão, atingindo em maior número as crianças até aos 10 anos. Em 1919 houve apenas alguns casos isolados da doença que, mais uma vez, afetou 17 crianças, enquanto os restantes falecidos, 8, foram indivíduos com mais de 66 anos de idade.

A luta contra a doença

A autarquia silvense não se encontrava minimamente preparada para responder a esta situação, não dispunha de recursos financeiros, humanos e materiais, além da situação sanitária e higiénica do concelho ser muito má. Neste período, a edilidade reuniu apenas três vezes, a 19 de setembro, a 18 de novembro e a 31 de dezembro, fazendo alusão à gripe epidémica através da apresentação de dois telegramas emitidos pela Direção Geral de Saúde de Faro sobre a realização de enterramentos de epidémicos “se façam nos prasos usuaes” e “informando estar suspensa a concessão de licenças a médicos enquanto reinar a epidemia” .

Em Silves, a luta contra esta gripe pneumónica passou pela ação das autoridades de saúde locais e pelo pessoal médico e auxiliar disponível. Assim, no acompanhamento e tratamento da doença tiveram papéis meritórios os médicos Dr. Francisco Vieira (médico municipal e subdelegado de saúde) e Dr. Anselmo da Cruz Nogueira que prestaram um valioso serviço à localidade, acudindo a doentes, notificando todos os casos e procedendo ao isolamento dos enfermos.

O sacrifício destes profissionais de saúde motivou agradecimentos públicos. Na edição de 10 de novembro o periódico silvense «Voz do Sul» destacou o excelente desempenho deste dois médicos no socorro aos doentes “não podemos deixar sem um louvor os serviços prestados aos epidemiados pelos Srs. Drs. Francisco Vieira e Anselmo da Cruz Nogueira; tem sido um serviço verdadeiramente extenuante, verdadeiramente superior às suas forças fisicas (…) O Dr. Francisco Vieira tratou doentes fora do concelho de Silves”.

A gripe pneumónica que assolou o Mundo foi, em termos de mortalidade a maior tragédia do século XX, que, no Portugal da época, veio evidenciar a extrema pobreza de condições de vida, quer da população urbana quer da rural, onde escasseavam os meios de assistência médica e alimentar, a que se juntava o péssimo estado higiénico-sanitário existente, atingindo naturalmente as pessoas mais vulneráveis.

Terminada a epidemia assistiu-se a uma cortina de silêncio sobre o acontecimento, para que o mesmo fosse rapidamente esquecido, como se nunca tivesse acontecido.

 

Bibliografia:

GIRÃO, Paulo, A pneumónica no Algarve, Caleidoscópio – Edição e Artes Gráficas, S.A., 2003.

O Algarve, Faro, 1918.

Voz do Sul, Silves,1918.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gripe_espanhola_de_1918

http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/dossiers/historias-da-engenharia/1918-pneumonica-ou-a-gripe-espanhola/

https://www.spmi.pt/revista/vol08/ch7_v8n1jan2001.pdf

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