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Entrevista a Luís Aleixo, veterinário municipal: “O canil não pode ser a solução para um problema que é de todos”

“O canil não pode ser a solução para um problema que é de todos”
Luís Aleixo, veterinário municipal em Silves

Os olhos do “Pico Alto” são ainda inocentes. É muito novinho, e não sabe que é um animal abandonado e que a sua casa é uma cela. Bem diferente é a situação do seu vizinho da frente. Está bem tratado, tem chip e um dono que vive em Armação de Pêra mas que o abandonou e não o foi buscar, mesmo depois de contactado. Este animal sabe que não está em casa. E queixa-se disso, com frequência, ganindo e latindo quando ouve vozes.
“Os cães que não tiveram carinho, dá-se lhes água, comida, um sítio para se deitarem e estão bem. O cão que teve uma família passa o dia a ladrar”, justifica Luís Sousa Aleixo, veterinário municipal.

 

Luís Aleixo e Pico Alto, assim chamado por ter sido encontrado nesse local da freguesia de Messines

Estamos no Centro de Recolha Oficial de Silves, vulgarmente conhecido por “canil municipal”. Mas a designação oficial, não é só para inglês ver. De facto, há muito mais: ser um centro de recolha, significa que tem as condições necessárias exigidas por lei. Pode parecer um pormenor, mas não há muitos em todo o país, e no Algarve, além de Silves, apenas Lagos e Loulé têm o estatuto de Centro de Recolha.

O Centro de Recolha Oficial de Silves

Esta é a semana em que entra em vigor a nova legislação que proíbe o abate de animais nos canis municipais e em que o país anda a tentar perceber como se poderá aplicar esta medida, dado o número de animais de companhia que são abandonados todos os dias.
Esse é um dos pretextos que nos traz ao Centro de Recolha de Silves, para uma conversa com Luís Sousa Aleixo, veterinário municipal em Silves há oito anos. O outro, é conhecer as obras de remodelação do canil, concluídas pela Câmara Municipal no início do verão.
A visita começa por aí, pelas instalações que agora contam com espaços próprios para o isolamento e quarentena de animais suspeitos de raiva, duas celas semicirculares para cães e três boxes para gatos. Ao lado, um anexo existente, foi transformado num espaço de “lazer” para os gatos.

O espaço interior

No espaço já existente, foram renovados os pavimentos das celas de alojamento e recobro e foram colocados novos comedouros, bebedores e estrados. E foi feita a separação entre duas áreas, a de acesso ao Gabinete Médico Veterinário e a zona por onde passam os animais, para maior segurança. Estas obras foram resultado de uma candidatura apresentada à Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). E o Município de Silves foi, não só o primeiro do país a apresentar uma candidatura, como também o único do Algarve a ver essa candidatura aprovada.

As mudanças que se têm verificado no canil, são um motivo de orgulho para Luís Aleixo. “Havia um vício quando eu vim para aqui, as pessoas pensavam que isto era uma clínica, se tinham um cão doente, vinham aqui. Mas isto não é uma clínica, como eu costumo dizer não é a boutique canil, pequenina e fofinha!… O canil é para animais da rua! “

 

 

 

 

 

 

Abandono em alta

É para resolver os problemas destes animais que o veterinário municipal se bate… Uma luta inglória, dizem os números nacionais, e Silves não é exceção. Ao canil chegam cerca de 150 cães por ano, um número que tem vindo a aumentar. O canil dispõe de 10 boxes, no máximo pode acolher “20 cães pequenos”.
Já o número das doações que o canil consegue fazer tem vindo a “diminuir drasticamente”. O próprio veterinário, a sua família, amigos, amigos de amigos, conhecidos, têm sido a solução para muitos dos animais abandonados. Mas “estou a esgotar os meus recursos”, confessa Luís Aleixo.
E o que fazer aos animais que não param de chegar? Uma parte encontra-se à guarda do tribunal, pelo que permanece no canil até ser necessário. Uma outra parte será eutanasiada, quando a situação o exigir e a lei permitir: quando sofrem de zoonoses, quando morderam pessoas, se faziam parte de uma matilha e se tornaram agressivos, ou se sofreram um trauma intenso. O problema está naqueles que sobram. A grande maioria.
A questão do abandono é grave e assume diversas formas. Luís Aleixo já viu e ouviu de tudo: “todos os dias recebemos chamadas para irmos buscar cães, a maior parte são das próprias pessoas, dos donos que já não os querem”. Os motivos podem ser razoavelmente sérios, como os animais estarem doentes ou terem sido vítimas de acidentes, até aos mais vulgares, como ter um “namorado novo”. Resumindo: “tudo serve”, para as pessoas que querem ver-se livres dos animais.
Do outro lado do problema há a questão das adoções dos animais. Há pessoas que chegam ao canil “com a imagem de um cão, o cão que queriam e que pensam que vão encontrar”. Embora à partida estivessem dispostas a adotar, dificilmente encontrarão um animal que corresponda aos seus requisitos prévios. Uns porque querem cães de raça, outros querem um cão maior, ou mais pequeno, com outra cor…, outros não querem que o animal tenha o chip, o dispositivo de identificação. Recentemente surgiu uma outra dificuldade: a partir de janeiro deste ano, a lei obriga a que todos os cães que saem do canil sejam castrados. Muitos potenciais donos não aceitam essa situação.

Um problema nosso

Para o veterinário Luís Aleixo, o problema do abandono dos animais só pode ser resolvido na sua origem. E isso passa pela comunidade entender que o problema não é do médico veterinário, da GNR que atua constantemente ao lado do veterinário, da Câmara de Silves, da Direção Geral de Veterinária, nem apenas uma questão de saúde pública. Mas sim, que é um problema “nosso”, de toda a sociedade. E que só a colaboração de todas as partes permitirá atenuar o problema.

Luís Sousa Aleixo, há 8 anos em Silves

Há quem se queixe da existência de animais na sua rua ou no quintal, mas que se recuse a colaborar na ação de captura que é feita usando gaiolas com comida para atrair os animais, com portas que se fecham quando este está no interior. Estas gaiolas são deixadas nos locais e este método, tão diferente da imagem dos animais apanhados com redes, necessita da colaboração dos locais, muitas vezes dos queixosos, para vigiarem as gaiolas e para prevenirem os serviços do canil quando o animal está encerrado, pronto para ser recolhido. Luís Aleixo, conta que já ouviu respostas do género “isso é o teu trabalho” ou “não me pagam para isso!”.
Não sendo possível evitar o abandono dos animais, a Câmara Municipal de Silves, através do Gabinete Médico Veterinário, tem empreendido diversas ações de sensibilização para o não abandono de animais de companhia. A atividade “Veterinário por um dia” tem sido realizada para crianças e jovens que são convidados a visitar o canil e incentivados a trocar a compra de animais pela adoção dos animais abandonados. Recentemente também editou um folheto “único no Algarve”, salienta Luís Aleixo”, sobre “Animais de Companhia, Cuidados a ter e obrigações legais” , com informação muito completa para quem decide ter um animal na sua posse.
Ainda no âmbito da “Campanha de Sensibilização para o não abandono de Animais de Companhia”, que tem a decorrer, foi possível estabelecer protocolos com as clínicas veterinárias existentes no Concelho de Silves, no sentido de esterilizarem animais, para evitar a sua reprodução. Este ano, a Câmara de Silves já pagou as despesas de esterilização de 95 gatos e 20 cães e apoia as famílias carenciadas nessas despesas, pelo que as pessoas podem contactar o Gabinete Médico Veterinário para solicitar informações.
É também ao Centro de Recolha Oficial que se podem dirigir para a vacinação contra a raiva e colocação de chip no animal. Aqui, uma vacina contra a raiva, válida por três anos, custa 5€ e a colocação de um chip tem um preço de 13€.
Há também um serviço de eliminação de cadáveres de animais, a que qualquer pessoa pode recorrer, mediante o pagamento de uma taxa.

Canil não é matador de cães

Para o veterinário Luís Aleixo, há uma certeza: ”o canil não é um matador de cães”. Por isso, muito antes da nova legislação que proíbe o abate de animais entrar em vigor, já esta prática não se realizava em Silves. “Acabei com o abate indiscriminado de cães assim que vim para aqui”. A não ser, ressalva mais uma vez, naqueles casos, já citados, que a lei permite. “Nós aqui cumprimos a lei cumprindo a lei”, sublinha.
Sobre a nova legislação diz estar “mal feita”, mas ter sido benéfica num aspeto: “pôs toda a gente a falar do problema e as pessoas ficaram com a noção de que o canil não pode ser a solução”, seja um canil municipal, seja de uma associação protetora de animais que, não obstante toda a boa vontade que possa ter, não passa de um “depósito de cães”.
A conversa encaminha-se de novo para o ponto central: o da origem do problema – o abandono. Não se resolve com penas, pois é sabido que os processos abertos contra donos que abandonaram os seus animais e que foram identificados através do chip do animal, não chegam à condenação. Não se resolve com policiamento pois é impossível ter um polícia em cada casa. E não se resolve com canis porque as estruturas existentes não são capazes de suportar o número de animais abandonados.
“Só se pode mudar através da mudança de mentalidades, eu preciso de garantir a operacionalidade do canil, e este tem de ser visto como uma prisão, não posso atulhá-lo com cães saudáveis. Não vale a pena inventar desculpas. Todos temos que participar, se não for assim, o sistema rebenta”, conclui Luís Aleixo.

A história das cegonhas
No Centro de Recolha Oficial de Silves, junto às celas de isolamento, há uma que chama a atenção pela estranheza do que se vê no chão. Parece um monte de lixo e é quase isso, mas não. Trata-se de um ninho de cegonha.

O ninho onde as cegonhas recuperam

Nos últimos tempos têm sido recolhidas várias cegonhas feridas ou doentes. Colocadas na cela, regra geral, definhavam e morriam. Um dia, conta Luís Aleixo, além de uma cegonha, havia um ninho no chão. O veterinário municipal recolheu também aquele aglomerado e trouxe-o para a cela. E a partir daí, as cegonhas, instaladas no ninho, sobreviveram e recuperaram.

Um dos resgates “mais mediáticos” deste verão. A “Francisca” foi salva por Luís Aleixo e um grupo de Bombeiros de Silves

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