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Ver o comboio a passar

A decisão de transferir a Direção Ferroviária de Tunes para Faro, por parte das Infraestruturas de Portugal (IP) apanhou muita gente de surpresa, inclusivamente as pessoas que lá trabalhavam. Os 25 trabalhadores que lá estavam alocados teriam de começar a efectuar o seu trabalho em Faro. Desconfio que a decisão se prenda com a necessidade das Infraestruturas de Portugal em concentrar os serviços geograficamente, optimizar recursos e reduzir custos de operação. O edifício, devoluto de pessoas, será alvo de subconcessão a uma unidade hoteleira.

Se achar que está a ter um “deja vu” e que já ouviu esta história antes em qualquer sítio, é porque realmente já a ouviu em todas as decisões de deslocalização de serviços. Já a ouviu em relação a fechos de Serviços de Segurança Social, estações de correios e até balcões da Caixa Geral de Depósitos. Trata-se de mais um capítulo na já longa lista de deslocalização de serviços do interior. Ora, nesta coluna já foram escritas diversas peças sobre o tema. Não me irei repetir, mas tenho de salientar que este tipo de decisões tem repercussões significativas sobre as vidas das comunidades onde se inserem. Neste caso é Tunes, mas poderá ser qualquer uma das nossas vilas.

Todo o país se queixa do centralismo e da deferência em relação a Lisboa, mas a verdade é que de uma forma mais ténue, esta deferência em relação à capital regional também ocorre no Algarve, em relação a Faro. De certa forma, assistimos a uma sequência multinível de deslocalização de serviços, com Lisboa a receber as deslocalizações de serviços de Faro e com Faro a receber as deslocalizações de outras vilas e cidades do Algarve.

As novas tecnologias de informação prometiam a desmaterialização dos processos e do trabalho em si. A ascensão da internet prometia uma maior democratização do trabalho, em que se poderia trabalhar a partir de qualquer local. A geografia deixaria de ser uma variável necessária para o trabalho. Curiosamente, a mesma capacidade de desmaterialização que, de certa forma, prometia um território mais equilibrado e menos assente na presença física nas cidades, facilita, de forma perversa, a retirada de serviços e de valências dos territórios interiores. Se o serviço pode ser prestado da mesma forma em Tunes ou Faro, porque escolher Tunes, quando temos capacidade instalada por utilizar em Faro? Se podemos aceder e fazer transferências ou aceder ao nosso saldo numa página na internet, porque mantermos um balcão de um banco na vila? A promessa de liberdade geográfica acaba por sucumbir às mãos da optimização de recursos e da concentração nas cidades.

A questão aqui é que esta lógica não tem em linha de conta a vivência das comunidades que aí vivem; não concebe a importância destes serviços, em termos de criação de emprego, em termos de acessibilidade, em termos de orgulho colectivo, para a comunidade. O nosso território tem de ser menos assimétrico na sua disposição económica, demográfica e social, ou seja, um território mais equilibrado. O equilíbrio de um território promove a sua resiliência, a sua capacidade de resistir a choques externos. Um território equilibrado promove igualmente a liberdade de escolha do local onde se quer viver. Um país é mais do que os centros urbanos; se não houver uma consciência política local e regional sobre esta matéria, corremos o risco de ver o comboio a passar.

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