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A degradação das pilastras da Igreja Matriz de Messines

Desloquei-me, recentemente, em visita à minha terra, e, como é usual, não dispenso a peregrinação, pelos locais icónicos da minha infância.

Um deles é o adro da Matriz e não gostei do que vi.

Tinha conhecimento da degradação do arenito das pilastras que ladeiam o escadório frontal da igreja. Fiquei, porém, desta vez, surpreendido com o processo muito avançado e acelerado da erosão dos alvéolos, alguns dos quais registam uma profundidade bastante acentuada, pelo que se afigura, como urgente e conveniente, que sejam tomadas medidas, até porque existem instrumentos de apoio para a recuperação de monumentos públicos, sendo que – suponho – a resolução para esta situação não envolverá verbas muito avultadas.

Um certo adormecimento atávico é uma característica que, de há muito, noto nas boas gentes da minha terra. Não pretendo, de todo, que isto constitua uma crítica, visto que o faço apenas como constatação. Uma constatação, que gostaria de não ter, designadamente, em relação à falta do devido acompanhamento, para com a nossa bela e ímpar Igreja Matriz.

Reparei que, na base de uma das pilastras, foi, em tempos, iniciado um trabalho de restauração, que o bom senso, felizmente, fez parar. É inconcebível como alguém se tenha lembrado de utilizar cimento ( ! ), para colmatar os buracos no arenito – cuja cor é avermelhado-escura, devido à predominância dos óxidos de ferro, que constituem esta rocha.

Sou leigo no assunto, mas afigura-se-me que a melhor hipótese será a de reduzir a pó alguns bocados deste mesmo arenito, o que não será difícil por se tratar de uma rocha bastante friável, e, de seguida, com um cimento agregador, de cor neutra, a fim de manter o tom da pedra, fazer uma pasta, com que se preencherão os alvéolos. Tão simples como isto …

Vivemos num tempo em que a produção contínua de gases – principalmente pelos veículos automóveis -, numa profusão que, dantes, não havia, tem agredido, ao longo do tempo e numa cadência cada vez mais rápida, a própria pedra dos monumentos.

Falamos dos óxidos de azoto e de enxofre, existentes naqueles gases, cuja libertação na atmosfera induz, juntamente com a água pluvial, a clássica reacção química, que promove a formação dos ácidos respectivos, os quais irão formar a chuva ácida, a que se deve, em grande medida, a corrosão e consequente erosão das pedras dos monumentos.

Esta pedra, o arenito, também conhecido como Grés de Silves, identitária da nossa região, forma, no Algarve, um veio subterrâneo que tem o início na zona de Vila Real de Santo António e emerge, na nossa zona, num amplo afloramento, que justifica, quer a cor dos terrenos, quer a construção dos monumentos.

O arenito é uma rocha sedimentar, formada, especialmente no fundo marinho, mas também em meio lacustre, embora em menor dimensão, há entre cerca de 200 e 250 milhões de anos, no Período Triásico, pelas escorrências fluviais de areias e detritos de rochas argilosas e outras, detritos que se foram amontoando, sob enormes pressões das camadas superiores, ao longo de milhões de anos, e agregadas por um cimento próprio.

Alguns de nós, messinenses, dificilmente imaginarão que os rochedos do Penedo Grande, lá bem no alto do cerro, já foram ‘fundo do mar’ e, através das forças titânicas da tectónica de placas, elevados, como uma pena, ao topo da elevação, onde, desde sempre, os conhecemos.

 

José Domingos

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Um Comentário

  1. Tem toda a razão. A solução proposta parece-me de fácil execução e nem seria necessário um especialista. Todavia, deverão ser contactadas algumas entidades, nomeadamente a Câmara de Silves que há-de ter um departamento vocacionado para o património do Concelho.

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