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Agosto a Contragosto

Chegam de supetão. Em fila, para não se perderem. Do Norte e do Centro, de Leste e de Oeste. Mais não nomeio porque o mundo é vasto e o Algarve infinito. Cabem sempre mais uns quantos.
Os que vêm da Grande Lisboa são todos de Lisboa. Ninguém é do Fogueteiro, Porcalhota, Arrentela, Coina. Os outros são todos do Norte porque o norte fica sempre a norte do Algarve. Do Sul, ninguém chega porque é onde estamos. A terra não é redonda. É suposto acabar aqui. Do estrangeiro vêm aos magotes, em pássaros de ferro ‘lowcost’, atroando os ares a cada minuto. Revolvam as águas da Ria Formosa. Desinquietam alforrecas, alcabrozes, ostras e carcanhóis.

Os indígenas, os ligados às actividades turísticas, veneram a chusma. Os desligados, nem por isso. Os que chegam, ávidos de sol e de água choca, besuntam-se com cremes aveludados. Esparramam-se sobre a areia quente em toalhas floridas. Cingem-se uns aos outros para parecerem poucos. Entopem estradas. Atravancam supermercados. Atulham restaurantes. Fazem filas rabugentas para o gelado e o euromilhões. Este mesmo que se esquece sempre deles e de mim. Refilam por muito, por pouco e por quase nada. Têm sempre razão. Os que cá estão, nenhuma. Também refilam.
Os que chegaram, na primeira quinzena de Agosto, tiveram azar. As nortadas persistentes e furibundas, em Junho e Julho, arrefeceram a água do mar. Ninguém exigiu responsabilidades ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Sim, quando é para alugar um tê zero para um casal e alguns mais, até perfazer a baixa densidade populacional de quatro ou cinco corpos gentis por metro quadrado, deveriam exigir, ao IPMA, que impeça as nortadas furibundas do ano seguinte.

Mas tudo isto são pinotes, como dizem os ingleses eruditos das docas que tradicionalmente integram o mais volumoso contingente de estrangeiros. O importante é tê-los todos por cá. Não me queixo do bem que fazem aos bolsos de alguns. Nem do incómodo que possam gerar. E nem recebo um cêntimo por esta conversa.

Eu, à cautela, faço-me o bem que consigo. A contracorrente a contragosto. Não vou à praia. Recolho-me. Encolho-me. Nada fácil para um latagão.

Estou habituado a este pandemónio desde Julho de 1596, quando Robert Devereux, o Conde de Essex, muito dado ao turismo do livro e da leitura, saqueou e incendiou Faro, carregando para Inglaterra a preciosa biblioteca do bispo do Algarve, D. Francisco Martins de Mascarenhas, entre outras preciosidades. Ainda hoje continuamos à espera que nos devolvam os incunábulos e a restante livralhada que dormita na Bodleian Library, da Universidade de Oxford.
Os turistas ingleses de hoje, honra lhes seja feita, já não são dados ao saque. Nem à leitura. Aquelas pelinhas ensebadas e arroxeadas até reluzem à sombra. As boquinhas peladas preferem arrotar a cerveja nos bares de Albufeira mais do que bocejar de tédio, a soletrar em latim, no Arquivo Distrital ou na biblioteca da Diocese de Faro.

No meio de tanta gente ilustre, também aparecem os nossos amigos. E mais os amigos da Laura, de Aveiro, que enchem a casa de música e de alegria, dia e noite. Do Luxemburgo, de Vila Real, do Porto, de Lisboa, aparecem os outros. O que vêm aqui fazer? Nada. É estranho, pois é. Concentram-se nos primeiros dez dias de Agosto, quando toda a gente aqui se desconcentra. E eu não consigo concentrar-me neles. Não têm culpa. Eu também não.
Os amigos de Viseu são os mais avisados. Têm casa na Meia Praia e chegam, para praia inteira, no final de Agosto. Trazem sempre um bacorinho do Pedro dos Leitões a fumegar na bagageira. Obrigam-nos a engordar. Não acho elegante.
Os outros meus amigos, concentrados em dez dias, são uns chatos. Não porque chateiem. Apenas porque não chateiam o suficiente. Dificilmente se atinge um mínimo olímpico de merecida atenção. Agendar um jantar para afogar saudades, expressar embirrações afectuosas até que a garganta nos doa, é um berbicacho. E a sede a pedir finos e brancos geladinhos. Muitos. A medida exacta para atravessar o deserto de um ano sem nos vermos.

É que, coisa sinistra, há uma que trabalha. Não pode andar em bolandas turísticas. Bizarro. No Algarve também há gente privada de lazer no período estival. E, o pior de tudo, há outro, um indigente encartado e amorcegado. Também arrota. Postas de pescada. Congelada, claro. O peixe fresco no Algarve, em Agosto, anda pela hora da morte. Paciência.

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