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O peso do Turismo

Com o final de Agosto, as estradas do país enchem-se com o regresso dos turistas às suas casas e às suas rotinas. Para trás ficam os dias de praia, as tardes nas piscinas e as noites quentes do Verão.
Igualmente quentes continuam as discussões sobre a questão da massificação do turismo. Um pouco por todo o mundo questiona-se sobre o valor das hordas de turistas que invadem as cidades europeias, munidos de selfie-sticks e telemóveis, fotografando tudo o que se assemelhe remotamente a algo turístico. Estes movimentos pendulares turísticos criaram empregos e dinamizaram centros urbanos, mas pouco a pouco foram criando fricção entre os ditos turistas e os moradores da cidade, que se queixam do aumento do preço das habitações, e dos efeitos perniciosos da sobrelotação dos serviços das cidades.

Este debate tornou-se ubíquo e praticamente global; todos os dias, jornais e revistas, revisitam o assunto. Um conceituado jornal alemão recentemente publicou um artigo sobre o assunto, que foi amplamente publicitado na imprensa nacional, no qual mencionava a cidade do Porto como exemplo de desvario turístico, apelidando-o mesmo de “predador”.

Por cá, o assunto está na berra. Os partidos dividem-se em propostas para reduzirem o preço das habitações e apelando à implementação de medidas para a redução do turismo. Foi apresentada nova legislação para a redução do alojamento local e fala-se em formas de restringir o acesso a um certo número de turistas nas cidades e territórios afetados.
Admito que às vezes não compreendo a forma como o debate é levado a cabo. Politicamente roça o ideológico; enfrentemos o facto de que o turismo existe, de que é uma indústria positiva na nossa economia e que existem inconvenientes para os territórios, como em qualquer indústria. Claro que certas medidas podem e devem ser tomadas para impedir abusos, mas no geral, o turismo traz níveis de desenvolvimento que acabam por ser benéficos para a população e para o rejuvenescimento dos centros urbanos.

Admito, o que acho mais engraçado em todo o debate é o facto deste assunto estar na ribalta da comunicação social devido ás pressões imobiliárias em Lisboa e Porto, quando há anos que os algarvios se queixam dos mesmos efeitos do turismo na região.

As mesmas preocupações que preocupavam os algarvios há anos: a pressão nos preços do imobiliário, a relegação dos locais para um segundo plano em detrimento dos apetites dos turistas, a alteração do modo de vida, o sobredimensionamento das infraestruturas no Algarve face à população residente, a sazonalidade do emprego; agora assolam as populações de Lisboa e Porto.
Para estas dores, são receitadas legislações à escala nacional. Quando eramos só nós com este encargo, havia um encolher de ombros por parte dos políticos e uma resignação de que estávamos no Algarve.
Aqui se nota a diferença de tratamento e um reconhecimento da pequenez da nossa região.

Dito isto, é igualmente curioso que toda a questão da pressão imobiliária e do aumento dos preços das casas está a ser tratada totalmente do ponto de vista da restrição da procura dos turistas. Não há uma palavra sobre a redução das exigências e da adequação dos zonamentos para aumentar a construção e aumentar o número de casas no mercado, reduzindo o seu preço. A solução, aparentemente, nunca passará por ter mais casas; sempre pela redução do turismo. Mesmo quando, na zona de Lisboa, onde o problema é mais notório, é a Câmara Municipal a maior proprietária imobiliária.

Quando se tem um martelo na mão, todos os problemas parecem pregos, aparentemente.

PS: Não posso deixar de mencionar a calamidade que foram os incêndios que assolaram o Algarve durante o verão e que tão duramente afectaram o nosso concelho. Não menosprezando o esforço e dedicação heroicos dos bombeiros que combateram no terreno, os resultados no mesmo colocam em cheque a eficácia e a qualidade da liderança e estratégia dos que coordenavam o combate. Não aspiro a perceber do assunto, mas creio que algo correu de horrivelmente errado quando um incêndio iniciado em Monchique praticamente chega às portas de São Bartolomeu de Messines. Há que reflectir e implementar alterações nos planos de prevenção para que este tipo de coisa não volte a acontecer.

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