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Memórias Breves (7) Entre Céu e Inferno

ENTRE CÉU E INFERNO = Nos meus tempos, de garoto, quando entrava na Igreja de S. Bartolomeu, o Padroeiro da minha terra de Messines, passando pela capela chamada das “Almas”, fechava os olhos, em receios, porque a minha professora primária, muito crente, diria “excessivamente beata”, introduzia-nos os medos do inferno. E aquela capela que se integra no conjunto das restantes, influía-me esses receios.

 

Essas memórias infantis, levaram-me a contar no meu livro “As Tentações de Maria Lua “, publicado em 2010, uma narrativa sobre essa capela oitocentista. Acontece que no passado dia 7 de Março, revisitando a igreja e revendo o retábulo, na pintura da Capela das Almas, tenho Gente amiga que se admira de tal concepção artística. “Um belo excelso de arte”, afirmam-me. Eu, logo no momento, faço a pergunta necessária: Se, já, haviam visitado as catedrais de Léon (Espanha) ou a catedral de Lyon (França). Que não! Foi a resposta em uníssono. “Pois eu já”.

E explico, nesse hábito da lição: As duas catedrais construídas em 1180 e terminadas nos fins do século XV, têm identidades muito próprias, foram a partir do início do século XII, na responsabilidade dos mestres franceses, nesse deslumbramento de vitrais, da autoria dos irmãos Levet. Mas todo esse gótico dos portais, tanto da catedral de S. João (Lyon), assim como de Santa Maria ( Léon ), têm as advertências de São Miguel, condutor de almas para o céu ou inferno, ou purgatório, sobre os imensos e artísticos portais. Lá está o Arcanjo Miguel, chefe supremo dos anjos, o mais importante de toda a milícia celeste, apontando, de braço decisivo, o Céu … E nota-se, entre a espuma da separação, inferno, à esquerda do visitante (não do anjo), um núcleo de gentio sofredor: dicotomia que levou e trouxe os medos da esquerda e o benefício da direita. Mas para o admirador do retábulo, ou mesmo em escultura, o sentido de: esquerda /direita, está para quem admira e controla os seus membros. A igreja não indica: inferno/céu/ direita/esquerda. Só os que contemplam reparam que o seu lado esquerdo está para o fogo das almas incrédulas, e o lado direito para o desejado paraíso, o céu. É esse lado de cicerone que o Arcanjo Miguel desempenha, sem assumir, para a sua IGREJA, responsabilidades. O Arcanjo só indica o que tem de indicar… E logo vem a pergunta: “Mas a inquisição assim o determinou?” E eu vou em continuidade histórica: Não será mesmo nada assim… A Inquisição vem pelo poder de Carlos V, imperador da Europa, desde do século XVI. Portanto, só chega a Portugal, no reinado de D. João III. Mas esse princípio do medo, sempre existiu. E a prova, dessa existência já estava determinada no século XII, com as duas catedrais mencionadas.

Ora, explicada a situação do medievalismo imposto: bom , direita ; mau, esquerda, está entendido o desígnio dos tempos das trevas.

Reparo que a “Capela das Almas” de Messines, nos leva ao inverso das catedrais francesa e espanhola. Há que olhar e reflectir quem o Arcanjo Miguel protege!

Era ver, naquela tarde chuvosa de 7 de Março/18, os caça imagens do retábulo, que o pintor tão concreto soube entender e comunicar: o Arcanjo S. Miguel, de braço apontado para o céu, segurando o seu protegido. O resto, que ardesse no inferno! Mentalidade política/religiosa dos tempos medievais. Quiçá… De sempre!

Foto da professora Noélia Serpa

Ora, o pintor, de nome Joaquim José de Sousa Rasquinho foi um homem artista de mentalidade, já, liberal. Tanto quanto seu filho, o Cónego Joaquim Manuel Rasquinho (protector do pintor, seu pai, oferecendo à Igreja de S. Bartolomeu, o admirável painel, a que o Povo chama de “As almas do Purgatório” .) Este Cónego (admirador do filho, de D. João VI, de nome Pedro, libertador do Brasil ) desempenhou na hierarquia do importante bispo do Algarve, Francisco Gomes de Avelar, o mecenas da reconstrução do Algarve, após terramoto de 1755, contributos de entendimentos com o seu Bispo, num tempo de transições não atendíveis na Igreja algarvia.

Vamos admirar essa tela dos “sentidos”. Sem niilismos, neste século XXI. E entende-la, em arte! Hoje, estudar os séculos, nas suas cumplicidades de temor, de ódios e de tantos malefícios, e podê-los transmitir sem ofensas, nem tributos fugazes. É um serviço à continuidade cívica/cultural. Mas, não quero deixar a oportunidade em falar do pintor que nasceu em Loulé, 8 /12/1736, falecendo a 10/12/1822. Um pintor do barroco algarvio, que não deixou de evoluir para o neo – clássico, como ficou, bem registado, no quadro ao seu bispo (do Algarve) seu amigo, D. Francisco Gomes de Avelar.

 

Num estudo sobre a figura do pintor, que intitulei de: “Joaquim José Rasquinho = Quem É “. Não deixo de o registar, também, como o autor dos imensos 12 painéis, expostos no esquecimento, talvez de ódios oitocentistas, ao pai e filho Rasquinhos. O livro “Memoreas Concernantes à vida e algumas obras”, 1823, deram-me para entender a capacidade artística do Homem Rasquinho. A Capela das Almas, assim conhecida na Igreja Paroquial de Messines, merece uma admiração pela tela sinistra e deslumbrante, que o pintor lhe dedicou. Fiquemos, não no realismo tendencioso a punidor dos contrários, mas sim ao deslumbramento de São Miguel : as cores, o trajar, o esvoaçar, a determinação. Tudo está no clássico barroco, imposto e que vem do início do século XVI, com a construção do Vaticano, sob ordens do papa Júlio II. O nosso Rasquinho deu-nos esse tipo de Igreja poderosa e dominante, em arte. É altura dos estudiosos aprenderem as relações políticas / religiosas / artísticas. Sem esses componentes , entra a banalidade…

Hoje, a igreja de S. Bartolomeu de Messines pode ser admirada, para além, de uma quase exclusividade de elegantes e estranhas colunas entrelaçadas (torças), no ruivo da sua pedra local, o grés, em que o PENEDO GRANDE sempre foi o sustentáculo da indústria de “pedra de amolar”, para além das arquitecturas tradicionais. Há a vontade dos Messinenses em testemunhar o casco histórico da antiga vila, que tanta gente do saber, desde os antigos aos do tempo contemporâneo, deram, dando-lhe conhecimentos. Messines merece esse reparo e reconhecimento. Tem departamentos de cultura activa . Que tão poucos, somos muitos …

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