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Em estado puro

Neste mês florido de abril, o jornal faz dezoito anos e a minha colaboração faz quinze anos e quatro edições. Com a minha primeira participação, em dezembro de dois mil e dois, eu acendi uma exígua chama de utopia, que alimenta ou consome os empreendimentos, conjugada com as outras pequenas labaredas que sustentam a realidade de um jornal mensal, de âmbito concelhio, intitulado Terra Ruiva. Nestas crónicas de uma página A4 (ou dois minutos de leitura), desta feita um pouco menor, tento abarcar um conjunto de referências que sejam sábias para todos, para os jovens leitores e para os leitores seniores. Fico verdadeiramente feliz, quando alguém me assalta na rua, ou em outros contextos mais recatados, para se referir a algum dos meus escritos, especialmente quando essa abordagem é totalmente inusitada e raramente esperada.

Os meus escritos têm versado um vasto conjunto de temas, naturalmente políticos, sociais e banais, mas sempre com uma grande dose de prazer, à mistura com alusões à minha infância, adolescência e vida adulta, o homem é o homem e suas circunstâncias, como disse José Ortega y Gasset. No ano de dois mil e seis fiz um interregno de meio ano, sem escrever para o jornal, na época escrevi que a minha mente, mais quieta do que inquieta, com uma elevada moralidade social, era incapaz de produzir algum escrito digno de perturbação, de desassossego, tudo era politicamente imaginável. Regressei no ano seguinte, em janeiro de dois mil e sete, e produzi, nesse ano, um conjunto de textos em que me despi, mostrando as inseguranças de um jovem e de um adulto provinciano e envergonhadamente moralista.

É nesta conjugação de observador social e político, desnudado, que tento escrever, quase sempre para além da data limite, generosamente fixada pela minha amiga Paula Bravo.

A constatação de uma realidade, anteriormente desconhecida, relacionada com a velhice e as esperáveis doenças, tem reproduzido em mim um maior suporte para as idas aos serviços hospitalares, em que o ânimo dos doentes e familiares são tingidos por uma constante névoa de inquietude. Num destes dias, em que fui a pé ao Centro Hospitalar Universitário do Algarve, em Faro, no regresso ao Campus da Penha, da Universidade do Algarve, caminhava sem energia, sob uma chuva miudinha que molhava todos (também os tolos). Cruzei-me com três alunas, da minha Escola, que caminhavam, entre várias colegas, embrulhadas numa única capa do traje académico, de uma outra educanda, numa tentativa inalcançada de se protegerem da chuva. Gracejei com a situação, aludindo ao excesso de corpos em relação ao invólucro. Riram e caminharam rindo na direção oposta à minha. Senti-me revigorado por uma pequena faúlha de vida, percebi naquele momento o que é a felicidade em estado puro.

É este desejo que convoco para o aniversário do jornal e, simultaneamente, para a publicação da edição número duzentos do Terra Ruiva. Parabéns a todos, leitores, anunciantes e colaboradores.

Na próxima edição, já com dezoito anos, já posso dizer palavrões.

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