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Electro

Vivo na capital da laranja e fui ver o concerto dos Amor Electro.

Saí de casa algum tempo antes, mas já ia jantado, um jantar pouco significativo e sem qualquer sabor a laranja. Percorri as ruas quase desertas da baixa comercial. Passei por um casal silvense da minha geração ou talvez um pouco mais velhos e não disse nada. Será que as pessoas têm de andar constantemente a se cumprimentarem com um bom dia ou uma boa noite, numa cidade como a de Silves em que nos conhecemos há uma eternidade? Muitas das vezes me acham arrogante e comentam que não falo a ninguém. Não é verdade. Acho interessante quando as pessoas com quem me cruze não me conhecem e consequentemente raramente me falam, a urbanidade existe apesar da pequenez da cidade. Quando encontro alguém que, por um breve instante que seja, tenha partilhado comigo, um lugar, uma ação, uma ideia, um sorriso, pode ser um motivo de festa e me expresso para além do vulgar bom dia ou boa noite.

São esses momentos que consolidam os nossos afetos. São os afetos que nos transformam em comunidade.

Assim cheguei à FISSUL (para quem não sabe são as iniciais de Feira Internacional do Sul) e estavam dois animadores vestidos de branco numas andas (pernas-de-pau) e uma mão cheia de toscos a assistir e a tirar fotografias com os telemóveis. Verdadeiramente quem tira as fotografias é o telemóvel, porque o pessoal só sabe tentar acertar com o objeto e empurrar o dedo no ecrã, para registar o evento com imagens vulgares. Entrei na Mostra propriamente dita e fiz a voltinha aos stands, não foi em passo de corrida, mas quase. Estas feiras são sempre iguais e as laranjas, acredito que muito boas, não existem em verdadeiras laranjeiras nem à venda perto de si. São grandes, lindas, geometricamente perfeitas, escolhidas para estar ali em exposição, a ilustrar o produto. É isto que eu não gramo nas feiras, o produto parece ótimo, mas depois levas o resto do ano a papar as laranjas vulgares que não foram calibradas nem lavadas, as bonitas vão para os hotéis de luxo da região, para as capitais ou para o estrangeiro. São os negócios do turismo e da exportação, como dizem à boca cheia os economistas. O pessoal vá de comer laranjas vulgares, espanholas e tudo, mesmo em Silves.

Tenho sempre um dilema, vou para a confusão do artista muito antes, para conseguir ver pelo menos as caras do pessoal no palco, ou ando pela feira até à hora do espetáculo e arrisco-me a não ver absolutamente nada, para além da cabeça dos outros espetadores. Fui antes, um calor insuportável. Alguns de nós, para verem alguma coisa que se ia passar no palco, só em cima das pernas-de-pau dos palhaços da entrada. Ali fiquei, já me doíam as cruzes e tudo quando os Amor Electro apareceram. O pessoal estava animado, mas alguns foram saindo por ordem de idades e de alturas. Foram só para ver, quer dizer, para imaginar, a primeira música. Lá consegui um lugarzinho mais à frente e assisti a um bom concerto, apesar do palco não ser suficientemente alto nem as pessoas suficientemente baixas.

A Marisa Liz, sim senhor, grande mulher, mas tal como eu, também sabe que não existem à venda laranjas como as de Silves. O pessoal estava empolgado, cantou, fechou os olhos para cantar melhor e juntaram-se para serem mais fortes. O espetáculo acabou e à saída encontrei um amigo com mais de um metro e oitenta que não vira nada, porque tinha acabado de chegar. Ora, vir à festa no fim da festa, é mesmo coisas de gente jovem.

Comprei umas estrelas de figo e saí. Na avenida imensos carros abalavam da cidade.

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2 Comentários

  1. Boa tarde professor! Gostei bastante do seu artigo. Está redigido com muita veracidade e simplicidade. Tendo , por isso, o meu dever de felicitá-lo e pedir-lhe que continue a escrever. Um beijinho.

  2. António Guerreiro

    Muito obrigado. Um beijinho. AG

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