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João de Deus e Victor Hugo

Memórias Breves (5) – João de Deus = Victor Hugo

JOÃO DE DEUS: Visão futurista do ensino. Um protector dos mais pequenos em tempos complexos.
VICTOR HUGO: Um Homem de todos os tempos. Um génio visionário. A voz de todos os desvalidos.

Nomes ligados à cultura europeia e de destinos paralelos. Ambos viveram o século XIX, por inteiro, na intensidade do tempo de grandes transformações na pedagogia, na literatura, nas artes, nas ideias, na ciência, nas transformações ideológicas. Ambos repousam por Lisboa e Paris, nos respetivos Panteões.
Mas por que trago nesta afinidade dois europeus inesquecíveis? É que ambos marcaram os Tempos! Victor Hugo, pela dimensão universal da cultura francesa. João de Deus, noutra dimensão de Homem e país da Lusitanidade!: Poeta e Prosador nessas “simplicidades humanistas”: Cartilha e Misérables (1862), que impressionou vivamente a mentalidade popular, nessas responsabilidades assumidas em tempos ainda do “romantismo”, da fartura incontrolada e de mais fome consentida. Nesses deslumbramentos de emoções e paixões. Tempos do comboio, das máquinas, da luz, das usurpações, dos sem direitos e que têm vindo em continuidades, em gerigotos seculares, de poder, de fortunas e de desprezos pelos que as produzem. Assim foi o século XIX e dos outros que deram continuidade. Por isso e pelas afinidades do João e do Hugo as minhas admirações, do homem que sou, já gasto no início do XXI.

Vamos, então, “desbravar” as vidas, em síntese, destes dois Homens da Europa, de línguas que se semearam no mundo. Pelas relações muito intensas, paralelamente para os dois autores da cultura europeia, simpatias pelas influências, literária e cívica que ambos mostraram viver e transmitir nos orgulhos nacionais. João, o pedagogo do século XIX, empenhado nessa pedagogia, nesse início ao conhecimento das letras, para o avenir. Hugo que ditou o humanitarismo poético.

Victor Hugo dos títulos ardentes, fecundes, e, porque não odiados pelo conceito errado de uma sociedade construída de ventre… Hugo admirava Portugal, na coragem dos seus naturais, avançados, como pioneiros na Europa, pela causa do 1.º de Julho de 1867, em que o rei D. Luís 1.º determinara o fim à pena de morte no nosso país, a 1/07/1867. E Victor Hugo logo congratulando-se pelo alto acto cívico, enviando uma carta de regozijo, ao Diário de Notícias, a 10 do mesmo mês.
João de Deus sempre esteve nesse lado cívico e democrático, de cidadão e apoiante das classes mais desfavorecidas, nessa índole de Homem cívico do século XIX. Admirado pelas classes mais populares e atendíveis à sua poesia, assim o poeta de Messines, o era de Portugal e do século que se seguia! O português e o francês foram Homens que encheram os números da imprensa finissecular, inspirados de prosa e de poesia, clara, entendida.

A vida é o dia de hoje / A vida é um ai que mal soa/ a vida é sombra que foge / a vida é nuvem que voa / A vida é sonho tão leve/ que se desfaz como a neve/ e como o fumo se esvai / A vida dura um omento / mais leve que o pensamento / a vida levava-a o vento/ A vida é folha que cai.”
LA VIE est une fleur dans le courant / La vie est un soufle suave / la vie est une étoile filante / S´envolant plus légère que l´oiseau / La nuée que le vent dans les airs / la vague que le vent dans les mers / L `une après l ´autre a lance / la vie-plume déchué / de l ´aile d ´un oiseau blesse / pousée / de vallée en vallée ! / La vie lemporte le vent.

João de Deus e Victor Hugo

Não foi em vão que o poeta de “Campo de Flores”, com o recurso da sua expressão poética e natural – ao contrário de uma certa poética panfletária na época – o sentimento popular, em que a aldeia, a Mãe a Mulher, a Criança, o Velho, Deus, preenchiam o universo da sua poesia, levando à sátira, à imoralidade dos poderes temporal e algum espiritual… Como Victor Hugo. E lendo o poema “Les Rayons et les ombres” (Os Clarões e as Sombras), lá está o poeta, nas suas vestes românticas, evocando os valores do povo, das operárias/os. Colhemos esses valores, esses frutos, nos seus escritos, nesses naturais de Messines (1830/1896), e de Bensaçon (1802-1885). Figuras homenageadas dos poderes (na hipocrisia), do Povo no sentimento. Pelos seus funerais de Lisboa e Paris, numa gratidão das Mulheres, pela memória dos Homens que dignificaram, nas suas letras, nas suas palavras feitas de flores e de fogo… Em Lisboa as mulheres operárias vestiram-se de luto. Em Paris, as Mulheres vestiram-se de vermelho.

P.S. Hoje, domingo, 25 de fevereiro-2018, o Diário de Notícias informava que a Casa-Museu João de Deus, em Lisboa, foi adquirida ao Patriarcado. O bisneto do Poeta/Pedagogo, António Ponces de Carvalho, afirma ao D.N.: “Fiquei um bocado magoado, o Patriarcado sabia que estávamos interessados e podia ter logo falado connosco. Pondo a casa à venda… “ É que o Patriarcado fez o jogo da concorrência. A casa do Pedagogo?… que interesse teve, para o Homem que revolucionou o fim do analfabetismo em Portugal ? Tudo se confirma na história dos tempos !

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