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O motor de busca do interior

A comunicação social entrou em ebulição com o anúncio de que a Google iria instalar um hub tecnológico em Portugal. Começou a especulação sobre que tipo de instalações se iria instalar: seria um centro tecnológico ou apenas um call-center? A única certeza é a de que o mesmo investimento seria localizado em Lisboa.

O futuro secretário geral do PSD, Rui Rio, aquando do anúncio, questionou a localização do investimento, perguntando porque o investimento não poderia ser feito no Porto, enfatizando o facto de tudo aparentemente estar centralizado na capital. Tratar-se-ia de uma questão pertinente, não estivesse a mesma impregnada da noção estabelecida na sociedade portuguesa de que descentralização significa passar algo de Lisboa para o Porto. Rapidamente a discussão avançou nas redes sociais; li algumas discussões nas mesmas sobre porque não poderia ser este investimento feito no Algarve.
A questão levantada por Rui Rio traduz também uma outra ideia pré-estabelecida na sociedade portuguesa: a de que é o Estado que define onde vão ser feitos os grandes investimentos. Realmente, o facto de ter sido o Primeiro-Ministro António Costa a fazer o anúncio faz aparentar que o mesmo surge no âmbito de uma política pública direta. Sejamos coerentes: a Google é, para todos os efeitos, uma empresa privada. Nesse contexto, qualquer decisão de investimento é avaliada e tomada pela gestão da Google e não é ditada pelo Governo de que o mesmo deverá ser no local A, B ou C. No máximo, os governos podem apresentar incentivos para esse investimento, mas não são os mesmos que tomam essa decisão. O facto de ser em Lisboa é algo que decorre da ponderação dos interesses e vantagens do local sobre o resto, e não de um decreto governativo. Trata-se de uma decisão lógica; Lisboa apresenta o capital humano, a massa crítica e o ecossistema para que tal investimento seja rentabilizado em pouco tempo.

Gostaria de fazer a questão ao contrário: porque é que Lisboa e Porto são as únicas regiões do país com capacidade aparente para absorver o investimento do Google? Como é que as outras regiões do país, não entram sequer em consideração para este tipo de investimento?

A resposta prende-se com o diferencial entre as competências territoriais de Lisboa e Porto face ao resto do país. Este diferencial advém de décadas de abandono do restante território em termos de dotação de competências de atração e retenção de investimento. O interior do país é um palco cada vez mais desprovido de capital; humano ou outro qualquer. Não há uma política pública de combate à desertificação digna desse nome; há toda uma lógica paliativa à volta do investimento no interior. Que tipo de território é o nosso, quando no momento de decisão de investimento, só duas localizações são tidas em conta?

Curiosamente, a decisão final da localização do investimento recaiu sobre o concelho de Oeiras, nas proximidades de Lisboa. Porquê? Porque Oeiras tem feito um trabalho meritório nos últimos anos na construção da sua dotação de competências de atração e retenção de investimento. Porque Oeiras construiu um ecossistema empresarial virado para a inovação e para a tecnologia, atraindo para o seu território universidades, centros de investigação e outras valências. Porque Oeiras detém o capital humano, em quantidade e qualidade, para suportar as necessidades da Google.

Sim, Oeiras é na proximidade de Lisboa. Mas Oeiras conseguiu atrair a Google porque detém todas as condições que a Google procurava e não porque o Governo disse que deveria instalar-se lá. Criemos emprego e escala, e o investimento segue.

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