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João de Deus e a laranja

Há uns anos atrás, a Vila de Messines engalanava-se para festejar João de Deus. Este messinense não foi um homem qualquer. Apesar da da forma modesta como viveu, distinguiu-se por ser o autor da Cartilha Maternal, concebida para que o ato de aprender a ler fosse intuitivo e tão simples que qualquer pessoa com conhecimentos rudimentares pudesse tornar-se num “professor”. O seu método arrancou do analfabetismo milhares de pessoas em Portugal e no mundo lusófono.
O nome de João de Deus perdura em muitos locais de Messines mas as comemorações que se organizam no aniversário do seu nascimento, a 8 de março, definham, de ano para ano, com a escassa participação da população. E apenas os alunos do Jardim-Escola João de Deus mantém a tradicional romagem à estátua do poeta/pedagogo.
Posta a situação levanta-se a dúvida: faz sentido continuar a organizar estas comemorações? Feitas por quem para quem?

Há uns anos atrás, muitos agricultores que tinham arrancado os seus pomares de sequeiro, trocando as amêndoas e figos por citrinos, clamavam pela desgraça em que se tinham metido, com um quilo de laranjas a valer uns escassos cêntimos, a eletricidade e a mão de obra com preços incomportáveis. Mais vale deixar tudo isto secar, muitos o diziam e muitos o fizeram.
A Feira/Festa da Laranja que Silves organizava fraquejou, deixou de fazer sentido, procurou sem sucesso outras soluções e desapareceu. A “capital da laranja”, como se autointitulava, ficou como que suspensa… à procura de uma nova identidade…

Há dias estive numa reunião para a preparação das comemorações do aniversário de João de Deus. Foi dito, mais uma vez, que as escolas do ensino público de Messines não querem saber de João de Deus, dificilmente se consegue que adiram a alguma iniciativa com este tema, a população em geral ignora as atividades. Daqui a poucos anos, restará apenas uma estátua numa avenida e uns painéis com poemas à entrada da Vila.

Há dias estive na 2ª Mostra de Silves Capital da Laranja. Grande afluência de visitantes, bons espetáculos, boa gastronomia, boa representação de artesãos e produtores, animação original e organização correta. A melhor constatação: o produto rei de Silves está vivo, animado, reforçado com sangue novo, pronto para enfrentar as dificuldades e conquistar cada vez mais mercado. E a concretização da Rota da Laranja, que foi agora apresentada, tem de facto a capacidade de alterar profundamente as dinâmicas turísticas, ao atrair os visitantes para o interior do concelho, para zonas nunca antes vistas com tal potencial.

Deixem-me colocar a questão que poderá parecer absurda: poderá o produto rei de Messines recuperar a vivacidade de outras décadas?

Vivemos numa altura de excelente atividade turística, em que muitos novos caminhos surgem em sinal de recuperação, progresso e esperança. Uma realidade a que o concelho não está indiferente. Mas, por isso mesmo, é necessário reeducar tanto para a valorização dos nossos produtos como para a preservação da nossa memória.

Crie-se a Mostra João de Deus! Ou a Mostra Poetas de Silves! A Mostra do Passado Histórico! A Mostra dos Antifascistas de Silves! A Mostra das Menires e Estelas do Concelho! A Mostra de Maria Keil! A Mostra de …

Há uma História Interminável, da Serra ao Mar…

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Um Comentário

  1. POR QUE NAO CRIAR VARIAS ROTAS?
    ROTA DA LARANJA
    ROTA DA POESIA
    ROTA DOS MONUMENTOS

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