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Só Palavras

Vivo, em Silves, num prédio com dez condóminos, três dos quais familiares. Trata-se de uma pequena comunidade, incluindo alguns ingleses residentes no nosso país. Esta descrição contextualiza a primeira pequena história que vou vos contar sobre o sentido e o valor cultural das palavras. Num destes dias, chegava ao prédio, após a viagem de regresso de Faro, e, abeirando-me da porta do edifício, percebi que um homem, que eu não conhecia, olhava para mim em silêncio como quem pretende entrar no prédio. Perguntei-lhe se procurava alguém, o sujeito mencionou-me um nome que não entendi, mas que me pareceu próximo do nome de um dos condóminos. Perguntei-lhe se buscava por fulano (dizendo o nome de um vizinho) e, aí, o homem repetiu-me o nome anterior, distinto daquele a que eu fizera referência. Disse que não conhecia, mas indiquei-lhe a porta aberta para entrar no prédio.

O sujeito disse que buscava o sobrinho, escurinho como ele. Fiquei matutando no peso cultural daquela frase, da palavra escurinho, e da vivacidade humilde do homem que me abordou em silêncio à porta do prédio.

Disse-lhe que não era neste prédio, talvez num dos restantes da mesma rua, e fiquei preso ao possível sentido racista destas minhas palavras, alimentadas ainda pela palavra escurinho, ao negar a existência do seu sobrinho no edifício em que habito.

Nesse mesmo dia, realizou-se o jantar da última sexta de cada mês, com uns amigos locais, evento que perfaz doze anos em março. Durante a comezaina, um dos participantes explicou como limpou, durante dois meses, uma das casas antigas de Silves, da imundice em que ficara, após ter sido habitada por quinze romenos. Estava incomodado com a associação da degradação da habitação a uma comunidade migrante, mas não senti força para manifestar desconforto, para aludir às difíceis condições de vida das minorias culturais. No final do jantar, falei de um livro que comprara no supermercado. Fui gozado pelo pormenor em relação ao inusual local da compra de um livro, pelo menos por mim. Só queria referir que apenas o encontrara no escaparate de uma grande superfície comercial, nada mais, mas o sentido dado às minhas palavras, acabou por sobreviver ao valor inicial da frase, assumindo uma falha na intelectualidade da aquisição de um livro.

Na segunda seguinte, fui almoçar a Lisboa, de autocarro. Do terminal de expresso até ao meu destino fui de metro, desci no Saldanha e, com o intuito de tomar um chá, parei na esplanada do café Versalhes. Enquanto tomava o chá de tília em chávena aquecida, sem açúcar, e comia uma torrada em pão de forma, dividida em seis fatias, umas pessoas, sentadas numa mesa localizada pelas minhas costas, contavam como uma jovem familiar ou conhecida, que frequentava a Universidade Católica Portuguesa, estava preocupada com um exame, mas tirara dezasseis. Tudo era sucesso e banalidades académicas, as palavras suaram-me a uma exuberância típica de gente feliz dissimulando mágoas.

No dia de terça-feira, recebi, em Faro, para trabalhar comigo durante duas semanas, um jovem professor de Sevilha de educação matemática. Após o almoço, visitei com ele uma escola dos primeiros anos, após ter contactado as professoras que disponibilizaram dez minutos de interação do professor com os alunos.

Uma das meninas (estarei a ser sexista) do 1.º ano de escolaridade (primeira classe para alguns dos meus leitores) perguntou-lhe: Como se fala espanhol?

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