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Os caminhos da desertificação

Numa sessão da Assembleia Municipal a que assisti, em dezembro de 2017, apresentou-se um cidadão com uma vulgaríssima pretensão. Queria que fosse arranjado o caminho que conduz a sua casa, perto da Barragem do Arade. Pelo que dizia, um pedido/reclamação feito em ocasiões anteriores e nunca satisfeito. Pois se era certo que alguns melhoramentos eram periodicamente efetuados no referido caminho, certo era também que com as chuvas de inverno todo o esforço, material e despesa escorriam literalmente pela encosta abaixo. Uma situação que levava o cidadão a pedir a única solução que poderia resolver o problema: o alcatroamento da estrada (EM 124-3), num troço de 3km.

Como tive oportunidade de ver, numa ocasião em que por lá passei, trata-se de um caminho de terra batida, que serve meia dúzia de habitações dispersas e alguns proprietários de terrenos locais. Foi portanto sem surpresa que ouvi a presidente da Câmara Municipal, Rosa Palma, explanar sobre as dificuldades em atender tal solicitação, quando por todo o concelho há dezenas de caminhos e estradas a necessitar de arranjo e alcatroamento, que servem núcleos populacionais com algum significado.

Num sistema que inevitavelmente tem de ajustar as suas possibilidades financeiras ao serviço das maiorias e das necessidades urgentes nascem as injustiças para com as minorias e as necessidades não prioritárias. Assim, um cidadão que viva num local isolado, fora dos núcleos urbanos ou das aldeias, embora pague os seus impostos como os restantes, ficará quase automaticamente condenado a usufruir de menos regalias/direitos que os seus conterrâneos. É uma situação tão comum que por vezes já nem reparamos, mas ela cerca-nos por todos os lados… fora dos centros populacionais não há quase nada, principalmente se nos estendermos pelas enormes freguesias de Silves, S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra…

O caso deste cidadão fez-me lembrar um outro que o meu pai contava, da sua experiência enquanto vereador da Câmara de Silves… Algures pelos anos 80 do século passado, quando a falta de eletricidade era ainda um sério problema no concelho, surgiu a oportunidade de eletrificar uma zona que se dividia em dois montes distintos. Não sendo possível levar a luz elétrica aos dois locais, entendeu a autarquia que o mais correto seria estender os cabos ao monte onde moravam mais pessoas. Uma decisão que levou os moradores do outro monte à revolta. Um deles, amigo do meu pai, esteve até vários anos sem lhe falar…

O acesso às infraestruturas básicas por parte dos cidadãos que habitam fora dos núcleos populacionais principais ou em áreas isoladas, é um desafio para autarquias e demais entidades. Por um lado, sabe-se que o dinheiro é escasso e tem de ser aplicado na resolução de problemas que afetem o maior número de pessoas ou que sejam de maior gravidade. Por outro lado, insiste-se na necessidade premente de dar condições ao interior para combater a desertificação e evitar a fuga completa da população para o litoral do país.
Mas sem estradas alcatroadas, sem redes de água e de saneamento, sem rede móvel, sem sinal de televisão, sem internet, como podem os habitantes permanecer? Há quem diga que esse é o preço para uma vida “de qualidade” no campo… Quem assim fala, certamente só conhece a “qualidade” dessa vida através das revistas que falam nos movimentos dos “novos rurais”, ou de esporádicas visitas ao campo… O idealismo desta vida no campo choca com a realidade que muitas pessoas enfrentam.

O mais certo é que o cidadão que se manifestou na Assembleia Municipal nunca venha a dispor de uma estrada alcatroada, malgrado a apregoada política de desenvolvimento do interior. No contexto geral do país e do concelho haverá sempre outras prioridades, o que é inteiramente justo. E ao mesmo tempo completamente injusto.

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2 Comentários

  1. Uma notícia incompleta pode ser deturpada.

    Esclareça-se que o cidadão que apresentou a petição Publica em Assembleia Municipal, que neste momento conta com 110 assinaturas , não faz uma petição de caminho que conduza à sua casa, mas sim de um caminho que dista dela 600 metros, e os moradores também não são meia dúzia, pois trata-se de um caminho que serve 19 habitações,
    Certamente haverá casos com mais ou igual prioridade, mas será que não existem gastos menos prioritários.
    A despesa no alcatroamento deste troço não será também ela considerada um investimento?

    Para melhor informação aqui deixamos o link onde consta o texto da petição.

    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT87725

    • Só para chamar a atenção que o texto em causa não é uma notícia, é um texto de opinião, naturalmente escrito com outros parâmetros de linguagem.

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