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Memórias Breves (3)

A VOZ DE UM BISPO – Na noite de 9 de Dezembro / 2017, na antiga dependência dos Jesuítas e da Inquisição, em Faro, que se transformou em Teatro, em 1845. O Teatro Lethes, casa de muitas memórias, pelas mudanças de pensamentos, que os tempos e os homens assim se transformam, em melhores sentidos…Prefaciando Camões, que “muda o tempo, mudam as vontades”, que o mundo está sempre em mudança e vontades …Então, regressemos a essa noite recente, em que o Bispo do Algarve, Manuel Neto Quintas, apresentou-se, a convite da direcção, integrado em “Conversas com Vida Dentro”.

Pouco público se apresentou, numa antiga tradição farense em se apresentar a certos níveis culturais ou religiosos, no caso. Um Bispo, de nome Manuel, o bispo de Faro, eclesiástico, nessa tranquilidade em ouvir, respondeu: “ Compete-me estar aberto a todas as possibilidades e a todas as orientações da Igreja, que venham no sentido em acolher a mudança, se a Igreja optar pela ordenação de homens casados, que venham nesse sentido, optar pela ordenação”.
Bispo do Algarve, D. Manuel, o segundo Manuel deste novo século XXI, passou à leitura da História e dos homens da Igreja: “ Houve um período, na Igreja, em que os padres casavam. Custa-me a afirmar que se os padres pudessem casar, TÍNHAMOS MUITO MAIS DO QUE TEMOS.” Escutando o Bispo, nessa vontade em continuar bispo do Algarve, em diálogo com o chefe do gabinete da Câmara Municipal de Faro, Henrique Gomes, D. Manuel afirmou gostar de ser bispo do Algarve e que estará na Diocese, até que o Papa queira.

SEM BALTAZAR, BELCHIOR E GASPAR – O médico-poeta Emiliano da Costa, viveu o seu século XX, até Janeiro de 1968, em Estoi-Faro. Foi um homem de toda a admiração, um médico rural e de grande participação na saúde dos “montanheiros”. Nunca deixou a sua aldeia à beira-cidade. O Café Aliança sempre foi o espaço de encontros: Jorge de Sena, Jograis de São Paulo, Erico Veríssimo, Leão Penedo, José Afonso, Carlos Porfírio, Cândido Guerreiro, Vergílio Ferreira. O poeta António Ramos Rosa teve-o, no seu tempo de juventude, numa admiração, elevando-o a maior poeta algarvio, do século XX. Eu, pessoalmente , tenho a oferta dos seus livros, que me têm acompanhado nos meus percursos: “Helianthos”-1926, “Phlogistos”- 1930, “Rosairinha”- 1940.

Poeta Emiliano da Costa, num retrato de Tóssan

Mas foi em 1960, numa entrevista ao poeta-médico, que cito no seu livro: “Cromo-Sinfonias” ( impresso em 1948), a chegada dos primeiros escravos, a Lagos.

E o poema que transcrevo desse livro, com sua autorização: “ Aqui as naves lançam ferro, as seis /Ouve-se o porta-voz em altos brados / lastro ao mar. Batem lemos os bateis /Batidos pelo vento, os desgraçados / Soluçam … Vão à vela varinéis / lastro ao mar ! Lastro ao mar! A bruma cerra / E em cada onda vem um escravo à terra / Os escravos… A dentro num recinto / Fechado em arcaria, lá estão eles /Negros, a sussurrar num labirinto… / E vão comprá-los, estes, mais aqueles / E até o Infante a receber o quinto!”.

A entrevista foi proibida pela censura. Lembro do poeta sofrer um desgosto. Mas o que se passou para a censura permitir a publicação do livro, em 1948, e censurar a entrevista? Penso que o director da PIDE, em Faro, Gonçalo Dias, não abrangia, culturalmente a poética emiliana. Já, em 1960, o censor de “O Algarve”, o capitão Rafael, já incomodado no reconhecimento ao Poeta, proíbe a publicação no semanário que fora republicano. De pouco lhe valeu. Em 1965, o jornalista António Barão, na altura fundador e director do Jornal do Algarve, recebe a entrevista, por mim enviada da Genebra, saindo, em Janeiro de 65, no semanário algarvio, dirigido por esse notável redactor do “Século”, diário lisboeta.

Neste Natal / 2017 lembro um dos seus importantes sonetos, um médico que retrata o seu tempo, no nascer de um ser indefeso , publicado no seu livro de 1930, “Phlogistos”, da palavra grega : infecção.

“Nasce o menino logo a padecer / Arroxeadinho, frio como a lage / Se o pênfigo se mostra-a vil tatuagem /Ninguém o enxerga, ninguém quer saber… / Chora o menino. Os fritos, o prazer / Não vêm por ele, não… quando ele vage / Metido em lóquios pútridos, trapage / Nem burro, nem pastores para o ver … /Só o canta a miséria- ventania / Que no chão roja folhas e papeis / E a terra despovoa e maltusia… / Só a mártir, dispneica, embala o filho / E em volta, debruçados, os três reis : / o tifo, o catarral , e o garrotilho.

Emiliano da Costa poetisa o seu tempo de médico, num tempo entre duas guerras mundiais. Em que Portugal perdia-se numa feroz ditadura. O meu tempo de 1960, não permitiu que as palavras do poeta-médico, viessem ao público. Mas o tempo tudo modifica, malgré, essa vontade dos contrários. Emiliano deixou um lugar na História poética e narrativa de um Algarve pobre e sofredor para o nascer até morrer. Foi um cidadão corajoso. Um narrador dos tempos do meio século XX.

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