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Os festejos em Silves e Alcantarilha, em 1896, pela captura de Gungunhana

Os primeiros dias de janeiro de 1896 foram vividos em Portugal com enorme entusiasmo e regozijo. Os portugueses vinham nos últimos anos, quase sempre com resistências locais, a tornar efectiva e integral a sua soberania em África, recorrendo a campanhas militares de ocupação colonial. Terminava assim a relação vaga, que até então existia, com os poderes indígenas locais. As expedições tinham como objetivo subjugar os povos sublevados, sendo preparadas e equipadas em Lisboa, quando estavam em causa áreas cuja insubmissão poderia colocar em perigo o domínio português na colónia ou em grande parte dela.

Neste campo inscrevem-se as campanhas levadas a efeito contra o reino de Gaza, no sul de Moçambique, que culminaram com a captura, por uma coluna militar comandada pelo capitão Mouzinho de Albuquerque, do rei Gungunhana, o “Leão de Gaza”, soberano do Império Vátua. A captura do régulo Vátua, em Chaimite, a 28/12/1895, foi o culminar de uma série de operações militares.
Conhecida a proeza na metrópole, nos primeiros dias de janeiro, os portugueses saíram à rua, primeiro para festejar o êxito da expedição e depois para vitoriar os soldados de tão notável façanha, aquando o seu regresso às suas terras de origem. Festejos que a imprensa nacional fez eco, um pouco por todo o lado, de que Silves ou Alcantarilha, por exemplo, não foram exceção.

Gungunhana foi o último imperador do Império de Gaza, no território que atualmente é Moçambique, e o último monarca da dinastia Jamine

O expedicionário silvense
Nesta sequência, na noite de 10 de janeiro, a convite da edilidade, houve em Silves uma “imponente manifestação em honra dos expedicionários d’Africa”. A ela se associaram os silvenses, não só iluminando a maioria dos edifícios da cidade, acorrendo à casa das famílias dos expedicionários, como participando na marcha “aux flambeaux”, que abrilhantada pela Filarmónica Artística Silvense percorreu as principais artérias. Para o correspondente do periódico republicano “A Vanguarda” na marcha associaram-se milhares de pessoas, de todas as classes e partidos, as quais levantaram “calorosos vivas á pátria, exercito, armada, heroes d’Africa, Mousinho d’ Albuquerque e aos expedicionários de Silves”.
A 31 de janeiro chegava à cidade o expedicionário silvense António de Santiago, segundo sargento de infantaria 2 e novamente, agora de acordo com o jornal “O Século”, o burgo rejubilou. Nessa noite a Filarmónica Artística Silvense, juntamente com “grande concurso de povo”, foi cumprimentá-lo à sua residência, “levantando-se muitos vivas aos expedicionários, ao exército, à armada e à pátria”. De seguida foi o mesmo transportado ao colo, na frente do cortejo, para a Sociedade Artística Salvador Gomes Vilarinho, onde lhe foi oferecido um copo de água. Findo o repasto, preenchido de vários brindes, aos quais o homenageado agradeceu muito comovido, foi o mesmo conduzido a casa, acompanhado pela filarmónica e muitos silvenses. Silves honrava assim com exultação a participação de um dos seus filhos nas campanhas de África.

O expedicionário de Alcantarilha
Dois dias depois era a vez de Alcantarilha receber festivamente um expedicionário natural da aldeia, cujo nome a imprensa não divulgou. De manhã cedo houve alvorada com música e foguetes, depois missa cantada às 11 horas, seguido de um bodo a 50 pobres, às 3 horas da tarde, num espaço ornamentado, enquanto nas imediações tocava uma banda filarmónica num coreto.
Os festejos foram presididos pelo administrador do concelho, aos quais assistiram os priores de Alcantarilha e Pêra. Findo o bodo foi celebrado um solene “Te-deum”, tendo o discurso do prior comovido a assistência. À noite, uma “marche aux flambeaux” percorreu as ruas da terra, com a filarmónica na dianteira, a qual, segundo “O Século”, tocava o “hymno da carta e portugueza, que o povo acompanhava cantando e dando calorosos vivas a Galhardo, a Mousinho, ao exército e marinha”. Junto à residência do Sr. Luís Ramalho discursaram José Neto e António Neves. Terminados os discursos os músicos e o expedicionário foram convidados a entrar na residência do Sr. Ramalho, onde as famílias abastadas da aldeia fizeram ao militar uma grande ovação.

O júbilo da Câmara de Silves
Um mês depois, mais concretamente a 13 de março, no próprio dia em que chegou a Lisboa uma parte da expedição e o “terrível chefe dos Vátuas o famoso GunGunhana”, deliberou a Câmara de Silves não só consignar em ata o júbilo da edilidade “por tão glorioso feito”, que havia constituído a sua captura, como atribuir a três arruamentos da cidade o nome dos militares que mais se haviam destacado na campanha militar.
Assim, foi dado o nome de Mouzinho de Albuquerque, à então Rua das Vendas; o do Coronel Galhardo à Rua da Feira; e o de António Enes, ao Largo dos Cães. Topónimos que as artérias de Silves ainda hoje ostentam, à exceção do Coronel Galhardo, posteriormente redenominada de Samora Barros.

Gungunhana e suas esposas em Lisboa, em 1896

A captura do rei Gungunhana, em Moçambique, ficaria para a história como a mais famosa campanha militar portuguesa na época, em África. A prisão de um monarca indígena era algo insólito, daí que a notícia do acontecimento tenha galvanizado sobremaneira os portugueses da metrópole, cujo ultraje do Ultimato britânico não estava ainda esquecido. Entusiasmo e festejos a que os povos do concelho de Silves se associaram, honrando e solenizando também os seus conterrâneos, que nas longínquas terras de África combatiam assegurando os domínios, que se pretendiam, de Portugal.

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