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Memórias Breves (2)

AS ROSAS DE NOEL – Conheci Noel Viront na circunstância de ele Mestre e eu aluno, a meio dos anos sessenta. Frequentávamos, no tempo, uma tertúlia num café chamado do “Peuple”, nas memórias de Paris. Mestre Viront dedicava uma amizade especial aos seus alunos. Ele e a mulher, uma polaca que conhecera em “Leipzig”, em 1940, então ambos prisioneiros dos alemães. Assim Noel e Maria e nós, alunos trabalhadores de toda a Europa pobre e Norte Africana, havíamos constituído uma “família” e uma vivência em que as ideias eram baseadas no humanismo, na filosofia, na poesia, no teatro, na política. Tendo a liberdade como eixo desses encontros extra- escolares.
O professor Viront e Maria, sempre presentes, para quem a minha admiração e amizade ficaram num elo de continuidade, nesse respeito e admiração pelo Homem e Mulher, ele “pai” de todos, pelos filhos que lhes faltaram. Respeitador das crenças, sendo ele agnóstico, convivendo com mulher católica, partilhando nas aulas, no convívio, nas tertúlias com gente da Argélia, da Tunísia, franceses, portugueses, italianos, etc.
Mestre Viron, sempre mostrou a universalidade do homem perante a multiplicidade das culturas, da política, da religião. Recordo, um dia, o Mestre trouxe-nos um livro de “Montherlant”, distribuindo a leitura da peça teatral de “ La Reine Morte”, a história trágica dos amores de Pedro e de Inês, por cada um de nós, em leituras de cada nacionalidade. Recordou, tal como, numa noite de Natal, de 1942, num campo de concentração nazi, os vários prisioneiros, o fizeram nas suas línguas natais. Viront e Maria reviveram os seus tempos de concentração nazi, que só o teatro, a poesia, a irreverência os levava a suportar a vida para a liberdade. E a “Rainha Morta” foi a cúmplice dessa união. Maria deixou-nos essa memória de “Leipzig”. Como a “Noite das Rosas de Natal”, em que os prisioneiros colheram flores, nos campos da prisão, sob neve, ofertando-se nessa união de família de prisioneiros. Nada mais tinham que essas “Roses de Noel”. Que me perdoem os Leitores esta memória, já longínqua.

EM MEMÓRIA DO POETA ALEIXO = 16 de Novembro 1949, morria o poeta António Aleixo, o poeta dos cantores. No meu tempo de menino, recordo o poeta, em Messines, na taberna do Galinha, perto do velho cemitério e de casa da minha avó paterna. Fixei aquele homem grande, de chapéu à banda, a dedilhar a sua guitarra. Foi num dia 20 de Setembro, pela Feira da Senhora da Saúde. Faz, neste dia 16 de Novembro, 68 anos da sua morte. Nesta memória, registada no garoto curioso, que meu pai levou, como prenda de anos. Depois, fui ouvindo e gostando, pelo entendimento que as suas quadras me transmitiam. Levando-o para as minhas lições. Pelo meu teatro: “Quem passou pelo Aliança”: Levei Aleixo, nos anos 80, a Siracusa (Itália), pelos seus autos do “Curandeiro” e do “Ti Jaquim”.
Já neste século XXI, vou ao Café Calcinha de Loulé, a convite da Câmara Municipal, a uma conversa sobre o poeta das recordações contidas pelos “burguesinhos” que não gostavam em se juntar ao Poeta, na vila de um Ministro de Salazar, Duarte Pacheco. O poeta era contestatário: “Foges de mim, sei porquê / quer`s ser grande, não estranho: /receias que quem nos vê / te julgue do meu tamanho.”
Ainda, neste novo século, recebo um convite a publicar: “António Aleixo a cantar o Improviso no País Adiado “. Em que se escreve: ” Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António, em 1899. Muito menino vem para Loulé, terra paterna, no ofício de tecelão, seu pai vem em busca de trabalho que escasseava na vila de Pombal. Aleixo cresce nas dificuldades de todos os meninos da condição económica dos filhos dos trabalhadores. Ligeiramente frequenta a escola, que logo entra na vida do trabalho juvenil. Faz-se rapaz. Faz a tropa, depois casa. Nascem os filhos. Num percurso de melhor vida, entra na Polícia Cívica de Faro. Os filhos crescem com as faltas. Decide emigrar para França, como os demais, num país destroçado pela 1.ª grande guerra mundial. Trabalha na construção civil, num país destroçado pelos bombardeamentos. E se o pão é mais magnânimo, é o alimento da poesia que lhe falta. Decide regressar ao Algarve, no fim da década de 30. Pouco tempo depois adoece. O tormento da vida. Percorre as feiras, recita a sua poesia e vende cautelas. Publica, apoiado por amigos, no Círculo Cultural do Algarve- Faro, o seu livro de poesia: “Quando Começo a Cantar”.

O poeta vive nas maiores dificuldades: sem saúde e sem trabalho. Vagueia pelo Café Aliança, onde os comerciantes e os produtores da riqueza algarvia, se reúnem duas vezes por semana, com os negociantes: a cortiça, a alfarroba, a amêndoa, o atum, tudo é controlado, como numa bolsa de valores, assim fosse! Aleixo anima a festa do dinheiro; dedica quadras por um copo de leite, ou por alguns dez escudos, numa galhofa dos negociantes, numa gratificação de gargalhadas financeiras. O meu amigo John Russel traduziu a quadra para o inglês, publicada no meu livro em 3 línguas: português, inglês e alemã: Café Aliança – 1995 = “ Quem nada tem nada come / e ao pé de quem tem comer / se alguém disser que tem fome /comete um crime sem querer”.

Aleixo viveu 50 anos inteiramente poeta e Homem infeliz. Nenhuma figura da intelectualidade algarvia se fotografou ao seu lado. A sua vida, viveu-a na amargura das injustiças, onde a figura culta, era uma galhofa… “ Dizem que pareço um ladrão / mas há muitos que eu conheço / não parecendo o que são / são aquilo que eu pareço”. Viveu em ironia, o que o sustentava viver… Morreu na miséria, sem cura. Ditou teatro, ao seu amigo Tossan, que o passa à escrita. A voz do povo: filosofia, sarcasmo, e morreu como homem lúcido. Os cantores refugiados pela Europa, cantaram a sua poesia. Por Paris, por Londres. Morreu no costume, como Camões, como Bocage… talvez com Pessoa. E, como eles, deixou o futuro!

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