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Pensar a internacionalização dos municípios

Vivemos cada vez mais numa sociedade e economia global, extremamente dependentes de tudo o que se passa em todos os lugares. Uma guerra civil num estado africano pode prejudicar um país asiático. As distâncias são hoje meras indicações geográficas, com cada vez menos importância no mapa económico e social. A tecnologia e a evolução dos transportes assim o permitiu.
Ao mesmo tempo que este processo avança, aumenta a competição entre as várias economias locais, procurando mostrarem-se no mercado global e aumentar o seu valor em relação à concorrência. Este é um jogo dual, pois enquanto existe esta híper competição de todos contra todos, as diferentes regiões e cidades apenas prosperam se trabalhem em conjunto. É aqui que entra o tema do artigo, os protocolos de geminação.

As geminações são, muitas das vezes, vistas como acordos sem especial valor em termos de potencial económico, constituindo um género de diplomacia simples nascida de um acordo de amizade e entendimento entre 2 cidades/locais diferentes. A maioria destas nasce do acaso, seja com a visita de uma delegação de estrangeiros, seja por iniciativa privada, por exemplo, com a presença de uma importante empresa de fora numa determinada cidade há muitos anos ou uma grande comunidade de imigrantes, que incentiva a realização de uma geminação. Mesmo fatores de humor ou coincidência contam, como as cidades terem o mesmo nome. É o caso de Lagos, que é geminada com 6 cidades com o mesmo nome.

Este acaso é consequência da falta de estratégia de internacionalização dos municípios. Não existe plano porque este tema da internacionalização é muito recente no país, não apenas nos municípios, mas também a nível da administração central. Não é comum existirem departamentos nas câmaras municipais centrados na internacionalização. O que normalmente podemos encontrar, são departamentos de relações internacionais, pouco dinâmicos, que nada mais são do que catálogos das geminações e acordos internacionais que a cidade possui. Penso que isto é compreensível tendo em conta as características que os nossos autarcas têm. O autarca é a primeira porta a que os cidadãos vão bater no que se refere a política, e portanto, são as necessidades básicas destes que realmente contam. São os buracos nas estradas arranjados que garantem reeleições, e resulta. Os autarcas fazem um bom trabalho nesse campo, prova disso é que quase 80% deles são reeleitos.

Os autarcas vivem da proximidade com as suas populações e dão pouca importância se o país exporta isto ou aquilo. Numa perspetiva geral, não tenho nada contra, mas são as mudanças globais que me fazem crer que o modo de fazer política local terá de mudar um pouco: lá fora começa a contar, e muito.

Pela nossa cidade de Silves existem dois acordos, mas apenas um é considerado geminação, com Aquiraz, uma pequena cidade brasileira (de acordo com a escala do Brasil). A outra é Marraquexe, conhecida cidade marroquina, tratando-se apenas de um acordo de cooperação. Ambas há mais de 10 anos, sem grande impacto, o que me leva a crer que se tratou de acasos de entendimento e respeito mútuo. Ambos os processos poderiam ter outro tipo acompanhamento, pois são dois lugares que podem fortalecer Silves em vertentes importantes da sua economia, uma é o turismo a outra a sua herança árabe. Ainda assim, é raro vermos empresários marroquinos por Silves ou charters de turistas brasileiros em grande número.
As geminações podem ter um potencial incrível quando obedecem a determinados fatores e são pensadas e planeadas devidamente. O país ainda não pensou estratégias amplas, pois como tinha referido, o tema é recente nas agendas. Ainda assim, localmente podemos começar a construir os pilares no que toca a este tipo de políticas públicas.
As geminações podem ser um ótimo captador de investimento estrangeiro para os concelhos. Imaginem que fica acordado a organização de duas delegações, todos os anos, de empresários e decisores, a cada uma das cidades. É impensável imaginar que não sairão outputs importantes destas visitas.
A parte do planeamento também é relevante, não sendo importante apenas escolher cidades que possuem parecidas características socioeconómicas, mas escolher aquelas que podem também colmatar lacunas com as suas diferentes características. Mais que ser receptivo e reativo, é importante ser ativo e construir estes acordos com o que achamos importante para as populações, economia e ambiente das nossas cidades, e aqui englobam-se vários aspectos: investimento; acordos entre empresas; estabelecimento de parques tecnológicos e empresariais conjuntos; troca de conhecimento, professores e alunos entre escolas e universidades; atividades socioculturais, etc.

A partir do momento em que a internacionalização é levada mais a sério localmente, podemos ter agradáveis surpresas, no que toca à resolução de muitos problemas estruturais das cidades e concelhos. A grande competição internacional não é uma ameaça, é uma oportunidade.

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