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A importância da paisagem

A dicotomia cidade/campo é tão antiga como o momento em que os homens decidiram juntar-se e viver em casas por detrás de uma muralha de pedra.
Já os romanos exaltavam a vida citadina, contrastando a sofisticação das suas urbes com a simplicidade rústica dos campos. Atendendo à raiz latina da palavra, ser “urbano” é ser cosmopolita, moderno e progressista, em pleno contraste com a rudeza das gentes do campo. Viver na cidade é viver encadeado pela luz da civilização, é acompanhar a par e passo a modernidade, é estar na vanguarda do progresso.

Dito isto, li recentemente num jornal on-line da nossa cena jornalística uma opinião que defendia que não valia a pena perder grande tempo nem recursos a combater a desertificação do interior. Dizia esse colunista, que as cidades foram e continuam a ser a principal fonte de crescimento económico ao longo da história e que a desertificação não era mais do que uma consequência de uma mudança estrutural na alocação de recursos por parte da sociedade, de que resultaria numa maior eficiência económica. A desertificação afinal não é um problema a ser debatido e combatido; deve apenas ser gerido, limitando-se aos cuidados básicos da população e à defesa do património. De facto, a desertificação é um sinal inequívoco da evolução do país. Afinal de contas, termos um país concentrado nas cidades é sinal de progresso.

Nesta altura, parece apropriado fazer uma declaração de interesses: cresci e vivo numa vila do interior algarvio. Sou um dos afortunados que tem emprego no interior. Após ter visto muitos dos meus colegas de juventude partirem para outras “pastagens” mais urbanas, encaro a questão da desertificação com enorme preocupação. Como vivo no interior, e gostaria de continuar a viver, tenho especial interesse na questão.

Assim sendo, oponho-me a esta visão economicista e diria até mesmo, falaciosa da desertificação. O mantra da eficiência económica é o motivo utilizado para justificar a cessação do combate à desertificação. Ora a eficiência económica não é um fim em si, mas apenas um meio para uma sociedade mais justa, equitativa e realizada.

A eficiência económica não encerra em si quaisquer valores de equidade ou justiça: apenas releva para questões de maximização de produção. Uma sociedade pode ser extremamente produtiva, mas severamente injusta, se a riqueza gerada não for alvo de redistribuição.

Por outro lado, o combate à desertificação aumenta a resiliência da economia como um todo, ou seja, torna-a menos sensível a choques externos. Uma economia mais equilibrada, ou seja, em que a dicotomia interior/cidade seja menos acentuada, faz com que não se sintam as crises cíclicas com tanta gravidade e que a recuperação económica venha mais cedo.
A visão de que as cidades são a fonte irrevogável e imparável de progresso também é algo ilusória. A história indica-nos que os centros urbanos podem definhar e morrer. Um exemplo muito contemporâneo é a cidade americana de Detroit, cuja queda da sua principal indústria, a automóvel, provocou uma grave crise económica e demográfica. A confiança no progresso ininterrupto nas cidades é de índole arriscada.

Por fim, teremos de nos recordar de que estamos em Portugal, um país em que a concentração na capital, Lisboa, é ponto assente e inescapável de qualquer discussão que verse sobre este assunto. Lisboa é, neste contexto, “a Cidade”. Todo o resto é interior. Mesmo que existam cidades no interior do país, o tom do artigo de opinião sugere sempre para as considerar apenas como apenas uma distração em termos económicos. Trata-se de uma linha de pensamento muito perigosa; arriscamo-nos a ter um país à imagem daquele adágio de Eça de Queiroz, “Portugal é Lisboa; o resto é paisagem”.

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