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Outro olhar para o Teatro

No concelho de Silves há teatro, muito teatro e vários grupos em atividade. Mas os apoios e os incentivos que recebem são escassos. Uma lacuna que é urgente resolver.

Um projeto importante nesta área foi criado em 2014 quando o que começou por ser uma oficina de representação, em Polos de Educação ao Longo da Vida, se consolidou em quatro diferentes grupos de teatro sénior, em Silves, S. Bartolomeu de Messines, Armação de Pêra e Tunes.
Este projeto, desenvolvido por técnicos da Câmara Municipal, no âmbito do Programa + Proximus, teve um êxito brutal, junto dos atores amadores, pessoas dos 60 aos 92 anos que deram por si em cima de um palco, ultrapassados todos os constrangimentos, perante plateias entusiasmadas e salas literalmente cheias.
No entanto, concluída a janela temporal do referido programa para a Terceira Idade, os atores seniores deram por si praticamente abandonados. E aqui aconteceu o mais inesperado, pois os próprios quiseram continuar. Nos grupos sentem-se válidos, acompanhados, solidários. E continuaram: escrevem os seus textos, fazem a encenação das peças e debatem-se com toda a ordem de dificuldades logísticas para conseguirem um resultado inglório para tanto esforço: um ou dois espetáculos na sua freguesia e um espetáculo em Silves, no Teatro Mascarenhas Gregório.
É muito pouco. É muito pouco.

No concelho, além dos referidos grupos de teatro sénior, temos aquele que será decerto o grupo amador com mais longevidade no Algarve – o Grupo de Teatro Penedo Grande que este mês comemora o seu 30º aniversário, e ainda um grupo formado em S. Marcos da Serra para atuar no evento “Os Trilhos do Remexido” mas que deseja estabelecer uma atividade regular. E existe uma companhia profissional, a AL Teatro.
Olhando para esta lista poderíamos considerá-la otimista. Mas a realidade não é brilhante. Toda esta dinâmica não passa de um conjunto de vontades avulsas, esforços individuais e coletivos desgarrados, sem um fio condutor que se insira numa estratégia cultural para o concelho e suas freguesias.

Poderia – e deveria – a Câmara Municipal organizar um programa de itinerâncias anual, concertando os meios logísticos e técnicos que tem ao seu dispor, integrando o teatro nas suas atividades. E poderia, muito facilmente, contratar um técnico formado em Teatro que acompanhasse de perto a atividade dos grupos amadores, com o objetivo de os estimular e ajudar.

Enquadrados numa programação cultural concelhia, estes grupos poderiam apresentar-se pelas freguesias, pelas sociedades, cafés e outras salas, nas grandes, médias e pequenas localidades. Poderiam também integrar-se na programação do único teatro que o concelho tem, o Teatro Mascarenhas Gregório, e com uma lógica própria estarem condignamente representados e destacados no festival de teatro anual que a autarquia organiza em lugar de ficarem esquecidos ou nitidamente em segundo plano como tem acontecido…

Como todos sabemos, quando a atual liderança da Câmara Municipal tomou posse, encontrou o Teatro Mascarenhas Gregório encerrado, muitos anos após a inauguração protagonizada pela anterior presidente da autarquia, e diversos problemas técnicos por resolver. Mas agora que o Teatro tem as condições para funcionar em pleno é importante discutir, fundamentar e levar à prática uma programação definida a médio prazo, com objetivos claros e concretos, que se preocupe também com dinamização dos belos espaços que o edifício possui, além da sala de espetáculos. Uma programação, acrescento, que olhe para a realidade da atividade teatral no concelho e que a estimule e acarinhe, sem preconceitos ou julgamentos baseados em gostos pessoais.

Em dezembro, mês propício aos balanços, faça-se também uma reflexão em torno dos valores que a cultura faz sobressair nos povos, entre os quais destaco a dignificação e valorização do ser humano.
Há aquela célebre frase que diz que “a cultura não mata a fome”. Pois… mas sem ela estamos mortos ainda em vida.

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