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Memória

No recente filme Blade Runner 2049 (realizado por Denis Villeneuve), os humanoides, criados artificialmente, não se reproduzem e, naturalmente, não têm memória da sua infância, adolescência ou mesmo vida adulta, porque já nasceram adultos. Para serem mais humanos, as falsas memórias, produzidas por inventores de passados, como construtores de falsas fotografias ou imagens cinematográficas, são implantadas no seu cérebro, dando significado à sua falsa vida humana. A memória, que acabará sempre por se perder no tempo, dá sentido à existência humana.
Esta meditação sobre a memória, tal como a memória dos computadores, levou-me a refletir sobre uma conversa tida com um senhor, aparentemente octogenário, que me abordou para me questionar sobre os resultados das últimas eleições autárquicas, na manhã seguinte ao ato eleitoral. Este senhor, provavelmente infoexcluído, teve naturais dificuldades no conhecimento dos resultados eleitorais do concelho de Silves, inexistente para a comunicação social televisiva e radiofónica, sem acesso aos portais da internet, entrada para o futuro mundo dos humanoides.

A sua considerável vida humana, transformada em memórias, relembrou as vivências do meu pai, desde o tempo em que este viveu ao pé da prisão da cidade. Nessa época, eu ainda não era nascido e, naturalmente, não tenho qualquer memória de tal existência. Não tenho memória, mas tenho conhecimento, como o humanoide, capaz de entender a afirmação do octogenário, aparentemente despropositada, por saber que o meu pai sempre viveu na cidade de Silves.

A afirmação, verdadeira, não tinha por referência o atual estabelecimento prisional de Silves, mas a antiga prisão da cidade. O meu pai, enquanto solteiro, viveu na rua da cadeia, junto à Câmara Municipal de Silves. Tanto quanto julgo saber, após a cadeia da cidade ter sido deslocalizada do castelo, nos anos quarenta, ocupou as duas portas da muralha, localizada a norte do edifício da autarquia silvense. Eu não tenho a memória do octogenário nem o conhecimento provado do humanoide, assumo apenas que as memórias retratam a vida e as vagas informações que ouvi algures são, de memória, verdadeiras.

Seremos humanoides, a quem artificialmente implantaram memórias alheias ou mesmo nunca vivenciadas, ou seres humanos, cuja memória vai se transformando em fragmentos de nada.

Um dia, ouvi o historiador José Mattoso defender que o ensino da história, desde os primeiros anos, deverá sempre começar pela história do local, da terra, da cidade.

Para sermos humanos temos de preservar as verdadeiras memórias, temos de conhecer, com verdade, a nossa história, para evitar que, tal como aos humanoides, nos sejam implantadas memórias alheias ou falsas memórias.

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