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A culpa está solteiríssima

A reportagem que o nosso jornal publica (“Rotura no adutor Funcho-Alcantarilha há anos”), dá conta de uma situação que poderia ser considerada inacreditável. Poderia ser, mas não será, nesta altura em que ainda nos quedamos estupefactos perante um País que ardeu, e um roubo de armamento militar que aconteceu ou não, agora sim, depois não, novamente sim e com um bónus: os assaltantes até devolveram material que não tinham levado!… E escrevo tudo isto sem aspas, perdoem-me, mas nem sei onde as colocar, no caos das frases que se constroem quando tentamos compreender acontecimentos que não fazem sentido. Aconteceram mas não podiam ter acontecido. Não desta forma. Não por estas razões.

O mesmo acontece com a situação que relatamos na referida reportagem. Em traços largos: no interior da freguesia de Silves há uma quantidade enorme de água (milhões de litros?) a ser literalmente desperdiçada. O problema foi identificado e relatado. Mas nada foi feito.

E em que contexto é que isto se dá? O Instituto Português do Mar e da Atmosfera deu há poucos dias os números oficiais: 75% do país está em situação de seca extrema e cerca de 25% – onde está incluído o concelho de Silves – sofre de seca severa.
O mês, que agora passou, foi o outubro mais quente dos últimos 87 anos, com recordes nas temperaturas máximas e mínimas e com noites tropicais, sendo também o mês mais seco dos últimos 20 anos. Para ultrapassar esta situação seria necessário que, nalguns locais, chovesse com intensidade durante quatro meses, ou durante dois, nos outros.
Mas, por aqui, a água – este bem que é considerado o “ouro do século XXI” – é tratada com indiferença por muitas entidades e cidadãos.
Agora contamos este caso particularmente chocante mas por todo o lado, no concelho, na região, no país, temos redes obsoletas que permitem fugas de água significativas, relvados mantidos verdes com água da rede doméstica, torneiras abertas sem descanso…
Nota-se, de uma maneira geral, uma desresponsabilização relativamente à água que é consumida, não só no que respeita às quantidades, mas também quanto à sua utilização.
O que tem levado algumas autarquias a tentar “punir” o cidadão, quase sempre sem olhar para a própria casa, através de uma política de preços agressiva que deveria, supostamente, regular o consumo. No extremo oposto estão autarquias como a de Silves que resistem a aumentar o preço da água ao consumidor, por questões sociais que se compreendem, mas que colocam os municípios numa situação financeira mais desfavorável, além de darem a impressão de que não combatem a utilização indevida.
A par das tentativas de regulação através da gestão do preço da água, multiplicam-se as campanhas de sensibilização. Não há pequeno nem graúdo que não saiba que “a água é um bem essencial à vida” e que tem de ser poupada. …
Alguma destas medidas será eficaz? E até que ponto? Com base na observação quotidiana diria que pouco ou nada… Haverá um pouco mais de consciência sobre a necessidade de poupar este recurso, mas há principalmente uma necessidade imperiosa de fazer o que ainda não foi feito: alterar hábitos, repensar espaços verdes, tratar e reutilizar, imaginar cidades diferentes e regressar aos investimentos nas infraestruturas básicas renovando redes e sistemas.
Falamos ao mesmo tempo de medidas que custam muitos milhões – nas redes de água – e de medidas que necessitam apenas de planeamento, criatividade e comunhão com o meio ambiente local.

Mas não terminemos este texto neste “ambiente verde com passarinhos a cantar” … como dirão os leitores mais críticos… A meu ver é necessário também a introdução da responsabilização. Quer se trate de entidades ou de cidadãos há que responsabilizar e punir, quer socialmente, quer com outro tipo de punição, até financeira, os responsáveis pelo desperdício, pela violação do dever de zelar pelo bem público, pela não atuação perante os problemas…
A culpa não pode morrer solteira, ouve-se dizer tantas vezes mas, na realidade, ela anda por aí… à solta… e solteiríssima… num país que arde ou que se afoga, dependendo da estação do ano.

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