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Memórias: Messines e a Revolução Republicana em 1910

Memórias: Na secção Memórias recuperamos os textos de José Manuel Vargas publicados nas edições 114 e 115, setembro e outubro de 2010, onde se revive o anúncio e a implantação da República em S. Bartolomeu de Messines e homenageia os republicanos dessa época. 

MESSINES E  A REVOLUÇÃO REPUBLICANA EM 1910

A notícia do triunfo da revolução de 5 de Outubro de 1910 foi certamente recebida em S. Bartolomeu de Messines no próprio dia, através do telégrafo da estação postal, e não é difícil imaginar o enorme júbilo que terá provocado numa localidade onde havia muitos anos que a propaganda republicana e a organização do P.R.P. tinham chegado.

Em 1885, tinha sido fundada em Silves a “Associação Escolar Democrática Silvense”, cuja acção em prol dos ideais republicanos teve, naturalmente, reflexos por todo o concelho. Mas foi, sobretudo, a partir de 1891, com a fixação de residência em Messines, de António Vaz Mascarenhas Júnior (1862-1930) que se começou a estruturar a organização local do Partido Republicano (Artur Ângelo Barracosa Mendonça, António Vaz Mascarenhas, in Notáveis Messinenses, 2009, pp. 37-41).

Em 1892, com o início da laboração de uma fábrica de cortiça constituíu-se em Messines um núcleo operário em que as ideias republicanas e anarquistas de emancipação social germinavam com facilidade.

A presença da Maçonaria também se fazia sentir, pelo menos desde 1904, altura em que foi fundado o Triângulo Maçónico nº 52, presidido por António Vaz Mascarenhas Jr. e de que faziam parte António Moreno Lagarto, António Pedro Ramos, Domingos José Ribeiro, João Francisco Martins, João Sequeira Rolim, Joaquim do Nascimento Lobato Jr., José da Fonseca Sequeira, José Ramos Moreira e Manuel Gomes Santinho Jr., segundo informação de A. A. Barracosa Mendonça (conferência Messines e a Implantação da República, S. B. M., 29.08.2010).

Nas eleições de 1905, os republicanos tiveram 50 votos em Messines. E, em Junho de 1906, viram aprovada a constituição da Comissão Paroquial Republicana (autor e op. cit.).

Bandeira da Carbonária

Numa importante reunião reorganizativa dos republicanos algarvios, efectuada em Portimão em 25 de Junho de 1906, Messines fez-se representar por António Vaz Mascarenhas Jr., Manuel Serafim Monteiro, António Pedro Ramos, João Rodrigues Madeira e António Joaquim Ruivo (O Futuro, 1.07.1906). Com as eleições municipais de 1 de Novembro de 1908, Silves viria a a ter o o seu primeiro vereador republicano, o livre-pensador João José Duarte (1880-1960).

Entretanto, em Messines, constituíu-se uma Comissão Auxiliar da Associação Escolas Móveis, em cuja composição figuravam os mais destacados republicanos locais: António Vaz Mascarenhas Jr. (proprietário), Domingos José Ribeiro (farmacêutico de 1ª classe e professor de ensino livre), António Pedro Ramos (negociante e proprietário), Manuel Matias (proprietário) (O Distrito de Faro, 12 .11.1908).

Com uma tão significativa actividade dos republicanos em Messines, antes do 5 de Outubro de 1910, terá sido consensual a escolha de António Vaz Mascarenhas para presidir á Comissão Municipal Administrativa que tomou posse logo a 6 de Outubro e de que também faziam parte Abílio Brás Machado, Manuel Joaquim Sequeira Jr., José Ventura Vargas e João José Duarte. Como vogal suplente, foi designado outro messinense, António Pedro Ramos.

Para celebrar a queda da monarquia e o advento da República, faziam-se visitas de congratulação entre as povoações vizinhas: “Os povos de S. Bartolomeu de Messines foram a Alte pagar a visita de congratulação pelo advento da República que os povos desta aldeia lhe haviam feito (O Algarve, 27 Nov. 1910). No entanto, os festejos não faziam esquecer os problemas que persistiam e de que o jornal O Corticeiro dava notícia, em 19.11.1910:

“(…) Há aqui um industrial chamado Joaquim Tomé de Sousa Reis, o “Remexido”, que tem fábrica há dezoito anos e que é dos que mais se destaca na exploração exercida com a classe corticeira. Nesta fábrica toca a sineta muito antes do nascer do sol, de maneira tal que muitas vezes têm que esperar os operários que se veja bem para poderem trabalhar, e o largar o trabalho é depois do sol-posto. Os preços da sua fábrica são os mais diminutos de todas as fábricas do País. O mais alto preço que paga aos operários é de 360 réis por dia, tendo a trabalhar rapazes de 17 e 18 anos a quem paga 120 e 140 réis.”

Prossegue o articulista dizendo que o industrial enganava os operários analfabetos na contagem das rolhas e acrescentava: “O sr. Remexido ainda tem outro modo de explorar e batotear os operários. É nos géneros alimentícios. A farinha que vende aos seus operários é a 1100 réis e aos outros fregueses a 1050 réis. Em outros artigos faz outro tanto. Destas e outras proezas é useiro e vezeiro o sr. Remexido. Corticeiros de S. Bartolomeu de Messines, é tempo de acordarmos do longo letargo em que temos estado imersos, devemos erguer os olhos para a luz que ilumina o proletariado do Mundo inteiro (…).”

A situação dos operários corticeiros de Messines terá levado mesmo a uma tentativa de linchamento do industrial que era conhecido pela alcunha de Remexido por ser neto de célebre chefe de guerrilhas.

Todavia, e muito significativamente, o jornal republicano do concelho ignorava os verdadeiros motivos do radicalismo operário: “De Messines dizem-nos que no dia 13 à noite, uma grande multidão, constituída na sua maioria por operários, quis tentar contra a vida de um conceituado industrial naquela povoação, por motivos meramente particulares” (O Silvense, 19 Nov. 1910).

 

A julgar pelos relatos da imprensa da época, Messines viveu com entusiasmo, euforia até, os primeiros tempos da tão desejada República. Sucediam-se as manifestações de júblilo, noticiadas nos jornais regionais e nacionais.

No Diário de Notícias (16.10.1910), podia ler-se: “S. BARTHOLOMEU DE MESSINES, 14.  – A República implantou-se, até que enfim é a phrase que se houve constantemente e de todos os lados. A alegria é espontânea. Em todos os lábios se vê aquele riso alegre e franco d’ um povo livre (…). Dia 9: Nova manifestação de regosijo pela implantação da República e como sempre composta de immenso povo com um entusiasmo delirante. Consta-nos que no próximo domingo vem aqui um grupo de republicanos de Silves, trazendo consigo uma philarmonica, fazer uma nova manifestação e cumprimentar os republicanos d’ esta localidade, na pessoa do grande republicano, cidadão António Vaz Mascarenhas” (citado por Aurélio Nuno Cabrita, in A Proclamação da República no Algarve, Gente Singular editora, Olhão, 2010).

A mudança de regime foi desde logo assinalada na toponímia, sendo deliberado, em sessão de câmara de 23 de Novembro, atribuir os nomes de Rua da Liberdade, Largo da República, Rua Cândido dos Reis e Rua Miguel Bombarda aos principais arruamentos de S. Bartolomeu de Messines (O Silvense, 26.11.1910).

Entretanto, tinha sido decidido o alargamento da Rua da Liberdade e a construção de um largo para o mercado de Messines, pelo que se resolveu “perguntar aos proprietários dos terrenos que a câmara pretende adquirir nos subúrbios de Messines para alargamento de uma rua e construção de um largo se concordam com a avaliação feita” (O Silvense, 15.12.1910). Houve, por certo, quem não concordasse e, em Abril de 1911, a Comissão Municipal Republicana decidiu pedir ao governo a expropriação dos terrenos necessários para prosseguir essas obras ( O Silvense, 19 e 26 de Abril de 1911). Outros melhoramentos propostos nesses primeiros da República foram, entre outros, os da criação de uma escola mista na Amorosa (O Silvense, 29.03.1911), a conclusão do mercado de frutas de Messines  (O Silvense, 26.01.1911) e a criação de um posto da GNR.

Ainda em 1910, começaram a movimentar-se forças para a criação de um concelho com sede na freguesia: “Corre há tempos com insistência e parece que com todos os visos de verdade que a importante freguesia de S. Bartolomeu de Messines quer constituir concelho à parte que ficará composto com aquela freguesia e com a de S. Marcos, separadas do nosso concelho, e com a de Alte, desanexada do concelho de Loulé” (O Silvense, 15 Dez. 1910).

Este projecto de um novo município, com sede em Messines, seria retomado em 1914 por João de Deus Ramos e apresentado na Câmara dos Deputados, na sessão de 29 de Maio: “A freguesia de S. Bartolomeu de Messines pretende ser elevada à categoria de concelho. Representou nesse sentido ao Parlamento, afirmando que possui uma população superior a 10 000 habitantes, com 3 108 contribuintes que pagam para os cofres do município de Silves mais de 5 600 escudos. Povoação industrial, favorecida pela linha férrea e por uma excelente situação geográfica, S. Bartolomeu de Messines é um centro de comércio muito importante e muito útil aos vários povos circunvizinhos que se encontram demasiadamente distanciados das sedes dos concelhos a que pertencem” (Diário das Sessões da Câmara dos Deputados, 29.05.1914). A proposta foi rejeitada e a ideia ficou à espera de melhor oportunidade e condições de concretização.

Outro aspecto relevante da vivência social em Messines, na Primeira República, foi o movimento operário e associativo, deveras pujante para um meio relativamente pequeno.

Numa obra recentemente publicada (Maria João Raminhos Duarte, Silves e o Algarve. Uma História de Oposição à Ditadura, Edições Colibri, Lisboa, 2010) salienta-se (p. 53) esse facto: “Numa terra pequena como Messines estava instalada a sede da União Sindical Local que tinha uma biblioteca e uma escola para os operários analfabetos e seus filhos. No Sindicato da Construção Civil havia um grupo Dramático que promovia sessões de leitura comentada e palestras ou conferências. Havia um sindicato rural, uma cooperativa e um núcleo das Juventudes Sindicalistas. Criou-se uma “Aliança Libertária”, formada por grupos de simpatizantes libertários”.

Além da Associação de Classe dos Operários Corticeiros de Messines, existente pelo menos desde 1910 (O Corticeiro, 24.12.1910), tinha sido fundada em 1 de Dezembro desse ano a Associação de Classe da Construção Civil (O Sindicalista, 19.2.1911) e havia a Cooperativa de Messines, em que cada sócio pagava uma quota semanal de 50 réis, alargando-se depois a venda de acções a outros que não só os “artistas” (isto é, operários) (O Silvense, 2.02.1911). Em datas que não pudemos precisar, constituiram-se a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais e o Núcleo das Juventudes Sindicalistas (tendência anarquista).

Tal como noutras localidades onde se faziam sentir as reivindicações operárias, também os sindicalistas de Messines cedo conheceram o divórcio dessa República que inicialmente tinham apoiado e festejado. E, em Maio de 1913, foram atingidos pela onda repressiva, tendo a polícia assaltado as “casas dos militantes sindicalistas em Loulé e Messines” (Carlos Fonseca, História do Movimento Operário e das Ideias Socialistas em Portugal, I, Publ. Europa-América, 1976, p.159).

Quanto aos dirigentes republicanos locais, quando se verificou a cisão do P.R.P, seguiram maioritariamente o Partido Democrático (liderado por Afonso Costa), vencendo sucessivamente todas as eleições. A primeira comissão paroquial do Partido Democrático em Messines formou-se em 1913 e era constituída por António Pedro Ramos, António Joaquim Ruivo, Joaquim Matias, Joaquim Sequeira Costa, Alfredo José Silva (Alma Algarvia, 11.09.1913). Nas primeiras eleições municipais da República, a vitória dos “democráticos” em Messines foi particularmente celebrada: “a taberna de Catarina Susana em Messines esteve aberta toda a noite, cantando o fado, etc.” (Alma Algarvia, 21.12.1913).

Já em Abril de 1918, em plena ditadura sidonista, os messinenses viriam a boicotar as eleições legislativas: “Nas eleições em Messines não houve mesa por falta de eleitores. A abstenção em Silves foi de 90%” (A Voz do Sul, 2.05.1918).

 

A terminar esta breve evocação da Primeira República em Messines, não pode deixar de ser assinalado um dos seus aspectos mais positivos, ou seja, o progresso verificado no combate ao analfabetismo, evidenciado no quadro seguinte:

 

População e Instrução em Messines,

Antes e Depois da 1ª República

1900 1911 1930
População 8458 9652 11465
Analfabetos 7819 (92,4%) 8744 (90,6%) 9021 (78,6%)
Sabem ler 267 (7,6%) 908 (9,4%) 2444 (21,4%)

 

Muito representativo do que eram então as razões para estudar e as perspectivas de vida dos messinenses é um depoimento do anarquista José Correia Pires:

“[Estudar] na perspectiva de um emprego no comércio, nos Caminhos de Ferro, ou a ida para a Marinha ou para o Exército: únicos rumos que uma pessoa com a instrução primária podia ambicionar” (Edgar Rodrigues, A Oposição Libertária em Portugal, Ed. A Sementeira, Lisboa, 1982, p. 256).

 

 

 

 

 

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