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Relato da Cidade Sitiada I – julho e agosto de 1189

Páginas que relatam momentos do cerco à cidade até à sua queda, a 3 de setembro de 1189.

Diário de um Habitante

Noite de julho de 1189 – Não consigo dormir. A noite é feita de suspeitas. Durante todo o dia os “ouriços” bateram nas muralhas, lembrando-nos que eles estão ali. Já não conto os dias. Desde que eles chegaram à cidade, os nossos dias são feitos se momentos suspensos… São tantos, quase é impossível contá-los… Dezenas de naus (50?) mancham o nosso rio. Têm estandartes vistosos, coloridos, que não iludem a negrura das suas almas. Só procuram a riqueza de que ouviram falar. Falam da Guerra Santa e atiçam o rei português com o brilho do ouro que hão de roubar. Já os observei durante o dia. São rudes, barbudos, falam línguas diversas, cospem no chão e quase que lhes posso sentir o cheiro imundo. O que será de nós?

Outra noite do mesmo mês – Para iludir os pesadelos penso na nossa cidade, tal como ela é descrita por todo o lado, a bela “Xelb”, de elegantes edifícios e mercados bem fornecidos, rodeada de fortes muralhas, os arredores cobertos de hortas e pomares. É banhada por um rio de águas limpas que nos dá de beber e move os nossos moinhos. O grande oceano fica apenas a três milhas a ocidente. O rio tem um porto e grandes estaleiros. Nas montanhas próximas produzem-se grandes quantidades de madeira que exportamos para longe.
Por toda a parte somos conhecidos pela nossa habilidade e eloquência. E também pela poesia que fazemos, no nosso dialeto árabe muito puro.
As nossas casas são cómodas, com pátios, jardins, casas de banho e vários compartimentos. Que diferentes das habitações destes bárbaros que nos cercam! Vê-se neles a inveja e a fome. Diz-se que a nossa cidade é muito mais forte do que Lisboa e dez vezes mais rica e com edifícios de mais valor. E será essa a nossa desgraça? Possam os nossos braços, as nossas pernas, o nosso corpo, as nossas armas e a nossa fé combater estes inimigos tão poderosos, com um olhar tão cobiçoso.

Outra noite– Ontem sofremos um grande ataque. Tentam chegar à Couraça, onde guardamos a nossa água. Sem ela estaremos perdidos. Foram feitos alguns prisioneiros. Pela primeira vez, aproximei-me. Não iludem ninguém. Estes homens que rumam a Jerusalém são, na sua maioria, pobres que se juntam aos grupos religiosos para enriquecer através do combate. Os que voltarem serão decerto cobertos de honrarias e terão uma experiência de vida valiosa. Há quanto tempo saíram estes homens de sua casa, quanto navegaram e quando acabará a sua viagem?
O rosto sujo daqueles homens persegue-me esta noite. Não sei o que lhes aconteceu. Às vezes são mortos, outras vezes fazem-se trocas de capturados. Não sei. Queria apenas pensar nesta noite. As noites estão cada vez mais difíceis. E os dias também. A nossa gente ainda mantém a moral e faz um combate muito esforçado, mas começa-se a sentir o cansaço e a falta de géneros. São quase 16 mil pessoas as que vivem nesta cidade e não é fácil acudir a todas, apesar dos nossos médicos serem considerados em toda a parte pelos seus conhecimentos.

Tarde de julho – Hoje quase não se dá pela sua presença. Sabemos que estão cansados do cerco. Ouve-se dizer que se vão retirar. A quase boa nova que se espalhou pelas muralhas não chegou a sê-lo. E quem são estes estrangeiros? Chegaram a Lisboa, na Primavera de 1189, numa armada de cruzados da Dinamarca e da Frísia. A estes juntaram-se outros, e também portugueses, e foram arrasar o Castelo de Alvor. E agora estão perante a cidade, com alemães, flamengos, franceses do norte e ingleses. Saíram de Lisboa a 14 de julho e desde então que estão aqui.
Oh, estar em África o senhor emir de Marrocos Abu Yaqub Yusuf al-Mansur! Fosse outra a situação e estes estrangeiros não se atreveriam!

Dia no princípio de agosto– Já não sei o dia, se é dia ou noite. Tremo, no fundo de mim mesmo. A Grande Mesquita está cheia e entoam-se cantos a Alá. Nas ruas não passa ninguém. Os homens estão nas muralhas e nem as mulheres-cortesãs, as únicas que podem sair à rua sem estarem cobertas e acompanhadas, se atrevem a fazer compras ou a passear. Não há espaço para o prazer? Talvez para outros. Mas não para mim, que não sei que véu me encobre o coração. Olho para o Palácio das Varandas, morada de tigres e de gazelas, como dizia Al-Mutamid… Que será desta beleza se os homens da cobiça chegam a entrar na nossa praça?

II

Dia de agosto de 1189– Que Alá tenha piedade de nós, que já nada parece conseguir parar esta consumação de vidas e de almas. Oh, que dias felizes passámos nesta cidade esplendorosa! Mas o nosso tempo agora é feito de inquietação. Tudo se complicou. Desde o dia 14 de julho que os bárbaros cercam as nossas muralhas. Não sofremos ainda a grande fome, pois nesta cidade, de seis ou sete hectares, há jardins, hortas, terrenos que cultivamos e ainda temos animais para abater. O nosso problema é a água, agora que a ligação ao grande rio foi cortada. Ah, com que esperança vigiamos essas águas, esperando que nelas surja um exército que nos ajude, sabendo embora que está distante a nossa salvação. Ao fim da tarde, depois do tarid (açorda), os notáveis juntam-se perto da grande mesquita para se purificarem, fazerem as suas orações e discutirem a situação militar. Por toda a cidade são agora conhecidos relatos de como o espírito do cristão é traidor, de como é vã a sua palavra, de como são capazes de trair os seus juramentos, de como por todo o Oriente têm pilhado e assassinado. As nossas conversas tornam-se murmúrios de horror e no silêncio que se faz ouve-se o clamor das nossas orações, dos seus brados e das armas que se chocam.

Noite de agosto – Perdidos! Perdidos! A Couraça caiu! A torre onde guardávamos a nossa água! Foi traição? Consumou-se o que tanto temíamos e que nos fazia ter espiões por todo o lado, com receio que alguém pudesse facilitar a entrada nas muralhas aos bárbaros louros? Ou fraquejou a força dos nossos braços, esgotados enfim com os longos dias de cerco, de fogo, de gritos e mortes? Alucino.

Manhã seguinte – Forço-me a parar. Tento pensar. Revejo uma e outra vez a barafunda nas fileiras quando os cristãos avançaram. Revejo o avançar das altas torres móveis que usam e que os nossos tentam queimar, lançando uma mistura de petróleo e enxofre que se despeja em cântaros e se lança ateado contra os atacantes, provocando incêndios difíceis de extinguir. Revejo a luta extenuante. A tenacidade dos resistentes e a teimosia dos assaltantes, que saem como vagas das trincheiras, investindo constantemente, como se os animasse um poder mágico. Clamam que o seu objetivo último é Jerusalém, onde querem tomar posse do túmulo de Jesus. Mas nos seus olhos só vejo a cobiça, lá em baixo só sonham com as nossas riquezas… e agora… estamos perdidos… sinto.

Tarde desse dia– O calor sufoca-nos e o pensamento da ausência de água amplifica esse sentido, esmaga-nos. Escrevo constantemente, como se tratasse de um legado, de um testamento – palavra maldita. Gastam-se longas horas a discutir nas soleiras das portas, com todas as luzes apagadas, mas o dia só nos traz o desalento. Olho para a cidade como se me despedisse. Todos os viajantes ficaram deslumbrados com o espetáculo desta urbe de jardins e de poetas.
Invade-me uma mistura de terror e de desprezo pelos homens que nos cercam. Tenho a noção da nossa superioridade cultural, social, até, mas as suas pesadas armaduras que tão bem os defendem das nossas flechas, brilham ofuscando o sol e baralhando os nossos corações. Muitos tentaram partir. Um bom muçulmano não deve ter vergonha por fugir da sua casa, pior será ter de viver sob ocupação. Mas nem um contínuo vaivém de espiões e batedores permitiu encontrar um caminho.

Quase setembro– O medo apossou-se da cidade. Teimam ainda os nossos, tentando adiar o inevitável. Ouvi relatos. De soldados que chegam a beber o sangue de animais. As nossas hortas secaram e há agora escassez de alimentos. No mercado uma tâmara custa uma fortuna. Por toda a parte há velhos sem turbante, cabeça rapada em sinal de luto. O que será de nós? As lágrimas são agora a nossa arma, mas o nosso coração ainda ateia o fogo da guerra.

(continua)

 

Nota: Os acontecimentos relatados neste diário são baseados nas obras: “A cidade de Silves num itinerário naval do século XII por um cruzado anónimo”: Fac-simile da edição de João Baptista de Silva Lopes, com um estudo de Manuel Cadafaz de Matos, editada em parceria pelo CEHLE e Câmara Municipal de Silves; na “História de Portugal”, direção de José Mattoso, editada pelo Círculo de Leitores; e “As cruzadas vistas pelos árabes”, de Amin Maalouf, edição da Difel.

Nota 2- Conquista definitiva
A tomada de Silves a 3 de setembro de 1189 não representou a conquista definitiva da cidade. Dois anos depois, em 1191, os mouros conseguem recuperar a cidade. Mas da esplendorosa Silves pouco restava. A destruição causada pelos cruzados deixara profundas marcas na cidade e na população.
Depois da morte de D. Sancho II, sobe ao trono o seu irmão Afonso III. O novo monarca preocupa-se em empreender uma campanha contra os muçulmanos que afaste definitivamente este perigo. Em 1249 inicia a sua campanha. O Algarve é definitivamente conquistado.

Nota 3- Estes textos foram publicados pela primeira vez no Terra Ruiva na edição nº 3, nº 4 e nº 5, de julho, agosto e setembro de 2000, respetivamente.

Imagens: Do livro “A história de Silves em BD”, de José Garcês, editado pela Câmara Municipal de Silves em dezembro de 2016.

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