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Armação de Pêra, olhando para o seu passado

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de junho, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “Armação de Pêra, olhando para o seu passado”.
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Exposição_DM_Junho_2017

Armação de Pera, olhando para o seu passado

A década de 1950 ( como vimos no texto publicado na edição anterior) ficou marcada pela construção de equipamentos como o Casino, a Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, o Mercado Municipal, bem como pela construção de um conjunto de moradias e pequenos prédios ao longo da Avenida Beira Mar. As décadas subsequentes são caraterizadas pelo crescente interesse turístico, resultando na edificação de hotéis e dos primeiros blocos de apartamentos, percursores das infraestruturas e do turismo de massas que se vai desenvolver nos anos 70.
A Junta de Turismo de Armação de Pêra e a Câmara Municipal, enquanto entidades promotoras e responsáveis pelas campanhas urbanísticas, tentaram determinar uma política de estruturação urbana que visava manter a relação de Armação de Pera com o mar, uma relação virada para o desenvolvimento da economia local e de embelezamento. Neste sentido, entre os anos 60 e 80, foram produzidos diversos Planos Gerais de Urbanização.

O Hotel Garbe

A pensar no desenvolvimento de Armação, a Junta de Turismo incentivou e facilitou a cedência de terrenos a baixos preços, cedendo a preço simbólico os terrenos necessários para a construção do Hotel Garbe, localizado a cerca de 200 metros do Casino, precisamente no local que o “Plano Geral de Arranjo Urbanístico da Praia de Armação de Pera”, da autoria do arquiteto urbanista Paulo Henrique de Carvalho, em 1955, projetava a localização de um hotel.
No verão de 1959, Francisco José Matias de Oliveira Santos instigou a construção de um hotel que permitisse alojar a crescente massa turística que começava a afluir à pequena localidade.

Hotel Garbe 1959-1963

Nesse mesmo verão foi submetido à apreciação das entidades competentes, o projeto de construção de um hotel que em outubro de 1960 foi aprovado e classificado de “Utilidade Turística”.
O Hotel Garbe, de arquitetura modernista, comercial e turística foi um projeto da autoria do arquiteto de renome do modernismo português, Jorge Ferreira Chaves e de Frederico Santana. Concebido entre 1959 e 1962, surge como um dos empreendimentos pioneiros da indústria hoteleira no Algarve e no concelho de Silves. Espelha a influência do seu projetista no movimento moderno internacional, tanto na conceção arquitetónica das fachadas quanto do estudo e interesse na especificação dos espaços comuns, privados ou serviços no interior e “embora debruçado sobre o mar em nada afeta o equilíbrio e a harmonia da paisagem, antes pelo contrário, e com uma «força» extraordinária, veio valorizar aquilo que de mais puro ela encerra, a forma e a cor das suas arribas”.
Iniciou a sua atividade com cerca de 60 quartos e os seus clientes pertenciam a um nível social mais elevado e eram principalmente ingleses e portugueses.
Dez anos depois, os seus proprietários solicitaram a sua ampliação. Em janeiro de 1972 o arquiteto Jorge Ferreira Chaves projetou a sua ampliação e dotação com uma piscina, concebendo um edifício moderno que apostou na horizontalidade e no jogo de volumes existentes, em vez da construção em altura, com a construção de um novo corpo, de 5 pisos, com capacidade para cerca de 40 quartos.
Em fins do ano de 1980, resolveram os proprietários efetuar uma segunda ampliação, a cargo do arquiteto Cândido Palma Teixeira de Melo que, em abril de 1981, apresentou o projeto que consistia na expansão das instalações para norte.
Este hotel conta atualmente com uma capacidade de 185 quartos. Depois de pertencer à família Oliveira Santos, até 1988, foi vendido à atual gerência e a 1 de julho de 2010 passando a denominar-se “Holliday Inn”.

A esplanada e o minigolfe

Para delinear a rede viária e a ocupação urbana, a 9 de julho de 1962, a Câmara Municipal, sob a presidência de João Bernardino Menéres Sampaio Pimentel, contratou o arquiteto Frederico Alberto Duff Burnay de Carvalhosa e Oliveira para a elaboração do Anteplano de Urbanização de Armação de Pera, pela importância de 23.256$00, referente à área prevista de 75 hectares, no qual devia constar a indicação das construções existentes ou projetadas, ou seja, indicação dos espaços destinados a habitação e a comércio, a edifícios públicos, a parques e jardins, traçados dos arruamentos e ainda as demolições previstas.

Para decoro e embelezamento da estância, no início dos anos 60, a Junta de Turismo procedeu à execução de arranjos na frente mar com a construção de um jardim, entre o Hotel Garbe e o Casino, destinado a recreio público e com um jardim infantil, assim como procedeu à construção de balneários, equipados com duche e WC, escadaria e rampa de acesso à praia.
Construiu também, em 1965, uma Esplanada-Bar, sobranceira ao mar, que comportava 7 grandes chapéus-de-sol, abrangendo 29 mesas e 108 cadeiras, e um bar que foi integrado na concavidade formada pelo terreno. A esta construção pretendeu-se dar um aspeto arquitetónico simples, com grandes superfícies brancas, abrindo por rasgados vãos em arco para a esplanada. A esplanada tem nas duas extremidades escadas de acesso direto à praia, sendo possível aceder-se à avenida pela escadaria cavada no talude contornando a construção.
Em março de 1966, o jardim foi dotado com um equipamento de valências lúdicas, destinado a Minigolfe tendo sido solicitado à Câmara o fornecimento de “6 árvores”.
Nos anos seguintes procedeu-se à dotação de outros melhoramentos, como a pavimentação do recinto da Fortaleza, a pavimentação de ruas, o ajardinamento da Praceta D. Elisa Gomes (Largo da Igreja) e a remodelação e ampliação da rede de distribuição de águas e esgotos.

Por esta altura assistiu-se a um aumento de turistas e populacional, não só na povoação como também nas áreas mais próximas, motivo que originou a necessidade de se estabelecer uma carreira rodoviária de passageiros entre a Praia de Armação e a estação de Caminho-de-ferro de Alcantarilha, a qual foi concedida à “Empresa de Viação do Algarve – E.V.A”.
A década de 1960 foi considerada como a época áurea de Armação de Pera, classificada oficialmente de 1ª Classe, devido ao seu enorme desenvolvimento populacional e turístico, contando com constante animação turística, visitada por altas de individualidades, foi também palco de rodagem de um filme, em 1968.
O Casino, inaugurado em 1958, teve os seus anos de ouro nesta década, atuando durante este período alguns dos grandes nomes da vida artística nacional e internacional. Amália Rodrigues foi uma das artistas que privilegiou Armação de Pera com a sua atuação, acorrendo uma enchente de público.

A 13 de julho de 1965, aquando da sua visita ao Algarve, o presidente da República, o Almirante Américo Tomás, visitou Armação de Pera, Pera, Alcantarilha e Silves. (…) O chefe de Estado descerrou uma lápide comemorativa da visita à entrada do edifício da Junta de Turismo (…) e não terá ficado alheado à magnífica paisagem que se vislumbra daquele local, tendo, (…) ali permanecido alguns instantes a “contemplar o soberbo panorama que dali se desfruta”.

A extinção da Junta de Turismo de Armação

O início do ano de 1970 ficou marcado pela extinção da Junta de Turismo de Armação de Pera, por Decreto-Lei n.º114/70,de 18 de março, que criou a Comissão Regional de Turismo do Algarve. Abrangendo todos os concelhos pertencentes ao distrito de Faro a nova entidade foi herdeira dos bens afetos às antigas administrações das zonas de turismo, entre elas a zona de Turismo de Armação de Pera.
Esta última tentou, porém, evitar a entrega do seu património. Assim, escassos dias antes da publicação daquele decreto-lei, a 12 de março de 1970, no edifício-sede da Junta de Turismo de Armação de Pera, foi lavrada a escritura de doação dos bens próprios da Junta de Turismo à Câmara de Silves. Para o efeito, compareceram os senhores Coronel Joaquim dos Santos Gomes, Casimiro Costa, Eurico dos Santos Patrício, Joaquim Pereira Neves e Luís José Guerreiro Matoso, representantes da Junta de Turismo, o primeiro na qualidade de Presidente e os restantes na de vogais e Salvador Gomes Vilarinho, na qualidade de presidente da Câmara Municipal. Pelos primeiros foi outorgado doar os bens à Câmara que deliberou aceitar a doação.

A Junta era possuidora de um património que ascendia a alguns milhares de escudos, do prédio onde se encontra implantado o “Casino” com parque infantil e terraço para o mar, do estabelecimento de café com terraço descoberto murado e ajardinado, com diversos elementos destinados à prática do Minigolfe, balneários da zona poente da praia e balneários e esplanada junto à Fortaleza.
Contudo, a tentativa foi em vão. Um despacho ministerial obrigou a reversão para a CRTA dos bens afetos à extinta Zona de Turismo de Armação de Pera. Assim, no dia 1 de fevereiro de 1973, procedeu-se a entrega à CRTA, representada pelo seu presidente, José Manuel Teixeira Gomes Pearce de Azevedo, dos bens imóveis que tinham sido doados à Câmara, três anos antes, bem como a quantia de 2.150.461$00, a qual representava o produto da venda dos bens imóveis propriedade do concelho que se encontravam na administração da extinta Junta de Turismo.

Jardim Hotel Garbe, jardim e avenida Beira-Mar, no início da década de 70

Com a extinção da Junta de Turismo, o Casino de Armação de Pera acabou por perder o fulgor adquirido na década de 60. No início dos anos 70 foi o mesmo concessionado a empresários marroquinos, Bennani Ahmed e Budhain Abdallah, que lhe estabeleceram uma vivência norte africana. Mas tal não evitou o seu declínio, passando a funcionar, a partir de 1975, como instalação de apoio à população das ex-colónias, culminando no seu encerramento. Em 1999 o edifício foi parcialmente restaurado, mas não atingiu o fulgor de outros tempos.

Enquanto nas décadas de 1950 e 1960 houve um crescimento urbanístico controlado e com critérios de qualidade e embelezamento as décadas subsequentes são caraterizadas pela construção em massa e desordenada originando o aparecimento dos grandes edifícios em altura.

(continua)

Bibliografia:
Cabrita, Aurélio Nuno, Presidente da República visitou Armação, Alcantarilha, Pera e Silves há 50 anos, Terra Ruiva n.º169, Julho/Agosto 2015.

Exposição “Documento do Mês” do Arquivo Municipal de Silves
Junho 2017 | Texto publicado no Jornal Terra Ruiva

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