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Autenticidade Turística

O verão está à porta mais uma vez. A imagem já é conhecida dos algarvios que povoam a região. Chegam aos magotes; turistas e mais turistas! Atravessam as nossas estradas num corrupio alucinante nos seus automóveis. Chegam sedentos ao nosso aeroporto.

A região enche e transborda durante 3 a 4 meses por ano. Como bons algarvios, nem notamos a parafernália de línguas que ouvimos durante a nossa vida veraneante: inglês, alemão, espanhol e cada vez mais recorrentemente, italiano e francês. As ruas enchem-se; surgem filas em tudo o que é serviço; as nossas belas praias tão repletas de um mar de gente que praticamente deixamos de ver a areia. É o fado da nossa região turística.
O turismo é sobejamente reconhecido como o motor da região há décadas. O turismo moldou e transformou o nosso território de uma forma determinante, se bem que nem sempre da forma mais benéfica. Um passeio pela orla costeira do Algarve basta para ver alguns atentados urbanísticos que brotaram na nossa costa em nome do turismo. Uma ida a Albufeira mostra a idiossincrasia da economia e da identidade algarvia: uma sequência infindável de restaurantes e bares com estilos e sabores mais adequados aos gostos dos turistas estrangeiros do que aos locais. Anos de turismo impuseram uma mutação na nossa forma de apresentar a restauração e os nossos serviços, aproximando-os a uma visão que seria esperada pelos turistas, mas muito diferente da forma autêntica das nossas características e tradições.

Em suma, o turismo que praticamos durante décadas alterou a nossa região e a nossa maneira de ver, no sentido em que ao adaptarmos a nossa oferta económica às necessidades dos nossos turistas, acabamos por sacrificar a nossa autenticidade.

Este conceito de autenticidade tem sido muito debatido em Lisboa e Porto, com a ascensão dos Alojamentos locais nos bairros tradicionais. Argumenta-se de que o turismo de massas corre o risco de matar a “autenticidade” desses locais, substituindo-o por uma versão adulterada dos modos de vida locais, conspurcada pela globalização e que acabará por tornar o local numa cópia normalizada de outras cidades ocidentais. Uma cópia sem alma.

De certa forma, o que se discute em Lisboa nos dias de hoje é o que tem ocorrido no Algarve nos últimos 30 anos.

A região transfigurou-se e adaptou-se sob as marés do turismo. As regiões turísticas do nosso Algarve são praticamente iguais em substância e forma às vistas em outras estâncias turísticas do Mediterrâneo. Corre-se o risco de se perderem sabores e tradições tão únicas ao nosso Algarve.
E no entanto, tal não sucede. O turismo de massas incide a sua influência em certas zonas, mas permite que outros locais floresçam com outro tipo de turismo. Os sabores autênticos das nossas serras são cada vez mais apetecidos pelos visitantes. Novos tipos de turismo, que não os de sol e mar, como a ornitologia, o turismo rural e o de surf apresentam novas facetas da nossa identidade, introduzindo aos turistas todo um novo Algarve, e com ele, um pouco da nossa autenticidade. O turismo de massas tem os seus dissabores, mas pode potencializar a visita a esses locais do Algarve mais profundo. A nossa identidade enquanto região turística traduz-se em mais do que a areia das nossas praias.

Muitos aspiram por uma autenticidade dos velhos tempos; mas nos anos sessenta éramos uma região rural e piscatória, com muito poucas oportunidades. Éramos “autênticos”, mas com um nível de vida precário.

Não quererei dizer com isto que a mudança é benigna pelo facto de mudar; um grau de autenticidade é necessário para mantermos a nossa identidade. A evolução traz desafios, mas creio que manteremos sempre algum grau de autenticidade. Mudamos porque os tempos assim o exigem. Mudaremos, com as mudanças necessárias.

Ressoam as palavras de Lavoisier: “Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

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