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Silves- Uma pérola de grés

Silves é uma cidade de alguns deslumbramentos ! Para mim assim foi na minha meninice. Essa magia de cidade mais perto da minha aldeia, nesse constante sortilégio de cidade de um castelo… E assim foi, quando fui a Silves, numa primeira vez, aos dez anos, para prestar provas de 4ª classe primária, que foi, no meu tempo, uma obrigação estabelecida pelo sistema corporativo-fascista.

Lembro o fascínio dessa manhã. Cedo, a camioneta do Monteiro, na carreira diária, com destino a Portimão, surgiu-me a cidade coroada do seu castelo de séculos… muitos séculos, alpendrado numa coroa de grés. Foi um momento mágico para mim. O certo é que esse sentimento se me albergou: cada vez que visite a cidade, essa carga de história que a tem sustentado em desequilíbrios de poderes, tem-me merecido alguns estudos.

Sempre fui um amador de cafés. Vamo-nos sentar na interessante praceta, junto à Câmara Municipal. Lá está a Pelourinho que o antigo presidente da Câmara (José Viola) “arrancou” do Museu Municipal de Faro, mandando recolocar no espaço tradicional, frente ao Poder: Os Paços do Concelho, assim designado. O café “Rosa“, creio ser esse o seu nome comercial, sempre acolhedor. Gosto de me sentar na pequena esplanada, num prazer de tranquilidade, da tranquila praceta.

É bom repousar em Silves, Tenho por companhia um livro, “As Sandálias do Mestre”, do historiador Adalberto Alves. Mas sou interrompido: Uma jovem, em fala de Apollinaire, pergunta-me, sentando-se, “Onde fica o Museu da cidade”. Um dedo de conversa, um cálice de vinho da terra e uma declaração primaveril ao homem de inverno: “Que cidade é esta, tão tranquila. Apetece passear nela“. A senhora do café interrompe. E eu aproveito a desembaraçar-me. “ Diga, por favor, que cidade é a sua, assim posta num sossego? –“ Ah, é uma cidade de mulheres e de flores, Temos rosas, sossego e… as pessoas gostam de nos visitar. Vai mais um cálice de vinho? É por conta da casa.” Não, assim não me dá o prazer de cliente. Céline, a jovem gaulesa, assim chamada, num cumprimento de beijos, lá abalou ao Museu do José Viola.

Eu recuperei “ As Sandálias do Mestre” , na demanda das raízes de Portugal encontramos um arco atlântico que integra as influências célticas do norte e o impressionante contributo islâmico da rica civilização do al-Andalus. Mas o Ocidente Peninsular, o nosso território foi um palco privilegiado da acção dos mestres sufis ,com o Ibn Qasi, que deixou Silves nessa alta cultura muçulmana. Nesse interesse que Silves deixou, como figura de profundidade intelectual.

 

Fui ficando nesse quase ambiente bucólico, em que o mistério dos tempos nos transporta em passado e presente. Era tempo de arrancar… Franqueada a porta da cidade por onde passou toda a história de Silves. De glórias e não tanto: decadências de Afonso Henriques e de Ibn Qasi, Fernando, o Magno, a Sancho, o Povoador , a Diogo das Descobertas, que levou o nome da sua cidade de Silves para o Amazonas, à beira do Lago Saracá, fundando a Silves brasileira. Porta por onde passou a mortalha do Príncipe Perfeito, morto, a 25 de Outubro de 1495 (no Alvor), a caminho da Sé-Catedral, até que em 1499, passe de novo pela Porta, para a viagem de morada definitiva, para o Mosteiro da Batalha. Vou “lendo” a história do meu cérebro, no dia em que o moço rei Sebastião passou pela mesma Porta, e o seu cronista João Cascão, a deixar escrito, a “penúria” de Silves já acentuada ao receber o seu rei sob pálio velho e esburacado.
Foi o tempo da grande cidade começar a ver o seu rio Arade a se entupir, a apodrecer e, o seu bispo, o último, Jerónimo Osório, o intelectual, o exilado, sob ordens superiores, o bispo que incomodava Castela, pelas tiradas, pelas cartas que enviava à viúva do chamado piedoso, João III, o introdutor da Inquisição no reino e império de Portugal. Jerónimo, o mais ilustre dos 33 bispos que Silves conheceu, o homem da filosofia renascentista portuguesa, figura respeitada pela Europa, como se afirmou pelos séculos, como hoje, neste século XXI, se pode afirmar: No século XVI, Jerónimo Osório foi o português mais célebre na Europa graças aos seus tratados escritos em elegante latim, então a língua internacional. Os seus livros, com numerosas edições, em vários países europeus, foram verdadeiros “best-sellers”.
E numa semana Santa de 1577, Osório abalara para Faro, numa ordem real, onde a política, o comércio, a intriga se instalaram. Iria morrer em Tavira, numa acção de patriotismo pela defesa da nacionalidade de Portugal. Pouco depois, Portugal caía ao poder dos Filipes. Terei que, de novo, reconhecer o ex-presidente José Viola, na publicação das memórias do ilustre Bispo de Silves, em título “ D. Jerónimo Osório -Cartas “- Edição de 1995- Câmara Municipal de Silves. Ao Bispo Jerónimo, já é tempo de uma estátua, in memória !

Vou subindo a ladeira, rua empinada, que me leva ao centro histórico da cidade de Silves: Sé-Catedral, Castelo e Misericórdia. Só lhe falta a Cruz de Portugal, onde teve residência, por séculos. Deveria regressar ao seu lugar de origem. A História tem de se cumprir. Porque hoje, a Cruz de Portugal, Monumento Nacional (1910), está deslocada do seu centro histórico.

A minha última visita a Silves a 28/11/15, em conferência sobre a conquista de Ceuta, a 28/08/1415. Passei pelo castelo, revivi o passado do Infante D. Henrique, e o seu poder na cidade, que lhe foi concedido pelo seu sobrinho, o rei Afonso V. O Historiador Alberto Iria, publicou em 1960, um “Itinerário do Infante D. Henrique no Algarve”. Silves, outrora opulenta cidade muçulmana do Garb, de considerável importância marítima ( ainda no tempo do navegador ), comercial e agrícola, possuidora de tradicionais estaleiros de construção naval e de excelente porto fluvial, a dois passos do Atlântico, viveiro de hábeis mareantes, etc. etc.

Leva-nos à pergunta: Que maldição caiu à Pérola de Grés para uma travessia que se foi perpetuando, de século a século?! Gente de garra não lhe faltou, e que hoje, neste XXI, se recupera.

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