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Armação de Pêra, um breve olhar pelo seu passado recente

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de maio, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “Armação de Pera um breve olhar pelo seu passado recente”
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição.

A versão integral , com fotos e documentos pode ser vista aqui: Exposição_DM_Maio_2017

Armação de Pera, um breve olhar pelo seu passado recente

Com a criação da Comissão de Iniciativa e Turismo de Armação de Pera, em 1923, e a sua autonomia e separação da freguesia de Alcantarilha, em 1933, Armação de Pera beneficiou de grande desenvolvimento urbanístico.

Em janeiro de 1934, tendo conhecimento que o Governador Civil do Distrito de Faro, João de Sousa Soares, ia tratar junto do Governo de vários pedidos de defesa e melhoramentos para esta província, o presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Silves, João Azevedo Zuzarte Mascarenhas, reconhecendo que “sendo Armação de Pera neste concelho a unica estancia de Turismo”, solicita a “construção da avenida beira mar bem como a d’um casino”.
O projeto para construção da Avenida Beira Mar que contemplava esplanada junto da Fortaleza e Casino ficou a cargo do eng. Inácio Francisco da Silva. Para a realização desta obra, a Comissão de Iniciativa e Turismo de Armação de Pera contou com comparticipação do Estado. Numa primeira fase foi necessário entrar “em negociação amigável com os proprietarios dos terrenos a expropriar, e de seguida a realização do empréstimo (…) junto da Caixa Geral de Depositos, no montante de trezentos mil escudos, ficando englobadas as construções da avenida e Casino”.

Em 1934 é solicitado ao Engenheiro Anastácio Guerreiro de Brito que apresentasse o projeto do Mercado. A venda de peixe, hortaliças e restantes géneros era feita na praia, em locais dispersos e na rua, ao ar livre, em lugares sem as mínimas condições de higiene. A construção do mercado iria obviar estes inconvenientes. O local escolhido para a edificação foi junto à praia e adjacente à rua Heróis de Kionga, onde existiam umas ruínas pertencentes à viúva de António Gonçalves Barão. No entanto, este mercado não chegou a ser construído.

Por esta altura é de salientar o papel determinante do ministro Duarte Pacheco, enquanto grande impulsionador e dinamizador das Obras Públicas e Comunicações do Estado Novo. Entendendo o planeamento como um instrumento racionalizador das múltiplas intervenções do Estado junto dos interesses municipais, determinou que as câmaras municipais não deveriam empreender “quaisquer trabalhos de urbanização que não estivessem subordinados a um plano convenientemente delineado com a previsão do futuro”. Porém esta orientação urbanística exigia um enorme esforço financeiro e técnico do MOP no que se relaciona com a cartografia necessária para os Planos Gerais de Urbanização. O país não estava ainda preparado para que, de repente, perto de trezentas câmaras municipais tivessem de elaborar os respetivos PGU.

Após a morte de Duarte Pacheco e a II Guerra Mundial a política urbanística sofreu um forte revés. Em 1944, os municípios ficaram reduzidos a meros executantes de obras emanadas da recém-criada Direção-Geral dos Serviços de Urbanização.
Foi neste contexto político e legal que com a finalidade de ordenar, planear e programar o desenvolvimento e expansão de Armação de Pera se iniciou a execução de um plano que visava o embelezamento e a criação de uma imagem de conjunto, com uma série de obras de beneficiação.

A 3 de agosto de 1950, o Engenheiro Civil Carlos Filipe Pinto Pimental apresentou o “Projeto do Casino e das Instalações da Junta de Turismo de Armação de Pera”, a pedido da Junta de Turismo de Armação de Pera, com comparticipação do Estado.
Este visava a instalação, no mesmo edifício, do Casino e da sede da Junta de Turismo sendo “organizado de modo a que a construção ficasse o mais económica possível”.

O Casino de Armação de Pêra

As dependências da Junta de Turismo eram compostas por uma sala de leitura, onde se encontravam diariamente jornais e outras publicações, e a secretaria, também usada como posto de atendimento permanente ao turismo. Das instalações do Casino faziam parte uma sala de jogo, bem dimensionada para a época, uma sala de baile e espetáculos, circundada por espaço destinado à restauração / bar, que era limitado integralmente por janelas que permitiam desfrutar de vistas amplas sobre o mar e baía. Tinha como dependências comuns o hall e as instalações sanitárias. Todo o perímetro exterior a sul dispunha de uma zona de esplanada que o acompanhava, circundando o Casino, sobre a praia e o mar, culminando num agradável jardim fronteiro à baía. Este orçamento importa na quantia de 588.438$00.
Com uma localização privilegiada, na primeira linha sobre a falésia, possui uma arquitetura própria do Estado Novo, marcada por elementos decorativos que evocam um aspeto náutico e marítimo, que encaixam perfeitamente na sua função de entretenimento social.
Para fazer face às despesas de construção, a 17 de janeiro de 1956, a Câmara de Silves deliberou “contrair um empréstimo na Caixa Geral de Depósitos Crédito e Previdência, no montante de trezentos mil escudos”.
O Casino foi inaugurado oficialmente no dia 20 de julho de 1958.
Dois anos depois de ter entrado em funcionamento, o Casino sofreu obras de ampliação, tendo sido apresentado pelo arquiteto José Sobral Blanco, o projeto de ampliação que contava com a construção de um restaurante, instalações sanitárias e átrio.

Existindo apenas na freguesia uma pequena capela, insuficiente para os serviços religiosos, por iniciativa e excecional dedicação de Elisa Santos Gomes, auxiliada por seu filho, o Coronel Joaquim dos Santos Gomes, comandante do Regimento de Infantaria n.º1, em Lisboa, e presidente da Junta de Turismo de Armação de Pera, foi para a frente a ideia de construção de um novo templo.

Projeto da Igreja de Armação de Pêra

Depois de, em acordo com a Câmara de Silves, se ter procedido à escolha do terreno, na área de um novo bairro que se começava a construir, foi adquirido um lote de 17 x 34 m, pela Comissão da Fábrica da Igreja.
Esta Comissão estabeleceu que o edifício destinado à invocação de N. Sra. dos Navegantes, deveria ter acomodações para cerca de 600 fiéis e incluir, além da Capela-Mor e duas capelas laterais, sacristia e casa mortuária, um pequeno museu que serviria também para a catequese.
O “Projeto da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes” data de 15 de dezembro de 1951, da autoria do arquiteto José Sobral Blanco.
Quase uma década depois, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes foi inaugurada, a 24 de julho de 1960. Os atos litúrgicos foram presididos pelo Bispo do Algarve, D. Frei Francisco Rendeiro. Às cerimónias assistiram e discursaram o Governador Civil do Distrito, António Batista da Silva Coelho, em representação do Ministro das Obras Públicas, o Presidente da Câmara Municipal de Silves, João Bernardino Meneres Sampaio Pimentel e o Presidente da Junta de Freguesia. Como forma de reconhecimento pelo esforço e dedicação da ilustre senhora, foi dado o seu nome à praceta onde se situa a nova Igreja e atribuída a Medalha «Pro Ecclésia et Pontifice».

Para a elaboração do “Plano Geral de Arranjo Urbanístico da Praia de Armação de Pera” a Câmara Municipal, em 1955, convidou o arquiteto especialista em urbanismo Paulo Henrique de Carvalho Cunha, de Lisboa. Depois de aprovado pela Câmara, foi “sujeito à apreciação e aprovação das Entidades Superiores”, e em 1958 foi homologado pelo Ministro das Obras Públicas.
Faz parte integrante do Plano a construção de um Mercado, cuja necessidade se vinha sentindo de ano para ano. A 30 de janeiro de 1958, o Presidente da Câmara, Carlos Alberto Lucas Lança Falcão, mencionou que “o problema pode ser resolvido com a transferência do material da antiga praça de peixe de Silves dado que esta já foi substituída pelo actual Mercado Municipal”. Posto isto referiu que “de acordo com a Junta de Turismo e Junta de Freguesia escolhera em principio um terreno propriedade da Senhora Dona Clotilde Pereira Caldas de Vasconcelos, (…) do qual há a destacar duzentos e cinquenta e dois metros quadrados necessários ao empreendimento. Das negociações levadas a efeito junto da proprietária propõe-se esta vender aquela parcela ao preço de vinte escudos o metro quadrado”. Apreciado o assunto a Câmara aprovou a aquisição do terreno, a construção da praça e o aproveitamento dos materiais. A escritura de compra foi realizada no dia 1 de abril do mesmo ano, iniciando-se de imediato as obras de construção, tendo o mesmo sido inaugurado, no domingo, dia 26 de junho de 1960, pelas 17 horas.
Para a sua entrada em funcionamento o vereador Eduardo Nunes ofereceu “durante os meses de verão o empréstimo duma bomba e motor para tirar água dum poço público” e a Câmara deliberou “que nele se procedesse à venda de todos os géneros, incluindo peixe. (…) Nas ruas da povoação ficam proibidas as habituais vendas fixas sobre pequenos estrados”.

A década de 1950 foi, por tudo isto, considerada como a época de impulso do crescimento urbano de Armação de Pera, na qual foram realizadas importantes obras de melhoramento, concebidas, planeadas e executadas, por gente de grande sensibilidade, visão e espírito de empreendimento, sem prejuízo da qualidade humana, mas sobretudo atendendo às condições de que dispunha num contexto de dificuldades económicas. Deste modo, a povoação, que até à data se situava essencialmente a poente da aldeia dos pescadores, seguindo a estrada para Alcantarilha, começa a estender-se para poente, com a construção de um conjunto de moradias unifamiliares, da Igreja e o aparecimento de pequenos prédios.
O edifício do Casino ocupou um lugar de destaque na malha urbana em que se insere e teve os seus anos de ouro na década de 60, atuando no casino alguns dos grandes nomes da vida artística nacional e atraindo para Armação de Pera um surto de turismo em massa.

A década seguinte vai, no entanto, ser caraterizada como a época do desabrochar para o turismo, resultado da construção de edifícios como o Hotel Garbe e o aparecimento dos primeiros blocos de apartamentos.

(continua)

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